Archive for the ‘Ficção Cientifica’ Category

Uma nave espacial gira no espaço com rumo desconhecido. Dentro dela um homem acorda repentinamente. Num minuto está a viver idilicamente no “dreamtime”, o espaço virtual para os que estão congelados até à altura de colonizar o planeta de destino, e no próximo está a sair do seu casulo para encontrar uma nave gelada e hostil que não parece querer que ele sobreviva. Não sabe o seu nome, não reconhece a nave, não tem qualquer memória da rapariga que o acompanha e que lhe salvou a vida ao impedir que morresse congelado no seu casulo. A única certeza que tem é que algo correu mal. Alguma coisa sucedeu durante a sua hibernação que alterou radicalmente a nave em que viagem que está agora povoada por criaturas não humanas, algumas que, como ele, apenas querem sobreviver e outras que parecem ter sido desenhadas para caçar. Mas antes de se poder dedicar à procura de respostas sobre o passado terá que se preocupar em sobreviver num ambiente que parece desenhado para o matar. Talvez, com sorte, passado algum tempo consiga ter oportunidade de obter algumas respostas.

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Uma capa simples e funcional. Um pouco como o livro.

A história usa um conceito inicial bastante bom, o do homem solitário que tem que sobreviver num ambiente em que desconhece as regras básicas. O tom da escrita é inicialmente cativante porque Greg Bear consegue capturar bastante bem o estado mental da sua personagem principal. A confusão, o cansaço, a fome e a ignorância estão todas bem retratadas e a escrita varia perceptivelmente quando o estado mental muda. Por representar bastante bem estas variações acaba por ser algo cansativo para o leitor já que o tempo de concentração da personagem em qualquer tema ou objecto tende a ser tão curto que ficamos sempre com descrições algo superficiais de eventos e personagens que não nos permitem obter o nível de detalhes que gostaríamos. Por sua vez a superficialidade do envolvimento com meio leva, por mais que uma vez, a uma sensação de que a escrita é apressada e que a história está a avançar quase sozinha, sem motivações concretas ou razões que expliquem o porquê das acções. Para os fãs de “hard scifi” a experiência é algo melhor já que Bear, como é seu hábito, dedica uma boa parte do seu tempo a explicar o funcionamento técnico das máquinas presentes neste universo tentando com que tudo faça sentido.

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Uma versão alternativa. Não muito diferente mas talvez mais evocativa.

As personagens são a parte mais frágil desta obra. São demasiado superficiais. E aqui podemos discutir se isto se deve a uma questão de estilo do autor (que tendo realmente a privilegiar o aspeto tecnológico das suas histórias) ou a uma tentativa deliberada de transmitir aos leitores uma sensação de caos mental e vidas que são tão perigosas que não há tempo para desenvolvimentos interpessoais ou introspeção – provavelmente será um pouco de ambas. Seja como for o efeito acaba por ser um conjunto de personagens sem qualquer profundidade que não tornam a identificação com o leitor nada fácil. Em termos de perspetivas usadas na narrativa estamos perante uma obra que usa apenas um ponto de vista sendo toda a ação vista pelos olhos do nosso “recém acordado”. As personagens secundárias adicionam alguma cor ao cenário interno algo árido do nosso herói mas não tanto como seria possível já que mais uma vez o autor escolhe centrar-se sobre a sua função técnica em total detrimento das suas personalidades e interesses.

Poderá parecer que não apreciei o livro ou a escrita do autor mas se me centro nos aspetos negativos da obra é precisamente por ter até gostado da viagem e pensar que com algumas alterações de perspetiva o autor poderia ter criado uma obra muito mais interessante que não daria a impressão de estar inacabada, de lhe faltar alguma substância ou de reter demasiada informação vital quase até ao final do livro. Mesmo assim “Hull Zero Three” é uma obra de ficção científica pura e dura de fácil leitura, requer pouca concentração por parte do leitor (não existem muitos detalhes da história a recordar) e providencia umas boas horas de diversão apesar de provavelmente não ir ficar na memória passado algum tempo.

