Este livro foi o meu primeiro contacto com as “Pathfinder Tales” que, como o nome indica, retractam aventuras situadas no mundo de Golarion, um setting de jogos de roleplaying bastante famoso – a sua história é interessante já que a editora aproveitou o mercado deixado pelos jogadores de Dungeons & Dragons que ficaram extremamente desiludidos com a quarta edição (nos quais me incluo) mas quem se sentir interessado pode facilmente pesquisar o enorme universo dos produtos da Paizo. Escolhi este volume ao acaso já que os livros desta série não são sequenciais e o nome parecia até apelativo. Seguimos uma das aventuras de Salim Ghadafar um investigador da Igreja da deusa da morte, Pharasma, que é destacado para os casos mais complicados que esta congregação enfrenta. Uma alma foi roubada à deusa e os raptadores exigem um resgate fabuloso por parte da família da vítima, o elixir de prolongamento da vida. Este elixir é produzido de forma secreta de 5 em 5 anos e é aberta uma licitação por parte de todos os que procuram prolongar a sua vida, desta vez foi o mercador assassinado o escolhido mas alguém se adiantou e não só pôs termos à sua vida como impediu a sua alma de prosseguir para o além. Caberá ao nosso estóico herói e a Neila Anvanory (filha da vítima) deslindar o que se passou e quais dos muitos inimigos é responsável por esta tragédia.

O jogo no qual se baseiam esta série de livros de ficção - recomento vivamente.

O jogo no qual se baseiam esta série de livros de ficção – recomento vivamente.

Em primeiro lugar é destacar que não se deve ir para livros baseados em jogos de roleplaying com demasiadas expectativas. Na maior parte dos casos são orientados para um público Young Adult pelo que muitas vezes as personagens ficam demasiado simples e desinteressantes, o que em certa medida sucede com esta história. Salim é um personagem bastante complexo para o que é normal neste género de livros, um ateu que rejeita que os deuses devam ser adorados (apesar de admitir a sua existência) que serve uma religião dedicada ao culto da morte e profecia. A sua biografia pouco habitual é bem interessante e vai sendo revelada à medida que o livro avança de forma bem medida revelando uma personalidade coerente e consequente. O problema são as outras personagens. São muito menos cuidadas ao ponto da sua companheira de viagem, a filha do mercador, ser apenas um acessório, um conjunto amorfo de traços que servem apenas para proporcionar momentos de interacção com o protagonista. O Vilão é outra desilusão já que depois de desmascarada a conspiração percebemos que tudo foi relativamente simples e que todo o processo investigativo foi apenas uma forma simpática que James Sutter arranjou de nos mostrar vários ambientes mágicos mais estranhos polvilhados com encontros com criaturas que servem para criar momentos de combate (algo vital no género Sword & Sorcery).

Uma capa com arte de qualidade, algo a que Paizo já nos habituou em quase todos os seus produtos

Uma capa com arte de qualidade, algo a que Paizo já nos habituou em quase todos os seus produtos

O que me pareceu interessante neste livro (e promissor para os seguintes) é o facto da Paizo claramente ter quebrado o molde tradicional que os livros do universo Forgotten Realms tinham criado. Há temas adultos, há algum sexo mais ou menos gratuito e existe mesmo alguma maturidade na escrita o que coloca esta obra alguns degraus acima de um livro de fantasia pueril. Apesar de alguma artificialidade das interacções o ritmo a que a acção se desenrola assegura que o leitor não se irá aborrecer durante muito tempo. Penso que é um excelente livro de verão, com muita acção e um história fácil de acompanhar que com certeza irá agradar aos devotos do género, fiquei curioso por voltar a visitar Golarion através de outros livros da série.

