Num futuro não muito distante (algo mais distante na altura em que Philip K. Dick escreveu o livro) os Estados Unidos e várioas nações Europeias fundiram os seus sistemas políticos passando efectivamente a existir dois grandes estados mundiais, a União Americana-Europeia (USEA) e a União Soviética (lembrem-se que o livro foi escrito nos anos 60…). Não conseguimos perceber muito bem qual a diferença ou relação entre os dois colossos e os habitantes deste tempo futuro também não as parecem conhecer. De facto não parecem conhecer grande parte do mundo em que habitam, vivendo divididos entre os seus trabalhos, constantes testes ideológicos que visam avaliar os seus conhecimentos da “realidade” (falhar significa passar para uma casta social inferior) e uma obsessão semi-religiosa com a primeira dama dos USEA aparece como a única constante das suas vidas – os presidentes mudam conforme as eleições mas a primeira dama é eterna. Quem é esta primeira-dama? Como consegue ocupar uma função essencialmente monárquica num regime republicano? Quem são os presidentes eleitos que parecem surgir do nada a cada ano eleitoral? Quem controla o poder na realidade?
A belíssima capa da minha edição

E no fundo é este o cerne do livro, o poder e a realidade. As diferentes camadas sociais e a percepção que têm de quem os governa e de quais as suas intenções. Como em todas as distopias (presentes e futuras, reais e imaginárias) há muitos níveis de “realidade” e não é claro quem detém a versão mais correcta. Dick usa um espectro bastante alargado de personagens tentando desta forma dar várias perspectivas sobre os eventos que se vão desenrolando. Temos Richard Kongrosian, um músico com poderes psíquicos, que vive quase incapacitado num mundo de neurose e paranóias constantes; Nicole a misteriosa primeira-dama que funciona como uma espécie de Deusa-Mãe para a população dos USEA; Egon Superb último psicanalista legal que não sabe bem porque foi poupado ao édito presidencial que proibia a psicanálise (considerada como uma pesudo ciência pelos poderosos carteis farmacêuticos); Al Miller um vendedor de pequenas naves que permitem a emigração ilegal para Marte, o último refúgio de pessoas genuinamente livres; e Bertold Goltz revolucionário de agenda obscura que é pintado alternadamente como líder neo-nazi ou como um visionário defensor dos oprimidos.

Uma versão mais antiga

 É um livro complexo para o tamanho que tem (apenas 220 páginas) e não é definitivamente “leve” em termos de conteúdos. Não só porque as semelhanças com o nosso próprio mundo são assustadoras (a forma como PKD prevê o nosso perverso fascínio com a reality tv e alienação daí resultante é algo perturba qualquer um que não seja indiferente aos conceitos de liberdade pessoal e verdade) mas também porque a ambiance (um planeta populado por pessoas profundamente desajustadas a todos os níveis mas que não se apercebem do quão doentes estão) está descrita de forma perfeita e cria uma tensão permanente no leitor que é tentado a simpatizar com as personagens mas ao mesmo tempo desespera com a sua falta de percepção própria e das situações. Um toque particularmente interessante é a introdução do conceito de viagens no tempo (não posso enfatizar o suficiente a riqueza conceptual deste livro) que introduz um elemento de incerta no desenvolvimento da narrativa que nos prende ainda mais à leitura que qualquer nível de empatia para com a personagem A, B ou C.

E uma ainda mais antiga

Mesmo para quem não tenha lido mais nada do autor é fácil perceber porque é que ele é considerado com um dos mestres do género. A riqueza de ideias é tanta que transborda a cada capítulo e o autor não perde tempo desnecessariamente em detalhes que não desenvolvem o conceito central do livro (se houvesse algo a apontar como falha seria precisamente que o leitor quer mais! Facilmente poderia ter escrito um livro com o dobro da dimensão que ninguém diria que o conteúdo fora diluído) – há momentos de introspecção profunda no livro mas não tomam controlo da narrativa o que é um feito notável, conseguir um equilíbrio entre profundidade psicológica e um bom ritmo. No fim da leitura as nossas certezas são arrasadas, o improvável torna-se letal e a nossa própria existência continuada é posta é dúvida. Um dos livros mais interessantes que já li.

Nota: 9.5/10

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Comentários
  1. […] – The simulacra – Philip K. Dick (Manuscritos Malditos) […]

  2. […] pousar o livro depois de o acabar percebo perfeitamente porque alguns comparam Richard Morgan a Philip K. Dick e Orwell, o génio para pegar na realidade e criar a sua reflexão, e possível futuro, distópica […]

  3. […] expectativa que voltei à mente de Philip K. Dick depois de ter tido uma óptima experiência com o “The Simulacra” há relativamente pouco tempo. Neste caso as premissas do livro são ligeiramente diferentes, e […]

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