Nota: 7.5/10 

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No futuro sangrento existe apenas guerra. Sem compromisso. Sem interrupção. Milhares de milhões de humanos lutam através da galáxia em nome do Deus Imperador, aprisionado para todo sempre em animação suspensa na Terra. Os Space Marines (Astartes) são a maior arma do arsenal humano, guerreiros imparáveis treinados e condicionados geneticamente para alcançarem a perfeição bélica. Dentro das várias legiões de Astartes uma das mais prestigiadas é sem dúvida a dos Ultramarines e é sobre eles que este filme fala. Nas profundezas do espaço, a bordo de um transporte espacial, o esquadrão Ultima recebe um comunicado de emergência do planeta Mithron. Um planeta desértico e periférico no espaço imperial cuja única importância (e razão para existir presença humana) é a ser um santuário ao Deus Imperador e conter uma relíquia sagrada guardada por uma companhia de Imperial Fists. Sabendo que para este pedido ter sido emitido a situação deve ser mesmo grave o capitão Severus avança mesmo tendo apenas o apoio dos dez astartes do esquadrão Ultima. É um estranho esquadrão, constituído por um comandante que já viu quase tudo e soldados que ainda estão bastante verdes sendo esta a sua missão de teste. Sozinhos num planeta aparentemente abandonado estes homens encontram apenas escombros do santuário e sinais claros de um massacre das forças imperiais presentes. Mas se foi esse o caso e os poderes do Caos chegaram a este mundo então onde se encontram? Que força de ataque foi forte o suficiente para aniquilar completamente uma companhia inteira de Space Marines?

A chegada ao inferno...

Quando este projecto surgiu  fiquei bastante entusiasmado porque como os leitores deste espaço sabem eu sou um grande fã do universo Warhammer. Não sabia muito bem o que esperar porque é realmente um projecto único, um filme de animação de longa duração sobre um dos universos de ficção científica mais interessantes que existem. O argumento (como não podia deixar de ser) é da autoria de Dan Abnett o “poster boy” da escrita da Black Library e tem alguma consistência apesar de eu achar que não está ao nível do resto da sua obra.  Ao longo de 70 minutos temos uma pequena amostra do que é a vida destes super-soldados, como pensam, como combatem, o que os motiva e o que os atormenta. De certa forma é um filme mais humano daquilo que estava à espera já que a história gira muito à volta de temas como a confiança (a paranóia é constante quando se lida como poderes do Caos que podem corromper qualquer um), a autoridade (um tema mais militar) e a ânsia de dar provas de que se vale alguma coisa – tudo áreas que permitem uma identificação quase imediata com qualquer leitor. Como fita-cola de todo o filme temos um elemento de suspense constante que nos deixa sempre à espera do que vai acontecer e liga muito bem os momentos de acção (tomara muitos filmes de horror terem consigo criar esta atmosfera tensa mas expectante). Numa nota menos positiva: ao focar-se tanto no elemento pessoal o filme acaba por dar uma ideia muito fraca do ambiente geral do setting Warhammer o que pode ser algo problemático a quem não conhece quase nada – muito poucas explicações sobre as facções envolvidas, as leis de funcionamento deste universo e ainda menos contexto político/conspirativo que costuma fazer parte deste tipo de narrativas.

Isolados num deserto imenso sem saber o que esperar...

De um ponto de vista gráfico o filme está muito agradável mas não está muito acima das animações que já foram feitas para os vários jogos Warhammer para PC – de certa forma esperava um pouco mais neste campo (tenho a certeza que o próximo filme terá um orçamento maior e permitirá isso). As vozes foram muito bem escolhidas e só posso dar os meus parabéns aos actores que lhes deram vida: Terrence Stamp, Sean Pertwee e o grande John Hurt. A personagem principal (não vou entrar muito neste campo porque sinceramente não é muito relevante para a progressão da história) que é escolhida para encarnar as virtudes do Ultramarines (quando chegarem ao fim do filme perceberão o que quero dizer) é sem dúvida o irmão Proteus e quase se podia dizer que o filme é o primeiro capítulo da sua vida activa. Com alguma personalidade distinta ainda temos os velho capitão Severus que tenta liderar uma missão que quase tem a certeza ser suicida e o “médico” do esquadrão, Carnak, que tem tanta experiência como Severus e tudo faz para arrefecer os ânimos dos novatos. Acaba por ser uma mistura entre um prólogo de grandes eventos que ainda estão por vir e um episódio heróico recordado para todo sempre como história moral.