Nota: 7/10

Nuns Estados Unidos diferentes dos actuais, todos os anos são seleccionados 100 adolescentes masculinos para participar numa marcha até à morte. Não podem andar a menos de quatro milhas por hora, não podem parar ou abrandar por mais de 30 segundos ou recebem um aviso, não podem receber mais de 3 avisos. Ao fim destes 3 avisos, uma tentativa de fuga ou desobediência, serão mortos. A marcha continua, dia e noite, até restar apenas um. Esse atleta tem direito a pedir tudo o que desejar sendo adorado por milhões de americanos como um herói. Este é o novo desporto sangrento que apaixona uma América totalitária. Ray Garraty, o nosso herói, é apenas um jovem com uma vida mais complicada que a maioria. A sua mãe teve que o criar sozinha depois do pai ter sido morto por um governo totalitário que reprime qualquer opinião dissidente. A amargura é o que caracteriza grande parte da sua infância e talvez tenha condicionado a sua decisão de se candidatar à corrida. Seja como for, está condenado a acabar o que começou. Ou vence os outros 99 concorrentes ou tem que aceitar a sua própria morte ao desistir.

A minha edição. Bastante boa. DIscreta. Sóbria. Algo escura.

Devo dizer que estava à espera de um livro diferente. Stephen King é um autor mais conhecido pelos seus contos sobrenaturais e de horror e esta história tem pouca relação com esses temas. É “apenas” a história de alguns jovens que tomaram uma decisão estúpida que lhes pode custar a vida antes dela ter realmente começado. O estranho é que apesar de tudo o livro é algo viciante. A história não é particularmente complexa mas a escrita tem uma fluidez que nos faz continuar a ler mesmo quando pensamos que estamos a perder interesse. Isso é a marca de um bom escritor. O facto torna-se ainda mais notável porque esta foi a primeira obra que King escreveu, quando ainda era aluno da Universidade de Maine (o Estado onde ele aliás situa a sua história) em 1966 e 1967. Talvez por ser tão novo (e estar tão próximo da idade das suas personagens) consegue retractar de forma extremamente convincente todas as angústias que definem o fim da adolescência – de um ponto de vista global são pouco interessantes, mas isso é apenas porque os adolescentes são, regra geral, objectos de estudo pouco interessantes. Usando o mecanismo do esforço físico que as personagens despendem o autor trás à superfície a análise da curta vida destes jovens pelos seus próprios olhos. Tecnicamente está bem estruturado e executado.

Uma versão mais antiga. Decente mas inferior.

Como disse acima os adolescentes não costumam ser material para as personagens mais interessantes do mundo, quanto mais não seja porque a maioria não teve ainda experiências de vida interessantes o suficiente para merecerem destaque, e isso nota-se nas personagens de King. De um ponto de vista mais psicológico e intimista terão sem dúvida o seu interesse mas em última análise são demasiado vulgares e mundanos para fascinarem o leitor. Mas, mesmo assim, existe um leque com alguma variedade. Temos Peter McVries, o principal amigo e “aliado” de Ray na corrida, sendo que os dois formam uma verdadeira amizade (e com potencial até para ser algo mais) no decorrer do livro. Gary Barkovitch, o miúdo ligeiramente psicopático que todos odeiam e que facilmente entre no molde do “vilão”. O estóico Stebbins, a personagem mais enigmática do livro – sabemos que há algo especial e secreto acerca dele e o autor soube manipular muito bem essa expectativa até quase ao fim do livro. E por fim o Major. Uma personagem quase sem falas. Que apenas representa o poder opressivo do regime que os força a continuar a correr. Aparece fazendo discursos hipócritas de apreciação do valor dos jovens mas, tal como o sistema que o criou, é na realidade perfeitamente indiferente ao seu destino. Para o ano será outro grupo de 100 e voltarão a correr até só sobreviver um. Os sentimentos dos jovens para com esta personagem são dos pontos mais interessantes da obra. Por um lado odeiam-no. Reconhecem o seu estilo de “mal banal” que se esconde atrás de um uniforme para apagar as suas acções criminosas. Mas por outro lado, não conseguem deixar de o adorar como um ídolo. Os mecanismos de vinculação emocional que o regime criou parecem, por vezes, sobreviver até à experiência da morte. Por fim parece-me relevante referir a multidão que acompanha a corrida. Como símbolo não é particularmente subtil e representa o que se espera, a forma animalesca como as pessoas se alinham com os regimes e acções mais bárbaros desde que seja isso que é esperado delas socialmente.

