Archive for the ‘Alfred Bester’ Category

“Vorga. Vorga. Vorga!! Vorga!!!!!” É tudo o que está na mente de Gully Foyle e não podemos culpá-lo pela sua obsessão. Ao fim de seis meses à deriva nos destroços da nave espacial que tripulava, a Nomad, em que só tentava manter-se vivo uma hora de cada vez, alimentando a esperança que alguém desse pela falta da Nomad, teve o seu momento de sorte. Apareceu outra nave. A Vorga. Mas a Vorga não parou. E a mente de Gully Foyle estilhaçou-se. A partir deste momento não interessa mais nada no universo. A Vorga tem que pagar. Tem que ser destruída. Custe o que custar. Fazendo o impossível escapa dos destroços à deriva e consegue ser resgatado mas o que saiu do espaço já não é o mesmo homem. Se é que podemos dizer que ainda é humano. Há uma determinação que condiciona todos os seus passos e que o vai levar a situações bem mais complexas do aquilo que alguma pudesse ter imaginado pois a nem a Nomad nem a Vorga eram simples naves de transporte. O sistema solar não está preparado para o renascimento de Gully Foyle, o tigre, o predador, o monstro. Entretanto à sua volta toda a humanidade começa a desintegrar-se. Os Planetas Internos e os Exteriores (relativamente à cintura de asteróides) digladiam-se numa guerra económica (não são todas?) que fica mais feia com cada dia que passa, começa a suspeitar-se que apenas um dos dois sistemas irá sobreviver a esta horrível guerra civil da humanidade.

Uma boa capa para um bom livro.

Este é um livro de várias partes sendo que cada uma corresponde a uma transformação do nosso personagens principal que é, permitam-me dizê-lo, perfeito. Gully é o Homem comum despido de qualquer pretensão ou romantismo. Não tem qualificações, não tem ambições, não tem personalidade, é vil, egoísta, não sofisticado e acima de tudo não tem qualquer futuro no mundo que habita. Mas o potencial estava lá e quando todos o abandonam o seu instinto de agressão leva a melhor e serve de catalisador a todo um processo transformativo de consequências imprevisíveis. A primeira parte desta obra é quase como ser presenteado com uma versão do Conde de Monte Cristo no espaço. Tudo e todos são reduzidos apenas a meios para atingir um fim, a destruição da Vorga e todos os que estavam a bordo. À medida que tudo isto se desenrola Alfred Bester vai revelando como é este futuro do século XXV. Uma era em que o teletransporte não só é possível como é orgânico, ou seja, todos são capazes de o fazer (com menor ou maior capacidade e distância) desde que seja na superfície do mesmo planeta – o que aboliu de forma instantânea o conceito de Nação. Um mundo em que o conceito de nobreza foi reactivado em toda a sua glória e as dinastias reinantes dos carteis comerciais são a crème de la crème da sociedade – é curioso como ao fim de mais de 50 anos os autores de ficção científica continuam enormemente preocupados com cenários de oligarquias opressivas, o tema permanece tão actual como sempre. E aqueles que nada têm transformam-se em salteadores que se teletransportam para onde quer que exista uma vítima fácil ou um desastre.

Uma capa mais antiga e que faz menos sentido.

Quanto às personagens há que admitir que quem brilha é mesmo quase só Foyle. Ele é um anti-heroi. O verdadeiro self-made man que nada teme e nada dá a ninguém. Implacável a seguir o caminho que escolheu sem pedir desculpa pelos corpos e destroços que vai deixando pelo caminho. Parece simplista mas não é. Foyle muda, evolui, cresce e teme o seu próprio potencial para ainda maior terror do resto das personagens. Presteign, o senhor de um dos maiores grupos económicos dos Sistemas Internos, odeia-o pelo que pensa que ele sabe sobre a Nomad e sua missão. Dagenham, o homem mutante radioactivo, também procura o nosso pequeno monstro, primeiro por ter sido contratado para o fazer e mais tarde porque descobre uma consciência que nunca suspeitou vir a ter e tem que proteger valores mais altos que não pode permitir que sejam destruídos nesta Vendetta louca. Y’ang-yeovil, o chefe dos serviços secretos dos Sistemas Internos, que também é um dos poucos que sabe a verdade sobre o voo de Gully Foyle e que tem uma guerra a ganhar, e não aceita de forma de alguma que um cretino semieducado o impeça de atingir esse objectivo. O livro é no seu todo uma metáfora sobre o Homem comum, o potencial que todos temos, os percursos que temos que percorrer (quer individualmente quer colectivamente como espécie), o riscos da opressão para a própria casta dirigente e mesmo sobre o ódio como motivação para guiar uma vida, algo que tanto nos pode levar ao inferno como abrir as portas do céu se não se aceitar estagnar. Um triunfo dentro do género!

Nota: 9.5/10

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