I am Steel, I am Doom, I march For Macragge And I Know No Fear!

Nota: 8/10

Nota: Este filme só está disponível através do site dos próprios produtores do filme.

Paul Atreides, Muad’dib, está morto há mais de nove anos. O Imperador que conquistou um trono usando os terríveis Fremen, o povo de Dune, como exército e mecanismo de controlo da Spice, a única coisa que mantém o Império interestelar a funcionar (permite aos navegadores da Guilda Espacial dobrar o tempo e espaço além de ter outros usos pessoais como aumentar a esperança de vida e presciência), não conseguiu conseguir sobreviver aos seus próprios poderes de previsão do futuro e acabou por entrar sozinho no deserto para nunca mais voltar. Mas a galáxia não esteve parada desde esse dia. Os seus filhos gémeos, leto e Ghanima, são os herdeiros do Império e enquanto não atingem maturidade Alia (sua tia, irmã de Paul) assume o controlo directo da regência e do corpo religioso que deificou Muad’dib e que prossegue uma imparável cruzada de conversão pela galáxia. Mas estas duas crianças não são normais. Tal como a sua tia possuem a memória genética de todos os que os precederam o que faz deles anciões veneráveis em corpos de crianças mas ao contrário dela querem encontrar uma forma de controlar as incontáveis vidas que possuem dentro de si para não perderem as suas próprias personalidades. Fora destas tensões familiares o próprio planeta de Arrakis está a mudar. Os fremen estão intencionalmente a mudar o clima ao mesmo tempo que o seu carácter também se altera. De ferozes, independentes e isolados passaram a citadinos, conquistadores e gananciosos. Poderá o Império manter-se quando a sua base militar parece estar a mudar de forma tão rápida? Pode o próprio planeta, e a vital Spice, sobreviver aos novos donos? Como se estas incertezas não bastassem a grande casa Corrino conspira de longe para recuperar o trono que Paul lhes tirou ao fim de incontáveis gerações e a própria irmandade das Bene Gesserit, através de Lady Jessica (avó dos gémeos e mão de Alia), parece empenhada em minar os novos poderes para benefício do seu programa de perfeição genética. Como se isto não fosse suficiente surge do deserto profundo (onde ainda existem as grandes minhocas produtoras de spice, Shai-hulud, encarnações vivas de deus segundo a mitologia fremen) um profeta cego que parece determinado em minar o edifício religioso do novo Império. Em última análise trata-se de saber quem governa Dune e por extensão a Galáxia.

Uma versão discreta e sóbria.

Este livro, o terceiro da saga Dune, é a continuação conceptual directa dos outros dois volumes e prossegue a exploração de Frank Herbert sobre a evolução das civilizações, o papel da religião, a realidade da política e em certa medida até pode ser visto como uma meditação sobre o nosso destino colectivo. Se há algo que podemos apontar como característica desta série é a nossa incapacidade, enquanto leitores, de perceber muito bem como as coisas vão acabar; existem demasiadas personagens, interesses, eventos e sempre mais uma surpresa quando pensamos que as coisas já estão decididas. Sendo este o terceiro livro há um certo desgaste deste recurso ao segredo e à surpresa de última hora. Em termos de personagens há que dizer que existe pouca flexibilidade em toda a obra sendo que este volume não é excepção. Todos os actores deste drama espacial estão imensamente condicionados pelos papéis sociais e políticos que desempenham sendo tudo o resto enterrado até quase não sobrar vislumbre de preocupações puramente pessoais – Leto e Ghanima são uma excepção parcial já que apesar de terem uma agenda muito pessoal (não serem consumidos pelas vozes interiores dos seus antepassados) ela é sempre percepcionada como algo ligado à governação e planos para o Império (parecem só existir como entes políticos). O tempo dedicado a cada perspectiva está equilibrado de forma eficaz sendo que vamos tendo acesso a visões muito diferentes – mais uma vez Leto é uma excepção sendo que tem muito mais tempo que os restantes (por vezes começa a tornar-se aborrecido seguir a sua trajectória já que há imenso tempo dedicado puramente a vozes internas e a uma transformação que é inevitável).

Versão mais antiga e das mais fracas que tenho visto.