Teria sido talvez mais interessante se King tivesse desenvolvido mais o lado político da narrativa e tivesse usado personagens mais complexos. De qualquer forma é um livro mais que recomendável e que se lê muito bem sem ser preciso estar preocupado em perder o fio à narrativa quando tem que se fazer uma pausa.

Nota: 7.5/10

Uma nave espacial gira no espaço com rumo desconhecido. Dentro dela um homem acorda repentinamente. Num minuto está a viver idilicamente no “dreamtime”, o espaço virtual para os que estão congelados até à altura de colonizar o planeta de destino, e no próximo está a sair do seu casulo para encontrar uma nave gelada e hostil que não parece querer que ele sobreviva. Não sabe o seu nome, não reconhece a nave, não tem qualquer memória da rapariga que o acompanha e que lhe salvou a vida ao impedir que morresse congelado no seu casulo. A única certeza que tem é que algo correu mal. Alguma coisa sucedeu durante a sua hibernação que alterou radicalmente a nave em que viagem que está agora povoada por criaturas não humanas, algumas que, como ele, apenas querem sobreviver e outras que parecem ter sido desenhadas para caçar. Mas antes de se poder dedicar à procura de respostas sobre o passado terá que se preocupar em sobreviver num ambiente que parece desenhado para o matar. Talvez, com sorte, passado algum tempo consiga ter oportunidade de obter algumas respostas.

Image

Uma capa simples e funcional. Um pouco como o livro.

A história usa um conceito inicial bastante bom, o do homem solitário que tem que sobreviver num ambiente em que desconhece as regras básicas. O tom da escrita é inicialmente cativante porque Greg Bear consegue capturar bastante bem o estado mental da sua personagem principal. A confusão, o cansaço, a fome e a ignorância estão todas bem retratadas e a escrita varia perceptivelmente quando o estado mental muda. Por representar bastante bem estas variações acaba por ser algo cansativo para o leitor já que o tempo de concentração da personagem em qualquer tema ou objecto tende a ser tão curto que ficamos sempre com descrições algo superficiais de eventos e personagens que não nos permitem obter o nível de detalhes que gostaríamos. Por sua vez a superficialidade do envolvimento com meio leva, por mais que uma vez, a uma sensação de que a escrita é apressada e que a história está a avançar quase sozinha, sem motivações concretas ou razões que expliquem o porquê das acções. Para os fãs de “hard scifi” a experiência é algo melhor já que Bear, como é seu hábito, dedica uma boa parte do seu tempo a explicar o funcionamento técnico das máquinas presentes neste universo tentando com que tudo faça sentido.

Image

Uma versão alternativa. Não muito diferente mas talvez mais evocativa.

As personagens são a parte mais frágil desta obra. São demasiado superficiais. E aqui podemos discutir se isto se deve a uma questão de estilo do autor (que tendo realmente a privilegiar o aspeto tecnológico das suas histórias) ou a uma tentativa deliberada de transmitir aos leitores uma sensação de caos mental e vidas que são tão perigosas que não há tempo para desenvolvimentos interpessoais ou introspeção – provavelmente será um pouco de ambas. Seja como for o efeito acaba por ser um conjunto de personagens sem qualquer profundidade que não tornam a identificação com o leitor nada fácil. Em termos de perspetivas usadas na narrativa estamos perante uma obra que usa apenas um ponto de vista sendo toda a ação vista pelos olhos do nosso “recém acordado”. As personagens secundárias adicionam alguma cor ao cenário interno algo árido do nosso herói mas não tanto como seria possível já que mais uma vez o autor escolhe centrar-se sobre a sua função técnica em total detrimento das suas personalidades e interesses.

Poderá parecer que não apreciei o livro ou a escrita do autor mas se me centro nos aspetos negativos da obra é precisamente por ter até gostado da viagem e pensar que com algumas alterações de perspetiva o autor poderia ter criado uma obra muito mais interessante que não daria a impressão de estar inacabada, de lhe faltar alguma substância ou de reter demasiada informação vital quase até ao final do livro. Mesmo assim “Hull Zero Three” é uma obra de ficção científica pura e dura de fácil leitura, requer pouca concentração por parte do leitor (não existem muitos detalhes da história a recordar) e providencia umas boas horas de diversão apesar de provavelmente não ir ficar na memória passado algum tempo.

