David Selig tinha potencial. Um aluno brilhante, apesar de irrequieto, parecia ter um nível de inteligência fora do normal o que lhe permitiu aceder a uma das melhores instituições universitárias que os Estados Unidos têm para oferecer às suas elites. Mas David Selig tem um segredo que poucos conhecem. Ele não é verdadeiramente brilhante ou sequer particularmente esperto… simplesmente tem um dom que quase ninguém tem, é um telepata. Consegue ler as mentes de todos à sua volta mas isso só parece isolá-lo do resto do mundo à medida que os sonhos e ilusões são esmagados ao longo da sua juventude e a banalidade da alma da maioria das pessoas se torna clara ao nosso “herói”.

Vamos encontrá-lo no inicio da história já com mais de 40 anos (escrita e colocada no inicio dos anos 70, pós era hippy e pós revolução sexual) a viver à margem da sociedade em bairros sociais e ganhando algum dinheiro através de expedientes dúbios como vendedor de trabalhos académicos a alunos sem talento ou capacidade para os fazerem por si próprios. Vive isolado do mundo sem ter qualquer tipo de relação amorosa já que as únicas que verdadeiramente significaram algo para si acabaram desastrosamente devido ao seu dom e a única família que lhe resta é a sua irmã Judith que, por conhecer o seu segredo, o teme acabando a relação deles por oscilar entre pólos de amor fraternal e ódio paranóico. Como pode um homem com tudo a seu favor acabar nesta situação? Como pode alguém com o poder de um deus, de aceder à consciência de qualquer pessoa, falhar tão rotundamente na vida? A verdade é que desde há muito tempo que o seu poder tem vindo a diminuir e agora está em vias de desaparecer.

É isso que a obra explora ao dar-nos vislumbres da vida de David Selig que serve como personagem e narrador consciente de estar a relatar a sua vida a terceiros. Somos levados aos primeiros dias da sua infância quando se divertia a brincar com a mente do psiquiatra que estudava a criança prodígio que os seus pais pensavam que ele era. Passamos pelo rosário das suas conquistas amorosas e profissionais e até pelas poucas amizades que conseguiu estabelecer, a única verdadeiramente significativa sendo com outro telepata que descobre por acaso. Ao longo de um série de flashbacks intercalados com momentos da sua vida presente sentimos o poder de telepatia de Selig a morrer dentro dele. Cada ano que passa a partir dos 30 a sua capacidade diminui sem que ele conheça a razão para tal facto. A sua própria identidade enquanto ser humano (e a forma como ele se colocou perante o mundo) é questionada quando o que era mais importante na sua vida, o seu dom e a sua maldição, definha sem que ele possa fazer nada.

O livro mostra também a erudição do autor que dá à sua personagem um vasto leque de conhecimentos literários e filosóficos através dos quais tenta percepcionar (às várias etapas da sua vida) o que lhe está a acontecer. Por vezes quase que é uma agradável viagem cultural que serve para Robert Silverberg abordar o tema da identidade humana e o nosso lugar dentro dos vários grupos sociais a que pertencemos. Pode ser dito que o elemento existencialista é levado a tal ponto que a parte da ficção cientifica quase que fica esquecida (ou pelo menos subdesenvolvida) sendo que a telepatia é quase que acidental ou uma ferramenta secundária para criar uma personagem mais estranha e interessante. Recomendo vivamente este livro e faço intenções de arranjar mais livros desta colecção (SF Masterworks).

Nota: 8.5/10

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s