Onde a obra brilha, como um sol de meio-dia no deserto, é nos planos metafórico e simbólico. Herbert viveu obcecado com sistemas (biológicos, sociais, etc) e isso transpira em cada página que é lida. Nada é sem consequências e tudo tem um efeito no meio que por sua vez afecta quem iniciou a acção (círculos de acção-reacção que se afectam mutuamente) – é a total negação da narrativa simplista em que o herói aparece como a única variável em toda a história. Mais que isso a saga Dune é sobre Política, com “P” maiúsculo. Esqueçam os partidos, esqueçam os lirismos, esqueçam os mitos. A visão do autor é aterradora na sua vontade implacável de nos arrancar as nossas seguranças e mentiras (a começar pela forma como trata o tema da religião que é uma mistura de calculismo de longo prazo, exploração do fanatismo e condicionamento colectivo) sem nos dar nada em troca que não seja uma eterna luta, enquanto grupo biológico, para a frente. De certa forma esta série também é única noutro aspecto já que anula completamente a figura do homem-comum. Não há espaço no universo Dune para um herói despreparado, casual ou sequer normal. Todos os personagens são extraordinários nas suas respectivas áreas e talentos (não são apenas bons naquilo que fazem… são genuinamente o pináculo dos grupos a que pertencem). Tudo isto cria uma certa dose de distanciamento emocional por parte do leitor mas não é um abismo que não se consiga atravessar porque apesar de tudo conseguimos identificar elementos humanos em certos momentos (especialmente na personagem do Profeta).

Uma terceira versão derivada da anterior (ou vice-versa).

Mesmo não sendo sempre realista (em termos de distribuição de poder), algo distante do leitor e altamente metafórico este livro é parte da obra-prima que são os seis livros de Dune e deve ser lido por todos.

Nota: 8/10

Ramon Llull é um homem pouco comum para o século XIV. Teve uma vida secular interessante, alguns diriam mesmo apaixonante, mas alguns erros que cometeu acabaram por o empurrar para a religião ao ponto de tomar a decisão de ingressar numa ordem religiosa. O trabalho para o qual acredita ter sido chamado é de natureza científica e filosófica, a tentativa de provar que deus e o cristianismo podem ser atingidos por uma via puramente racional e lógica sem ter que assumir como premissa nenhum dos dogmas da fé. Nessa tentativa desenvolveu o seu sistema de proposições lógicas para categorizar o pensamento humano e chegou mesmo a viajar ao mundo árabe para tentar a conversão pela razão em vez da espada – sem grande apoio do papado que claramente tinha investido numa guerra muito mais física que ideológica. Na tentativa de atingir a terra santa Ramon dá por si encalhado na ilha de Malta sem saber como continuar a sua viagem. Mas nessa altura recebe uma estranha oferta de um emissário de um condottiero ao serviço do Império Bizantino, Roger de Flor. Vai a Constantinopla falar pessoalmente com Roger que tem uma ambiciosa oferta para lhe fazer, descobrir o mítico reino de Prestes João, a cidade de deus, o coração da cristandade escondido em parte incerta. Seguindo algumas pistas, deixadas para trás por membros do lendário reino, nas catacumbas de Bizâncio acabam por iniciar uma viagem que os levará aos limites do mundo conhecido e mesmo além disso.

Uma capa apelativa e apropriada à história.

Estamos perante um livro de aventuras e exploração e sinceramente esperava apenas um livro mais ou menos light com uma trama aceitável mas fui agradavelmente surpreendido por Juan Miguel Aguilera já que ao longo do livro temos momentos realmente muito bons e acima da aventura típica da ficção científica. Há algumas surpresas mais ou menos previsíveis (a começar pela natureza da cidade que procuram, Ápeiron, que de religiosa tem pouco ou nada) que por vezes tornam a narrativa um pouco menos excitante mas nunca perdemos a vontade de continuar a ler e, mais tarde ou mais cedo, somos sempre recompensados por uma ideia ou um diálogo verdadeiramente bom. Em termos temáticos falamos aqui de um conflito entre a mentalidade moderna (representada pelos cidadãos de Ápeiron, um verdadeiro oásis de sanidade num deserto de violência cega) e uma mentalidade medieval própria do período descrito (e aqui não há tentativas de dourar a pílula, mesmo Ramon é descrito como acima de tudo um monge da sua época apesar de a partir de certa altura começarmos a ver uma transformação interior com resultados curiosos) sendo tudo isto encaixado dentro não só de aventuras várias (com alguns combates individuais e de batalhas pouco usuais) e uma história de ficção científica paralela que nas melhores alturas chega a misturar elementos à la Lovecraft com fantasia mágica.