Nota: 7.5/10 

No futuro sangrento existe apenas guerra. Sem compromisso. Sem interrupção. Milhares de milhões de humanos lutam através da galáxia em nome do Deus Imperador, aprisionado para todo sempre em animação suspensa na Terra. Os Space Marines (Astartes) são a maior arma do arsenal humano, guerreiros imparáveis treinados e condicionados geneticamente para alcançarem a perfeição bélica. Dentro das várias legiões de Astartes uma das mais prestigiadas é sem dúvida a dos Ultramarines e é sobre eles que este filme fala. Nas profundezas do espaço, a bordo de um transporte espacial, o esquadrão Ultima recebe um comunicado de emergência do planeta Mithron. Um planeta desértico e periférico no espaço imperial cuja única importância (e razão para existir presença humana) é a ser um santuário ao Deus Imperador e conter uma relíquia sagrada guardada por uma companhia de Imperial Fists. Sabendo que para este pedido ter sido emitido a situação deve ser mesmo grave o capitão Severus avança mesmo tendo apenas o apoio dos dez astartes do esquadrão Ultima. É um estranho esquadrão, constituído por um comandante que já viu quase tudo e soldados que ainda estão bastante verdes sendo esta a sua missão de teste. Sozinhos num planeta aparentemente abandonado estes homens encontram apenas escombros do santuário e sinais claros de um massacre das forças imperiais presentes. Mas se foi esse o caso e os poderes do Caos chegaram a este mundo então onde se encontram? Que força de ataque foi forte o suficiente para aniquilar completamente uma companhia inteira de Space Marines?

A chegada ao inferno...

Quando este projecto surgiu  fiquei bastante entusiasmado porque como os leitores deste espaço sabem eu sou um grande fã do universo Warhammer. Não sabia muito bem o que esperar porque é realmente um projecto único, um filme de animação de longa duração sobre um dos universos de ficção científica mais interessantes que existem. O argumento (como não podia deixar de ser) é da autoria de Dan Abnett o “poster boy” da escrita da Black Library e tem alguma consistência apesar de eu achar que não está ao nível do resto da sua obra.  Ao longo de 70 minutos temos uma pequena amostra do que é a vida destes super-soldados, como pensam, como combatem, o que os motiva e o que os atormenta. De certa forma é um filme mais humano daquilo que estava à espera já que a história gira muito à volta de temas como a confiança (a paranóia é constante quando se lida como poderes do Caos que podem corromper qualquer um), a autoridade (um tema mais militar) e a ânsia de dar provas de que se vale alguma coisa – tudo áreas que permitem uma identificação quase imediata com qualquer leitor. Como fita-cola de todo o filme temos um elemento de suspense constante que nos deixa sempre à espera do que vai acontecer e liga muito bem os momentos de acção (tomara muitos filmes de horror terem consigo criar esta atmosfera tensa mas expectante). Numa nota menos positiva: ao focar-se tanto no elemento pessoal o filme acaba por dar uma ideia muito fraca do ambiente geral do setting Warhammer o que pode ser algo problemático a quem não conhece quase nada – muito poucas explicações sobre as facções envolvidas, as leis de funcionamento deste universo e ainda menos contexto político/conspirativo que costuma fazer parte deste tipo de narrativas.

Isolados num deserto imenso sem saber o que esperar...

De um ponto de vista gráfico o filme está muito agradável mas não está muito acima das animações que já foram feitas para os vários jogos Warhammer para PC – de certa forma esperava um pouco mais neste campo (tenho a certeza que o próximo filme terá um orçamento maior e permitirá isso). As vozes foram muito bem escolhidas e só posso dar os meus parabéns aos actores que lhes deram vida: Terrence Stamp, Sean Pertwee e o grande John Hurt. A personagem principal (não vou entrar muito neste campo porque sinceramente não é muito relevante para a progressão da história) que é escolhida para encarnar as virtudes do Ultramarines (quando chegarem ao fim do filme perceberão o que quero dizer) é sem dúvida o irmão Proteus e quase se podia dizer que o filme é o primeiro capítulo da sua vida activa. Com alguma personalidade distinta ainda temos os velho capitão Severus que tenta liderar uma missão que quase tem a certeza ser suicida e o “médico” do esquadrão, Carnak, que tem tanta experiência como Severus e tudo faz para arrefecer os ânimos dos novatos. Acaba por ser uma mistura entre um prólogo de grandes eventos que ainda estão por vir e um episódio heróico recordado para todo sempre como história moral.

