Archive for the ‘Elfos Negros’ Category

Debaixo dos Reinos Esquecidos há vida. Numa imensidão de túneis envolvidos numa escuridão cavernal perpétua habitam muitas raças diferentes. Umas boas, outras más e algumas simplesmente indiferentes a conceitos morais. Mas de todas estas os Drow, elfos negros, são a mais temida. A sua sociedade existe por obra de uma Deusa cruel e louca, Lolth a Rainha Aranha, que só reconhece a força e o caos como princípios e instiga os seus servos aos mais cruéis actos de agressão e traição como forma de provar o seu valor e devoção. As cidades Drow são antros de conspiração e violência em que dezenas de casas nobres aspiram sempre a um lugar mais elevado na hierarquia da cidade, tudo com a bênção de Lolth, afinal de contas se as casas mais fortes não conseguem defender a sua preeminência então não a merecem e devem ser destruídas até não sobrar uma única criança dessa linhagem. Menzoberranzan é uma destas cidades. Um sitio governado pelas sacerdotisas da Rainha Aranha em que os machos Drow servem apenas para a guerra e procriação. Neste sitio esquecido pela luz, amaldiçoado pelos elfos da superfície e inundado de sangue pelas traições dos elfos negros nasce uma criança diferente. Drizzt Do’Urden, filho da Matrona Malice da casa Do’Urden e de Zaknafein mestre de armas da mesma casa. Um príncipe da nona casa de Menzoberranzan que deverá seguir a longa tradição da sua espécie, uma vida dedicada à ascensão social e tentativas de apaziguar o ódio infernal da deusa aranha. Mas Drizzt parece ser diferente. A sua sede de batalha não o cega à maldade do seu povo. A sua honra não se satisfaz com a vida traiçoeira da cidade e a sua devoção certamente não vai para a deusa que a seus olhos condenou todos os elfos negros ao ódio de praticamente todas as outras espécies inteligentes. Mas poderá tal diferença sobreviver num lugar que é a encarnação do mal? Poderá existir uma excepção a um povo moralmente cego?

Adorei esta capa!

Foi com grande antecipação e prazer que li este livro. Ou melhor, que reli. Já conhecia o trabalho de R. A. Salvatore há muito tempo (sendo ele e Raymond E. Feist os responsáveis por me ter interessado pelo fantástico há tantos anos atrás) e quando soube que ia ser traduzido tive a certeza que queria regressar ao mundo de Drizzt. Há algo de confortável nesta personagem que nos faz voltar tantas vezes às suas façanhas e dilemas, é quase como um regresso a casa. O livro em si está divido em cinco partes que nos contam a história deste elfo negro tão especial desde o seu nascimento até à sua maioridade sendo que cada parte tem até um pequeno texto introdutório escrito na perspectiva de Drizzt sobre o que sentiu nessa fase da sua vida (é um toque bastante inteligente por parte de Salvatore porque injecta bastante sentimento no personagem e prepara o leitor para o que aí vem). A evolução segue a um ritmo algo acelerado sendo que temos apenas relances momentâneos sobre as várias décadas da vida inicial de Drizzt (com uma esperança de vida de sete séculos não será de estranhar que a noção de tempo seja algo diferente nesta narrativa), desde o momento que nasce e escapa por uma unha negra a ser sacrificado à Rainha Aranha, passando pela sua educação dentro da sua casa nobre a cargo de vários membros da sua família (a irmã Vierna, uma sacerdotisa como não podia deixar de ser ao se tratar de uma fêmea nobre Drow, e Zaknafein, seu pai e instrutor marcial), atravessando a sua formação na academia militar da cidade e as suas façanhas enquanto jovem indeciso à procura de si mesmo num mar de mentiras e traições.

A velhinha primeira edição em inglês.

Boa parte do livro desenrola-se no rescaldo de um ataque da casa Do’Urden à cada DeVir que deixou um sobrevivente nobre que sabiamente optou por permanecer no anonimato ao longo de décadas até ser descoberto pela matrona da quinta casa da cidade que o recruta à força para impedir a ascensão dos ambiciosos Do’Urden. Parecendo uma história de aventura com bastante combate e magia à mistura (e Salvatore tem um talento incrível para tornar os combates reais para o leitor) o autor escolhe abordar uma série de temas que não são nada simples. O papel da raça ou nacionalidade na definição das nossas lealdades, o respeito à tradição, a discussão eterna entre a escola filosófica que defende que o meio dita o que somos e a que defende que existe algo autêntico que é só nosso e que o meio é incapaz de mudar, a própria autenticidade da emoção e mesmo o valor moral da acção que apesar de boa é condenada socialmente. Não que isto seja abordado de forma académica e por estes nomes mas estas temáticas estão subjacentes a tudo o que Drizzt faz e pensa, o seu caminho ao longo desta estrada perigosa, e possivelmente letal, é a resposta do autor a todas estas questões. Se o leitor escolher fazer essa leitura poderá até sentir-se interpelado a comparar, na sua devida proporção, as escolhas deste solitário elfo negro com as suas próprias. Somos morais ou somos apenas aquilo que esperam de nós?

 

Nota: 9/10

 

 Ps: Entretanto a Saída de Emergência já publicou o segundo volume desta trilogia, “Exílio”. Só posso esperar que continuem a publicar a saga deste personagem tão carismático até termos a obra na totalidade em português – de momento penso que já está prevista a edição não só do volume final desta trilogia como o lançamento da seguinte composta pelos livros seguintes, “The Crystal Shard”, “Streams of Silver” e “The Halfling’s Gem”.