A versão original, menos criativa mas também apropriada.

As personagens são possivelmente o que impede o livro de ser verdadeiramente épico. Os conceitos interessantes estão lá mas a verdade é que as personagens centrais nem sempre estão à altura. Ramon, de longe o mais interessante, não tem a profundidade que seria de esperar de um homem considerado como um verdadeiro génio da sua época (nota importante, o autor usa e abusa dos desmaios de ramon, um homem de certa idade, para terminar capítulos. A tal ponto que dá vontade de o comparar com romancistas do século XIX que punham uma heroína a desmaiar a cada dois capítulos). Roger de Flor, companheiro incansável do nosso monge franciscano, é pura e simplesmente uma máquina de matar com alguns vislumbres de personalidade e interesse que não são explorados convenientemente (por exemplo, a sua posição religiosa pouco usual para a época). A conselheira Neléis é um arquétipo andante e falante da modernidade que serve mais como forma de criar contraste entre os dois mundos que como um ser humano autónomo (apesar de mais uma vez existir potencial neste caso na relação amorosa dela). Os outros soldados da expedição de Roger e os poucos cidadãos de Ápeiron mencionados por nome são quase irrelevantes e só intervêm em momentos em que os detalhes pessoais são de pouca ou nenhuma importância tornando isto um elenco algo limitado. A compensar um pouco estes elementos temos um vilão verdadeiramente interessante e misterioso sendo que vamos conhecendo os seus planos, e mesmo a sua natureza, apenas à medida que o livro avança sendo que existe um nível crescente de confronto com os seus esbirros que achei muito satisfatório.

No fim tudo fica claro. A história está contada. Os dados lançados. E ficamos com pena de acabar a leitura desta história que, apesar de ter alguns altos e baixos, nos fascinou. É algo diferente do standard da ficção científica e fica a ganhar com isso! Uma leitura mais que recomendável. Fico com muita vontade de ver mais material de Juan Aguilera traduzido.

Nota: 8.5/10

Ps: sem querer ser perfeccionista há algo a mencionar em que o autor está enganado nos factos históricos que usa para construir a narrativa. Ele assume que na Idade Média era pensado que a terra seria plana coisa que está longe de ser verdade. Durante toda a Idade Média os sábios tinham consciência plena de que o mundo era provavelmente esférico. Um mito muito difundido (originalmente nas guerras intestinas do cristianismo moderno) mas apenas isso, um mito.

A saga da Heresia de Horus continua e depois de “The Flight of the Eisenstein” somos presenteados com “Fulgrim”, o quinto volume de uma das maiores epopeias da ficção científica a “Horus Heresy”. O livro é um pouco mais longo que os quatro volumes que o precederam sendo que excede as quinhentas páginas. Como o título indica a narrativa está centrada no Primarch da III Legião do Império, os “Emperor’s Children”, Fulgrim. Trata-se de um líder empenhado senão mesmo consumido até à sua alma na busca da perfeição. Busca essa que transmite a toda a legião que comanda; não basta serem bons guerreiros ou serem leais ao Imperador. É preciso serem os melhores, os mais cultos, os mais belos, os mais leais, os mais eficientes. Nos seus melhores momentos a III Legião é um ícone de esperança para toda a humanidade, mostrando o caminho de serviço ao Império que inspira grandes feitos e sacríficos mas nos seus piores dias são um exemplo de arrogância desmedida e frieza sem par que levam ao afastamento progressivo entre os astartes e o resto da humanidade. O problema é que existem cada vez mais dias maus. Desde que Fulgrim liderou pessoalmente um assalto ao templo de uma espécie não humana num planeta aquático há algo que mudou no carácter do Primarch e daqueles que comanda. O que antes era a busca da perfeição transforma-se em pretensões de status ocas; o que era um apurado sentido estético começa a deteriorar-se em mostras de arte grotescas, heréticas e mesmo demoníacas; onde antes havia amizade para com as outras legiões agora há ressentimento e inveja. Mais preocupante de tudo é o facto de quase ninguém na expedição reparar nesta súbita mudança ao fim de quase duzentos antes de estabilidade.