I am Steel, I am Doom, I march For Macragge And I Know No Fear!

Nota: 8/10

Nota: Este filme só está disponível através do site dos próprios produtores do filme.

Paul Atreides, Muad’dib, está morto há mais de nove anos. O Imperador que conquistou um trono usando os terríveis Fremen, o povo de Dune, como exército e mecanismo de controlo da Spice, a única coisa que mantém o Império interestelar a funcionar (permite aos navegadores da Guilda Espacial dobrar o tempo e espaço além de ter outros usos pessoais como aumentar a esperança de vida e presciência), não conseguiu conseguir sobreviver aos seus próprios poderes de previsão do futuro e acabou por entrar sozinho no deserto para nunca mais voltar. Mas a galáxia não esteve parada desde esse dia. Os seus filhos gémeos, leto e Ghanima, são os herdeiros do Império e enquanto não atingem maturidade Alia (sua tia, irmã de Paul) assume o controlo directo da regência e do corpo religioso que deificou Muad’dib e que prossegue uma imparável cruzada de conversão pela galáxia. Mas estas duas crianças não são normais. Tal como a sua tia possuem a memória genética de todos os que os precederam o que faz deles anciões veneráveis em corpos de crianças mas ao contrário dela querem encontrar uma forma de controlar as incontáveis vidas que possuem dentro de si para não perderem as suas próprias personalidades. Fora destas tensões familiares o próprio planeta de Arrakis está a mudar. Os fremen estão intencionalmente a mudar o clima ao mesmo tempo que o seu carácter também se altera. De ferozes, independentes e isolados passaram a citadinos, conquistadores e gananciosos. Poderá o Império manter-se quando a sua base militar parece estar a mudar de forma tão rápida? Pode o próprio planeta, e a vital Spice, sobreviver aos novos donos? Como se estas incertezas não bastassem a grande casa Corrino conspira de longe para recuperar o trono que Paul lhes tirou ao fim de incontáveis gerações e a própria irmandade das Bene Gesserit, através de Lady Jessica (avó dos gémeos e mão de Alia), parece empenhada em minar os novos poderes para benefício do seu programa de perfeição genética. Como se isto não fosse suficiente surge do deserto profundo (onde ainda existem as grandes minhocas produtoras de spice, Shai-hulud, encarnações vivas de deus segundo a mitologia fremen) um profeta cego que parece determinado em minar o edifício religioso do novo Império. Em última análise trata-se de saber quem governa Dune e por extensão a Galáxia.

Uma versão discreta e sóbria.

Este livro, o terceiro da saga Dune, é a continuação conceptual directa dos outros dois volumes e prossegue a exploração de Frank Herbert sobre a evolução das civilizações, o papel da religião, a realidade da política e em certa medida até pode ser visto como uma meditação sobre o nosso destino colectivo. Se há algo que podemos apontar como característica desta série é a nossa incapacidade, enquanto leitores, de perceber muito bem como as coisas vão acabar; existem demasiadas personagens, interesses, eventos e sempre mais uma surpresa quando pensamos que as coisas já estão decididas. Sendo este o terceiro livro há um certo desgaste deste recurso ao segredo e à surpresa de última hora. Em termos de personagens há que dizer que existe pouca flexibilidade em toda a obra sendo que este volume não é excepção. Todos os actores deste drama espacial estão imensamente condicionados pelos papéis sociais e políticos que desempenham sendo tudo o resto enterrado até quase não sobrar vislumbre de preocupações puramente pessoais – Leto e Ghanima são uma excepção parcial já que apesar de terem uma agenda muito pessoal (não serem consumidos pelas vozes interiores dos seus antepassados) ela é sempre percepcionada como algo ligado à governação e planos para o Império (parecem só existir como entes políticos). O tempo dedicado a cada perspectiva está equilibrado de forma eficaz sendo que vamos tendo acesso a visões muito diferentes – mais uma vez Leto é uma excepção sendo que tem muito mais tempo que os restantes (por vezes começa a tornar-se aborrecido seguir a sua trajectória já que há imenso tempo dedicado puramente a vozes internas e a uma transformação que é inevitável).

