O que é “A Voz do Fogo”? Esta é a pergunta que surge a qualquer leitor que dê uma vista de olhos pelo livro. Não é claro pela apresentação o que temos nas nossas mãos. Um conjunto de histórias horripilantes e fantásticas? Um romance dividido em doze partes com intervalos temporais e mudança de personagens? Um exercício esotérico por parte de Moore? Uma crítica social? Na minha opinião as quatro leituras estão correctas mas não de forma igual. É preciso compreender que Moore é acima de tudo um esoterista moderno e um artista. Percebendo isso vemos que os elementos crítica social e satisfação dos gostos mais fantásticos devem ser interpretados sobre essa luz e a situação fica ainda mais clara quando acabamos o último capitulo (que serve quase como um confessionário do autor ao leitor) e recebemos a interpretação do autor:

“ [A Voz do Fogo] É sobre a mensagem vital que os lábios ressequidos de homens decapitados ainda murmuram; é o testamento de espectrais cães pretos escritos em mijadelas nos nossos pesadelos. É sobre ressuscitar os mortos para que nos contem os seus segredos. É uma ponte, um local de passagem, um ponto gasto no tecido entre o nosso mundo e o mundo inferior, entre a argamassa e a mitologia, facto e ficção, uma fina ligadura deteriorada. É sobre a poderosa glossolalia das feitiçarias e a sua revisão mágica dos textos que vivemos. Nada disto pode ser explicado por palavras.”

Uma capa interessante

Ao longo desta tentativa de reanimar o passado e o mito Moore premeia o leitor com verdadeiras pérolas que lemos num ápice e que geralmente nos deixam presos quando passamos ao próximo capitulo e a outras personagens (esse é um dos meus pontos de implicação com o formato “short story”, quando o material é bom deixa o leitor a salivar por mais o que pode ser frustrante). A qualidade não é constante sendo que alguns dos capítulos pareceram-me muito mais interessantes que outros (os meus capítulos preferidos são “Coxeando até Jerusalém” e as “Tricotadeiras Fessureiras”) mas como um todo a obra é impressionante por entrelaçar elementos ao longo de 6000 anos e por nos dar uma sensação da importância e substância do mito – aqui tenho que fazer uma nota pessoal, qualquer livro que nos consegue fazer sentir um mito em vez de simplesmente o compreender intelectualmente de forma fria e analítica merece os meus parabéns.

A capa da edição anterior, que na minha opinião é bem mais fraca que a actual.

Northampton transforma-se no áxis mundi da narrativa e de um inferno urbano começa a metamorfosear-se numa encruzilhada espácio-temporal vital para o mundo. É uma refundação da cidade no plano das ideias, o que só pode merecer a minha admiração já que respira um novo fôlego moral a uma comunidade que desesperadamente precisa dele. Alan Moore actua como muito mais que um “filho pródigo” que escreve sobre o seu local de nascença; ele é um verdadeiro xamã moderno para a sua cidade ao inspirar significados e providenciar saídas para a situação presente.

A capa da versão original.

Como últimas notas é de referir a continuidade que Moore dá às ideias que desenvolveu no campo da BD (quem o conhece encontrará uma e outra vez elementos familiares que são reinventados para encaixar neste novo meio de comunicação) e o excelente trabalho de David Soares (que é possivelmente o meu autor de língua portuguesa favorito) como tradutor e compilador de notas literárias que servem de guia e referência para os que não estão familiarizados com a visão “Mooriana” do Universo.

Nota: 9/10

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