Uma capa dentro do estilo a que já estamos habituados.

Ao contrário dos outros livros desta série (pelo menos até aqui) este centra-se sobre a perspectiva pessoal de um dos semideuses (Primarchs) que comanda uma legião do Império da Humanidade (as anteriores dividam-se entre Primarchs, soldados comuns, artistas e capitães de companhias de astartes) e é talvez por isso mesmo algo mais humana e detalhada. Cobre essencialmente os eventos que já haviam sido falados nos outros quatro volumes, até à traição de Isstvan III, (de uma perspectiva completamente nova é certo) e avança mesmo um pouco na história deixando-nos mesmo no limite de um grande evento. Mais que nos outros livros os efeitos nocivos das forças do Caos são detalhados o suficiente para que o leitor possa sentir verdadeira repulsa pelo que está a acontecer (até eu, que costumo ter um “soft spot” para com os vilões, comecei a desejar uma vitória das forças da ordem) – já não falamos de algo impessoal e que quase não é sentido ou visto pelas personagens principais. É um mal que oprime a cada página que lemos, uma corrupção que vai crescendo apesar das várias tentativas de resistência, uma força que parece viva e torna o belo em horripilante sem poupar nada. Uma verdadeira descida ao abismo da loucura mais pura.

Fulgrim Vs Ferrus Manus. Irmão contra irmão. Caos contra Ordem.

Existem algumas personagens secundárias, de importância variável, que vão tornando possível uma acumulação de eventos dramáticos que culminam num gloriosos e maléfico final. Uma das mais importantes é Ferrus Manus, Primarch da X legião (“Iron Hands”), um dos irmãos mais próximos de Fulgrim que por ser, em temperamento, o oposto dele acaba por lhe servir de consciência e de travão. Os quatro capitães principais dos “Emperor’s Children” acabam por cair no modelo dos outros livros sobre a Legião comandada por Horus, dois parecem ser susceptíveis de conversão aos poderes ruinosos do Caos na sua procura da perfeição e dois parecem incorruptíveis (sem querer estragar a leitura a ninguém mas até a história segue uma linha similar no que toca aos seus destinos). O que realmente sobressai no livro não é a interacção entre as personagens mas o estudo algo detalhado de como uma das unidades de elite do Império é completamente destruída pelas suas próprias ambições e paixões à medida que Slaanesh (um dos deuses do Caos) renasce na nossa galáxia. Príncipe dos prazeres e Senhor da auto-indulgência e do excesso, vai tomando conta do espírito destes indomináveis guerreiros. O destino final nunca está em causa porque questionar decisões prévias seria uma brecha inadmissível numa muralha de orgulho de seres que se assumem perfeitos. De certa forma quase que podemos dizer que os poderes do Caos são, como um todo, a personagem principal deste livro. Seja como for, é uma adição de peso ao cânone Warhammer 40k que nos leva de volta ao nível muito elevado de “Galaxy in Flames”.

Nota: 9/10

“Vorga. Vorga. Vorga!! Vorga!!!!!” É tudo o que está na mente de Gully Foyle e não podemos culpá-lo pela sua obsessão. Ao fim de seis meses à deriva nos destroços da nave espacial que tripulava, a Nomad, em que só tentava manter-se vivo uma hora de cada vez, alimentando a esperança que alguém desse pela falta da Nomad, teve o seu momento de sorte. Apareceu outra nave. A Vorga. Mas a Vorga não parou. E a mente de Gully Foyle estilhaçou-se. A partir deste momento não interessa mais nada no universo. A Vorga tem que pagar. Tem que ser destruída. Custe o que custar. Fazendo o impossível escapa dos destroços à deriva e consegue ser resgatado mas o que saiu do espaço já não é o mesmo homem. Se é que podemos dizer que ainda é humano. Há uma determinação que condiciona todos os seus passos e que o vai levar a situações bem mais complexas do aquilo que alguma pudesse ter imaginado pois a nem a Nomad nem a Vorga eram simples naves de transporte. O sistema solar não está preparado para o renascimento de Gully Foyle, o tigre, o predador, o monstro. Entretanto à sua volta toda a humanidade começa a desintegrar-se. Os Planetas Internos e os Exteriores (relativamente à cintura de asteróides) digladiam-se numa guerra económica (não são todas?) que fica mais feia com cada dia que passa, começa a suspeitar-se que apenas um dos dois sistemas irá sobreviver a esta horrível guerra civil da humanidade.