Versão mais antiga e das mais fracas que tenho visto.

Onde a obra brilha, como um sol de meio-dia no deserto, é nos planos metafórico e simbólico. Herbert viveu obcecado com sistemas (biológicos, sociais, etc) e isso transpira em cada página que é lida. Nada é sem consequências e tudo tem um efeito no meio que por sua vez afecta quem iniciou a acção (círculos de acção-reacção que se afectam mutuamente) – é a total negação da narrativa simplista em que o herói aparece como a única variável em toda a história. Mais que isso a saga Dune é sobre Política, com “P” maiúsculo. Esqueçam os partidos, esqueçam os lirismos, esqueçam os mitos. A visão do autor é aterradora na sua vontade implacável de nos arrancar as nossas seguranças e mentiras (a começar pela forma como trata o tema da religião que é uma mistura de calculismo de longo prazo, exploração do fanatismo e condicionamento colectivo) sem nos dar nada em troca que não seja uma eterna luta, enquanto grupo biológico, para a frente. De certa forma esta série também é única noutro aspecto já que anula completamente a figura do homem-comum. Não há espaço no universo Dune para um herói despreparado, casual ou sequer normal. Todos os personagens são extraordinários nas suas respectivas áreas e talentos (não são apenas bons naquilo que fazem… são genuinamente o pináculo dos grupos a que pertencem). Tudo isto cria uma certa dose de distanciamento emocional por parte do leitor mas não é um abismo que não se consiga atravessar porque apesar de tudo conseguimos identificar elementos humanos em certos momentos (especialmente na personagem do Profeta).

Uma terceira versão derivada da anterior (ou vice-versa).

Mesmo não sendo sempre realista (em termos de distribuição de poder), algo distante do leitor e altamente metafórico este livro é parte da obra-prima que são os seis livros de Dune e deve ser lido por todos.

Nota: 8/10

Ramon Llull é um homem pouco comum para o século XIV. Teve uma vida secular interessante, alguns diriam mesmo apaixonante, mas alguns erros que cometeu acabaram por o empurrar para a religião ao ponto de tomar a decisão de ingressar numa ordem religiosa. O trabalho para o qual acredita ter sido chamado é de natureza científica e filosófica, a tentativa de provar que deus e o cristianismo podem ser atingidos por uma via puramente racional e lógica sem ter que assumir como premissa nenhum dos dogmas da fé. Nessa tentativa desenvolveu o seu sistema de proposições lógicas para categorizar o pensamento humano e chegou mesmo a viajar ao mundo árabe para tentar a conversão pela razão em vez da espada – sem grande apoio do papado que claramente tinha investido numa guerra muito mais física que ideológica. Na tentativa de atingir a terra santa Ramon dá por si encalhado na ilha de Malta sem saber como continuar a sua viagem. Mas nessa altura recebe uma estranha oferta de um emissário de um condottiero ao serviço do Império Bizantino, Roger de Flor. Vai a Constantinopla falar pessoalmente com Roger que tem uma ambiciosa oferta para lhe fazer, descobrir o mítico reino de Prestes João, a cidade de deus, o coração da cristandade escondido em parte incerta. Seguindo algumas pistas, deixadas para trás por membros do lendário reino, nas catacumbas de Bizâncio acabam por iniciar uma viagem que os levará aos limites do mundo conhecido e mesmo além disso.

Uma capa apelativa e apropriada à história.

