Foi com alguma expectativa que voltei à mente de Philip K. Dick depois de ter tido uma óptima experiência com o “The Simulacra” há relativamente pouco tempo. Neste caso as premissas do livro são ligeiramente diferentes, e talvez até mais simples, já que em essência temos um mundo dividido apenas entre duas facções, a maioria que corresponde aos que vivem em bunkers subterrâneos porque pensam que a superfície está a ser devastada por uma terrível guerra entre as potências ocidentais e a União Soviética e aqueles que vivem à superfície e que sabem a verdade, ou pelo menos parte dela, e que ajudam a perpetuar uma mentira para manter a maioria da população debaixo do solo. As coisas tornam-se interessantes quando se percebe o porquê desta situação e como alguns sobreviventes da tal guerra apocalíptica (que foi um evento real) souberam criar uma nova realidade em que vivem como senhores feudais em propriedades isoladas por milhares de quilómetros de zonas florestais (de facto depois da terceira guerra mundial a maior parte do globo é um parque gigante), rodeados de máquinas que os servem e usufruindo dos bens produzidos nos bunkers por populações que ainda pensam estar a contribuir para o esforço de guerra.

Uma capa não muito interessante mas sem ser das piores.

O conhecimento, ou a sua falta, é um tema que o autor gosta de abordar e este livro não é excepção. Uma maioria vive essencialmente na proverbial caverna de Platão, olhando para as sombras que os yance-men (a elite que vive à superfície) projectam através de mentiras televisionadas a nível global e tomando-as como a realidade em si – não falta sequer a comparação do autor em que o que uns sabem e outros desconhecem se transforma uma espécie de gnose política que facilita a escravização. É fácil perceber aqui a preocupação do autor com o controlo da informação (décadas antes de ser popular questionar o que é televisionado) e com as dimensões do “real”, daquilo que conhecemos verdadeiramente, ou pelo menos pensamos conhecer. Voltamos também a encontrar robots (usados primeiro como armas na guerra e depois como guerreiros para proteger as propriedades de cada yance-man) e mesmo um simulacro político (tal como no outro livro – apesar de este ser mais que um acessório e a sua história ter impacto real na trama) Há outros conceitos que fazem a sua aparência como a possibilidade de manipular ou ser manipulado pelo tempo, o poder de entidades essencialmente privadas sobre o bem comum entre muitas outras. O que mais me surpreendeu no livro foi a sua capacidade de introduzir uma trama política que o leitor pode seguir mais ou menos de perto e que não é apenas um pano de fundo para acção principal.

Uma versão anterior um pouco mais curiosa.

As personagens não são de todo centrais no sentido em que não nos é dado a conhecer muitos detalhes pessoais mas nem por isso deixamos de ter um conjunto interessante, variado e podemos conhecer o impacto que a acção tem neles quando isso serve para ilustrar os pontos que o autor considera importantes. Temos Joseph Adams um yance-man que é dos melhores escritores de discursos fictícios para o simulacro e que parece ainda sentir vestígios de culpa sobre o seu papel na manutenção de tal fraude. Nicholas St. James presidente eleito de um dos milhares de bunkers colectivos que terá que vir à superfície para salvar um dos seus cidadãos que é vital para manter a produção de guerra. Stanton Brose, decrépito e provavelmente meio senil mas ainda assim o homem mais poderoso e odiado à superfície, enquanto a mentira durar ninguém o poderá desafiar. Loius Runcible, milionário que propõe uma alternativa, igualmente desumana, para lidar com os milhões de humanos no subsolo e principal opositor de Brose. E finalmente David Lantano, um recém-promovido yance-man que parece deter um talento nunca visto para a escrita do simulacro mas cuja agenda é a menos clara de todos os participantes. Todos eles têm os seus momentos mais brilhantes e desempenham a função de alternar a perspectiva sobre os mesmos fenómenos para dar várias leituras, nem todas simpáticas mas todas autênticas.

Simplesmente bizarra 🙂

Tal como já havia comentado sobre este autor, os seus livros dão enganadoramente simples e curtos e não correspondem à riqueza conceptual do material que é enorme. Sobre o mesmo tema poderia ter sido escrita uma história várias vezes maior e mais bizantina mas dado que o autor parece quase ter urgência em transmitir algumas informações e dúvidas ao leitor sou levado a pensar que se trata de um mecanismo intencional para não diluir quer o material quer a mensagem. Se houvessem falhas a apontar teria que incidir sobre o fraco desenvolvimento de certos traços que teriam dado força e credibilidade às personagens (mais raiva por parte de Nicholas ao saber que está a viver uma mentira há 15 anos ou mais “vilania” por parte de Brose que é empurrado para o papel de vilão louco) e o final um pouco inconclusivo apesar de algo esperançoso. Depois desta leitura o último comentário que deixo é que estou rapidamente a tornar-me um fã de Philip k. Dick.

 

Nota: 8.5/10

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Comentários
  1. […] – The Penultimate Truth – Philip K. Dick (Manuscritos Malditos) […]

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