Uma boa capa para um bom livro.

Este é um livro de várias partes sendo que cada uma corresponde a uma transformação do nosso personagens principal que é, permitam-me dizê-lo, perfeito. Gully é o Homem comum despido de qualquer pretensão ou romantismo. Não tem qualificações, não tem ambições, não tem personalidade, é vil, egoísta, não sofisticado e acima de tudo não tem qualquer futuro no mundo que habita. Mas o potencial estava lá e quando todos o abandonam o seu instinto de agressão leva a melhor e serve de catalisador a todo um processo transformativo de consequências imprevisíveis. A primeira parte desta obra é quase como ser presenteado com uma versão do Conde de Monte Cristo no espaço. Tudo e todos são reduzidos apenas a meios para atingir um fim, a destruição da Vorga e todos os que estavam a bordo. À medida que tudo isto se desenrola Alfred Bester vai revelando como é este futuro do século XXV. Uma era em que o teletransporte não só é possível como é orgânico, ou seja, todos são capazes de o fazer (com menor ou maior capacidade e distância) desde que seja na superfície do mesmo planeta – o que aboliu de forma instantânea o conceito de Nação. Um mundo em que o conceito de nobreza foi reactivado em toda a sua glória e as dinastias reinantes dos carteis comerciais são a crème de la crème da sociedade – é curioso como ao fim de mais de 50 anos os autores de ficção científica continuam enormemente preocupados com cenários de oligarquias opressivas, o tema permanece tão actual como sempre. E aqueles que nada têm transformam-se em salteadores que se teletransportam para onde quer que exista uma vítima fácil ou um desastre.

Uma capa mais antiga e que faz menos sentido.

Quanto às personagens há que admitir que quem brilha é mesmo quase só Foyle. Ele é um anti-heroi. O verdadeiro self-made man que nada teme e nada dá a ninguém. Implacável a seguir o caminho que escolheu sem pedir desculpa pelos corpos e destroços que vai deixando pelo caminho. Parece simplista mas não é. Foyle muda, evolui, cresce e teme o seu próprio potencial para ainda maior terror do resto das personagens. Presteign, o senhor de um dos maiores grupos económicos dos Sistemas Internos, odeia-o pelo que pensa que ele sabe sobre a Nomad e sua missão. Dagenham, o homem mutante radioactivo, também procura o nosso pequeno monstro, primeiro por ter sido contratado para o fazer e mais tarde porque descobre uma consciência que nunca suspeitou vir a ter e tem que proteger valores mais altos que não pode permitir que sejam destruídos nesta Vendetta louca. Y’ang-yeovil, o chefe dos serviços secretos dos Sistemas Internos, que também é um dos poucos que sabe a verdade sobre o voo de Gully Foyle e que tem uma guerra a ganhar, e não aceita de forma de alguma que um cretino semieducado o impeça de atingir esse objectivo. O livro é no seu todo uma metáfora sobre o Homem comum, o potencial que todos temos, os percursos que temos que percorrer (quer individualmente quer colectivamente como espécie), o riscos da opressão para a própria casta dirigente e mesmo sobre o ódio como motivação para guiar uma vida, algo que tanto nos pode levar ao inferno como abrir as portas do céu se não se aceitar estagnar. Um triunfo dentro do género!