Estamos perante um livro de aventuras e exploração e sinceramente esperava apenas um livro mais ou menos light com uma trama aceitável mas fui agradavelmente surpreendido por Juan Miguel Aguilera já que ao longo do livro temos momentos realmente muito bons e acima da aventura típica da ficção científica. Há algumas surpresas mais ou menos previsíveis (a começar pela natureza da cidade que procuram, Ápeiron, que de religiosa tem pouco ou nada) que por vezes tornam a narrativa um pouco menos excitante mas nunca perdemos a vontade de continuar a ler e, mais tarde ou mais cedo, somos sempre recompensados por uma ideia ou um diálogo verdadeiramente bom. Em termos temáticos falamos aqui de um conflito entre a mentalidade moderna (representada pelos cidadãos de Ápeiron, um verdadeiro oásis de sanidade num deserto de violência cega) e uma mentalidade medieval própria do período descrito (e aqui não há tentativas de dourar a pílula, mesmo Ramon é descrito como acima de tudo um monge da sua época apesar de a partir de certa altura começarmos a ver uma transformação interior com resultados curiosos) sendo tudo isto encaixado dentro não só de aventuras várias (com alguns combates individuais e de batalhas pouco usuais) e uma história de ficção científica paralela que nas melhores alturas chega a misturar elementos à la Lovecraft com fantasia mágica.

A versão original, menos criativa mas também apropriada.

As personagens são possivelmente o que impede o livro de ser verdadeiramente épico. Os conceitos interessantes estão lá mas a verdade é que as personagens centrais nem sempre estão à altura. Ramon, de longe o mais interessante, não tem a profundidade que seria de esperar de um homem considerado como um verdadeiro génio da sua época (nota importante, o autor usa e abusa dos desmaios de ramon, um homem de certa idade, para terminar capítulos. A tal ponto que dá vontade de o comparar com romancistas do século XIX que punham uma heroína a desmaiar a cada dois capítulos). Roger de Flor, companheiro incansável do nosso monge franciscano, é pura e simplesmente uma máquina de matar com alguns vislumbres de personalidade e interesse que não são explorados convenientemente (por exemplo, a sua posição religiosa pouco usual para a época). A conselheira Neléis é um arquétipo andante e falante da modernidade que serve mais como forma de criar contraste entre os dois mundos que como um ser humano autónomo (apesar de mais uma vez existir potencial neste caso na relação amorosa dela). Os outros soldados da expedição de Roger e os poucos cidadãos de Ápeiron mencionados por nome são quase irrelevantes e só intervêm em momentos em que os detalhes pessoais são de pouca ou nenhuma importância tornando isto um elenco algo limitado. A compensar um pouco estes elementos temos um vilão verdadeiramente interessante e misterioso sendo que vamos conhecendo os seus planos, e mesmo a sua natureza, apenas à medida que o livro avança sendo que existe um nível crescente de confronto com os seus esbirros que achei muito satisfatório.

No fim tudo fica claro. A história está contada. Os dados lançados. E ficamos com pena de acabar a leitura desta história que, apesar de ter alguns altos e baixos, nos fascinou. É algo diferente do standard da ficção científica e fica a ganhar com isso! Uma leitura mais que recomendável. Fico com muita vontade de ver mais material de Juan Aguilera traduzido.

Nota: 8.5/10

Ps: sem querer ser perfeccionista há algo a mencionar em que o autor está enganado nos factos históricos que usa para construir a narrativa. Ele assume que na Idade Média era pensado que a terra seria plana coisa que está longe de ser verdade. Durante toda a Idade Média os sábios tinham consciência plena de que o mundo era provavelmente esférico. Um mito muito difundido (originalmente nas guerras intestinas do cristianismo moderno) mas apenas isso, um mito.

