Archive for the ‘Apocalipse’ Category

A noite é perigosa. É à noite que os demónios saem do núcleo para atormentar uma humanidade em vias de extinção. Isolados em aldeias e pequenas cidades os humanos dependem de um sistema de runas se protegerem e manterem os monstros fora das suas casas ou muralhas. Mas nem sempre foi assim. Há mais três séculos a humanidade vivia num estado de prosperidade e grande conhecimento científico que lhe permitia um bem-estar muito diferente do mundo primitivo em que agora vive. Mas nessa maré de progresso técnico algo tinha ficado esquecido, as lendas antigas. Elas contavam como os seres humanos desde os primórdios tinham sido perseguidos como animais selvagens por monstros que saiam à noite em caçadas sangrentas e como lentamente, ao descobrirem a escrita e as runas, emergiu um sistema de guardas que lhes permitiu primeiro manter os demónios à distância e finalmente combate-los. Mas tudo isto foi esquecido e não há memória das guardas mágicas que permitiam dar guerra às monstruosidades que dominam a noite. Neste mundo fracturado surgem três jovens que podem ser a chave para a recuperação da humanidade. Arlen, um jovem agricultor que não consegue aceitar que a melhor solução para a sua espécie seja esconderem-se como coelhos em tocas assim que o sol se põe. Leesha, a filha de um produtor de papel (um bem raro nos dias que correm) que encontrará uma vocação diferente da esperada que pode conter a chave de muitos conhecimentos julgados perdidos. E Rojer uma criança forçada a entrar no mundo adulto demasiado cedo e que descobrirá que consegue usar uma nova arma para manter os demónios à distância, algo que nunca ninguém teria sequer pensado até ele chegar.

Uma grande capa sem dúvida!

Adorei a premissa inicial deste livro. Um mundo semi-medieval (mas com ecos de outros tempos em que talvez a civilização humana tivesse um nível de desenvolvimento muito superior) em que a humanidade luta desesperadamente contra um adversário demoníaco que claramente é mais forte – quase que conseguia sentir ecos do jogo de PC Diablo. Mas apesar da minha disposição inicial ter sido de paixão o desenvolvimento do resto do livro não está à altura das espectativas apesar de existirem momentos muito bons polvilhados pelo livro. Temos um início bastante agradável em que somos lentamente introduzidos a este mundo ruralizado à força e rapidamente entendemos que Peter Brett não tem qualquer intenção de romantizar o campo e as pequenas comunidades (o que é um alívio), tudo é revelado tal como é. Mas passado alguns capítulos começamos a ter as primeiras indicações que nem tudo é tão bom como seria de esperar. O nível de detalhe da narrativa começa a tornar-se bastante escasso. Acabamos por ter uma história com bastantes saltos temporais e cortes de perspectiva, nem sempre bem intercalados, que acabam por criar um ritmo estranho não só para os eventos para a própria evolução das personagens que recebem atenção desigual – de Rojer, para dar um exemplo, nem sequer consegui formar uma opinião devido à escassez de informação sobre a sua personalidade. Há vários momentos ao longo do livro em que pensamos que algo extraordinário vai acontecer para acabarmos desiludidos quando Brett escolhe o caminho menos interessante e mais previsível – por mais que uma vez consegui prever o curso da história com vários capítulos de antecedência, o que não é de todo positivo. Há também alguns elementos recorrentes que a partir de certa altura se tornam simplesmente estranhos. A obsessão com procriação (presente até na linguagem escolhida) pode ser compreensível num mundo em que os seres humanos não abundam mas sinceramente vai demasiado longe (ao ponto de parecer ser o grande objectivo de vida de todas as personagens… é normal que a maioria das pessoas pense isso mas não é interessante em termos de desenvolvimento das personagens). Um segundo elemento que faz “comichão” é a que a toda a cultura de Krassia (uma das cidades estados independentes) é no fundo a cultura islâmica decalcada, sem tirar nem pôr. Se fosse só inspirada acharia fantástico (como Robert Jordan fez tão espectacularmente) mas levantada como um todo sem grandes alterações revela uma falta de criatividade ou um desejo de criar na maioria dos leitores um sentimento automático de antagonismo.

A capa internacional - muito, muito, mais fraca. Um bom exemplo de uma capa genérica com uma misteriosa figura de capuz *bocejo*

Pelo lado positivo tenho que admitir que apesar das falhas o autor continua a manter-nos interessados no que está a acontecer e nunca nos sentimos desligados do que poderá vir a suceder nas próximas páginas (isso explica a facilidade de leitura). Também sabe criar suspense suficiente sobre certos temas para nos deixar curiosos pela continuação já que há bastantes questões que ficam por responder no fim do volume. E apesar de no fundo nem Leesha nem Arlen serem personagens coerentes ou inteiramente convincentes nas suas escolhas são interessantes. São diferentes o suficiente do mundo que as rodeia para se destacarem e assumirem um papel importante a moldar os eventos relatados no livro. Em conclusão: trata-se de um livro com imenso potencial que não foi realizado (além de que 600 páginas para um livro que é apenas uma introdução é um exagero) mas que mesmo assim tem pontos de interesse que o tornam fácil de ler e nos deixam com vontade de saber como as coisas irão acabar.

Nota: 6.5/10

Anúncios

Apesar de não me opor a ver um ou outro filme de zombies, de tempos a tempos, nunca tinha tido interesse em ler nada baseado nesses seres tão familiares e, apesar de tudo, assustadores. Mas ao fim de alguns anos a ouvir e ler reviews bastante positivos de alguns livros desse género (há um interesse enorme recentemente sobre este tipo de ficção zombie) acabei por colocar os meus receios de lado (temia especialmente que outra criatura dos nossos pesadelos sofresse o destino dos vampiros na última década, uma popularização enorme mas baseada em escrita de péssima qualidade que não faz justiça ao género especulativo) e avancei para Word War Z, o segundo livro deste tipo de Max Brooks (sim é mesmo filho do “infame” Mel Brooks 🙂 ). A história passa-se no nosso mundo, no nosso tempo e começa com um evento bastante corriqueiro que de certeza já todos ouvimos num telejornal: uma nova doença contagiosa teve origem algures na China e está em risco de se espalhar ao resto da Ásia e eventualmente o resto do mundo. O que não se conhece bem são os detalhes da nova doença e quando os primeiros mortos-vivos (ainda não reconhecidos enquanto tal pois afinal de contas quem é que acreditaria que os mortos estão mesmo a regressar?) aparecem na Europa e Estados Unidos há um pânico quase imediato para que os governos protejam as suas populações. Não interessa se criam zonas de quarentena ou se prometem uma vacina, o que é importante é acalmar as massas para restabelecer um pouco de ordem. Mas um pouco por todo o globo há alguns especialistas que não acreditam que a ameaça possa ser contida com medidas essencialmente cosméticas e de relações públicas. Na África do Sul, em Israel e outros sítios começa-se a suspeitar que a onda de mortos que aí vem não pode ser sequer parada.

A capa da minha edição - talvez um pouco espartana demais.

É uma ideia mais ou menos batida e qualquer fã do género consegue adivinhar os primeiros capítulos. Caos, violência, negação da realidade, pânico e finalmente um colapso social a uma escala planetária. Mas de alguma forma a estrutura do livro ajuda a criar uma sensação de estar a ler algo novo, em vez de termos a perspectiva de uma ou duas pessoas apanhadas nesta loucura e empenhadas numa luta desesperada pela sua sobrevivência o autor estruturou a obra como uma série de entrevistas que são conduzidas depois do fim da Guerra Mundial Z. Originalmente o presente (o mundo que emergiu depois deste desastre que vitimou mais de dois terços da população) e o passado (o mundo pré-guerra, o pânico e a guerra em si) são introduzidos simultaneamente criando uma alternância muito interessante nas entrevistas. As personagens têm um passado e vidas variadas, apesar de o contexto limitar em a variedade possível; estas pessoas sobreviveram ao fim do seu mundo por isso de uma forma ou de outra todos são guerreiros e sobreviventes apesar de nem todos conseguirem aceitar o que aconteceu com a mesma facilidade. Há uma certa preponderância de pontos de vista americanos sobre todos os outros mas dado que é a nacionalidade do autor talvez isso sirva de desculpa – há muitos outros representados mas não em tanto detalhe ou com tanta frequência.

A edição portugesa tem uma capa com mais impacto!