A saga da Heresia de Horus continua e depois de “The Flight of the Eisenstein” somos presenteados com “Fulgrim”, o quinto volume de uma das maiores epopeias da ficção científica a “Horus Heresy”. O livro é um pouco mais longo que os quatro volumes que o precederam sendo que excede as quinhentas páginas. Como o título indica a narrativa está centrada no Primarch da III Legião do Império, os “Emperor’s Children”, Fulgrim. Trata-se de um líder empenhado senão mesmo consumido até à sua alma na busca da perfeição. Busca essa que transmite a toda a legião que comanda; não basta serem bons guerreiros ou serem leais ao Imperador. É preciso serem os melhores, os mais cultos, os mais belos, os mais leais, os mais eficientes. Nos seus melhores momentos a III Legião é um ícone de esperança para toda a humanidade, mostrando o caminho de serviço ao Império que inspira grandes feitos e sacríficos mas nos seus piores dias são um exemplo de arrogância desmedida e frieza sem par que levam ao afastamento progressivo entre os astartes e o resto da humanidade. O problema é que existem cada vez mais dias maus. Desde que Fulgrim liderou pessoalmente um assalto ao templo de uma espécie não humana num planeta aquático há algo que mudou no carácter do Primarch e daqueles que comanda. O que antes era a busca da perfeição transforma-se em pretensões de status ocas; o que era um apurado sentido estético começa a deteriorar-se em mostras de arte grotescas, heréticas e mesmo demoníacas; onde antes havia amizade para com as outras legiões agora há ressentimento e inveja. Mais preocupante de tudo é o facto de quase ninguém na expedição reparar nesta súbita mudança ao fim de quase duzentos antes de estabilidade.

Uma capa dentro do estilo a que já estamos habituados.

Ao contrário dos outros livros desta série (pelo menos até aqui) este centra-se sobre a perspectiva pessoal de um dos semideuses (Primarchs) que comanda uma legião do Império da Humanidade (as anteriores dividam-se entre Primarchs, soldados comuns, artistas e capitães de companhias de astartes) e é talvez por isso mesmo algo mais humana e detalhada. Cobre essencialmente os eventos que já haviam sido falados nos outros quatro volumes, até à traição de Isstvan III, (de uma perspectiva completamente nova é certo) e avança mesmo um pouco na história deixando-nos mesmo no limite de um grande evento. Mais que nos outros livros os efeitos nocivos das forças do Caos são detalhados o suficiente para que o leitor possa sentir verdadeira repulsa pelo que está a acontecer (até eu, que costumo ter um “soft spot” para com os vilões, comecei a desejar uma vitória das forças da ordem) – já não falamos de algo impessoal e que quase não é sentido ou visto pelas personagens principais. É um mal que oprime a cada página que lemos, uma corrupção que vai crescendo apesar das várias tentativas de resistência, uma força que parece viva e torna o belo em horripilante sem poupar nada. Uma verdadeira descida ao abismo da loucura mais pura.

Fulgrim Vs Ferrus Manus. Irmão contra irmão. Caos contra Ordem.

Existem algumas personagens secundárias, de importância variável, que vão tornando possível uma acumulação de eventos dramáticos que culminam num gloriosos e maléfico final. Uma das mais importantes é Ferrus Manus, Primarch da X legião (“Iron Hands”), um dos irmãos mais próximos de Fulgrim que por ser, em temperamento, o oposto dele acaba por lhe servir de consciência e de travão. Os quatro capitães principais dos “Emperor’s Children” acabam por cair no modelo dos outros livros sobre a Legião comandada por Horus, dois parecem ser susceptíveis de conversão aos poderes ruinosos do Caos na sua procura da perfeição e dois parecem incorruptíveis (sem querer estragar a leitura a ninguém mas até a história segue uma linha similar no que toca aos seus destinos). O que realmente sobressai no livro não é a interacção entre as personagens mas o estudo algo detalhado de como uma das unidades de elite do Império é completamente destruída pelas suas próprias ambições e paixões à medida que Slaanesh (um dos deuses do Caos) renasce na nossa galáxia. Príncipe dos prazeres e Senhor da auto-indulgência e do excesso, vai tomando conta do espírito destes indomináveis guerreiros. O destino final nunca está em causa porque questionar decisões prévias seria uma brecha inadmissível numa muralha de orgulho de seres que se assumem perfeitos. De certa forma quase que podemos dizer que os poderes do Caos são, como um todo, a personagem principal deste livro. Seja como for, é uma adição de peso ao cânone Warhammer 40k que nos leva de volta ao nível muito elevado de “Galaxy in Flames”.

Nota: 9/10