No meio de êxodos populacionais maciços, uma guerra com os mortos-vivos e a reconstrução de um novo mundo há espaço para o autor explorar muitos temas políticos contemporâneos. O que aconteceu às potencias mundiais? A sua rivalidade sobrevive? Que tipo de regime sobrevive a um evento deste tipo? Como é que rivais (políticos, económicos, religiosos, militares, etc) podem colaborar quando nem sequer existem formas de contacto fácil? No fundo quase que faz uma sátira à tacanhez da mente humana que se recusa a enterrar as suas diferenças mesmo quando a alternativa é a eliminação. O tom geral do livro é talvez demasiado positivo para o meu gosto e talvez minimize a dimensão da nossa falta de visão enquanto espécie mas não se torna desagradável ou demasiado irrealista o que permite um bom ritmo de leitura. Outro tema que percorre o livro é o sobrevivencialismo (e admito que acho histórias ligadas a este conceito interessantes – reminiscências de ler Robinson Crusoe quando era novo de certeza) nas suas mais variadas formas, desde indivíduos a nações inteiras, o quadro que é pintado é de um mundo em que ao fim de décadas de interdependência a auto-suficiência volta a mostrar o seu valor. Foi um livro agradável de ler e posso dizer que me deixou com vontade saber mais sobre zombies e catástrofes, sem dúvida que de futuro ambos irão ter lugar nas minhas escolhas de leituras.

 

Nota: 8.5/10

 

Ps: Em Portugal este livro está editado pela Gailivro, parte da sua colecção 1001 Mundos, como Guerra Mundial Z.

ódio

Posted: Outubro 27, 2010 in Apocalipse, David Moody, Horror, Livro
Etiquetas:, , ,

Permaneçam calmos e não entrem em pânico. Aguardem por mais instruções. A situação está sobre controlo. Estas três frases repetem-se em programas transmitidos em circuito fechado para todo o mundo enquanto a anarquia, violência e morte se espalham mais depressa do que qualquer epidemia que a humanidade tenha entrado em contacto anteriormente. O que de inicio não passavam de estranhos episódios de violência isolada transformam-se num colapso civilizacional à medida que mais pessoas sucumbem ao ódio e cometem atrozes actos de agressão sobre todos os  que ainda não estão infectados. É este o cenário de “Ódio” que David Moody pinta com bastante talento através dos olhos de Danny McCoyne, um humilde funcionário público da cidade de Londres, que se vê a braços com a maior crise da história da humanidade e que tudo tentará para manter a sua mulher e três filhos a salvo do que parece ser o fim do seu mundo.

Uma capa bem conseguida, fiel à original.

O livro em si é relativamente curto, 260 páginas, sendo que os capítulos são agradavelmente curtos o que ajuda imenso a sua leitura fora de casa (no meu caso nos transportes públicos que tenho que usar) além de tenderem a parar a acção no sítio certo o que torna a retoma da leitura mais fácil. A atmosfera está bem construída sendo que temos uma noção clara da agitação crescente das personagens e da sua confusão e medo – de uma família suburbana mais ou menos estável e normal vamos passando a um cenário cerco à medida que tudo à sua volta se desmorona. Até cerca de metade do livro a história é mais ou menos o esperado não existindo grandes sobressaltos que estraguem a narrativa (mas também sem gerar nenhuma reacção muito positiva) mas nessa altura Moody dá um pouco a volta à trama e de repente ficamos muito mais interessados no desenlace deste banho de sangue (não explico o porquê da reviravolta ou em que consiste para não estragar a leitura).

A versão original.

Há também uma exploração interessante, mesmo que superficial, de vários temas, quase sempre de raspão e à margem da história principal, como a pertença ou não pertença a um grupo, os efeitos de um poder político essencialmente inútil, a sobrevivência e o que ela pode implicar, a estrutura de sociedades urbanas modernas entre outras coisas. Mas o autor não desenvolve nenhum esforço no sentido de abordar seriamente estas questões sendo que elas surgem naturalmente em determinadas situações de forma quase que acidental e sem terem uma resposta concreta. Apesar disso o livro é bom, tem ritmo, acção e uma pequena dose de horror e sangue. Uma boa leitura quer para fãs de livros apocalípticos (ou de zombies) quer para recém-chegados ao género. Em resumo uma óptima surpresa por parte da Editorial Presença e fico à espera do lançamento da continuação deste livro, Dog Blood.

 Nota: 8/10