Nota: 9.5/10

No sistema Sabbat os poderes ruinosos do Caos tomaram poder há gerações e tornaram toda a região numa gigantesca base para o avanço da Heresia, quer através de missionários que espalham mentiras venenosas contra o Império quer usando assaltos militares a todos os sistemas circundantes. O Warmaster Slaydo, herói distinguido em incontáveis conflitos com heréticos e alienígenas, foi agora encarregue de comandar uma expedição da Guarda Imperial (auxiliada por contingentes dos imortais Adeptus Astartes e os sábios Adeptus Mechanicus ) a este sistema para o reconquistar em nome do Imortal Deus-Imperador. Fiel à sua reputação Slaydo alcança sucesso atrás de sucesso até que na hora da sua maior vitória tomba em combate. A expedição de mais de mil milhões de soldados da Guarda fica primeiro de luto e depois em choque com as decisões tomadas por Slaydo no seu leito de morte. Ignorando critérios de tempo de serviço ou experiência nomeia um oficial superior relativamente novo como seu herdeiro, ascende assim o Warmaster Macaroth e deixa o candidato mais óbvio, Lord High Militant General Dravere, a espumar de raiva e claramente interessado em conspirar para usurpar a posição que pensa que lhe pertence por direito e mérito. Uma segunda acção, menos pública, foi conceder a equivalência à patente de coronel (e como tal a liderança de um regimento) ao comissário político Ibram Gaunt (há mais que uma leve semelhança estética entre alguns elementos do Império do Homem e a velha União Soviética começando pela existência de comissários políticos no exército), líder dos fantasmas de Tanith.

Não é uma capa má mas talvez seja demasiado "pulp" (um problema estético recorrente nesta série).

Este homem de ferro é o centro da narrativa que nos arrasta de novo para o universo Warhammer (de facto este livro é uma boa forma de começar a ler algo do complexo universo da Black Library) para um cenário de guerra sem fim e sem piedade. E aqui não é preciso andar com muitas subtilezas, o livro é essencialmente mesmo sobre guerra, dever e política – nesta ordem. O Coronel-Comissário Gaunt é um homem marcado por um passado difícil (com traições à mistura) e por um estranho aviso que recebeu há mais de vinte anos vinda de uma rapariga com poderes psíquicos aprisionada pela Inquisição. Começando em Fortis Binary, um planeta industrial que é o cenário de uma guerra de trincheiras contra as forças do Caos, vemos o estilo de liderança muito especial de Gaunt entrar em acção (um oficial que se destaca pela preocupação com os seus homens é algo estranho neste universo onde o guarda imperial médio é considerado como carne para canhão) e ao fim de algumas grandes cenas de combate começamos a entrar no espírito da unidade que comanda e de como interage com o que a rodeia (o seu ódio aos Patrícios de Jant que remonta a uma dívida de Gaunt, ou a relação distante com o comando central que, não infrequentemente, conspira contra as suas próprias unidades) e somos introduzidos a novos graus de complexidade. Começamos a ter uma história de fundo que é mais complexa que apenas uma série de combates desconexos e que envolve alguma intriga política por parte de alguns personagens – nada de grandes complexidades mas o suficiente para dar uma nova dimensão, credível, à guerra constante.

A versão alternativa.

As personagens que mais nos marcam são sem dúvida os oficiais das várias unidades começando claramente por Gaunt e os seus deus oficiais (o Coronel Corbec e o Major Rawne – personagens bem distintos e únicos à sua maneira), Flense o colérico inimigo mortal de Gaunt por mais razões do que aquelas que seriam de esperar ou Zoren o estóico comandante dos Vitrian Dragoons (uma unidade aliada). Há uma falha clara no desenvolvimento de alguns personagens mais secundários, especialmente os vilões, sendo que alguns poderiam ter sido muito mais interessantes se Dan Abnett tivesse tido mais trabalho a criar detalhes e uma trama algo mais complexa – é interessante o suficiente para nos fazer querer ler quase compulsivamente mas não o suficiente para que não se torne algo previsível para os leitores com mais experiência. Nesta categoria é de destacar o Inquisidor Heldane que tem bastante potencial e facilmente poderia ter-se tornado em algo mais que um simples obstáculo secundário na trama. Para concluir esta crítica gostaria de reforçar a ideia de que este livro está claramente na categoria de ficção científica/fantasia militar. Quem tiver problemas em ler descrições algo detalhadas de operações militares ou de bravos combates em grupo ou individuais terá sérias dificuldades em avançar na leitura. Mas mesmo para os que não gostam especialmente da parte guerreira é de apontar que o autor não cai nunca em facilitismos ou em heroísmos fáceis. Longe disso. Tudo é descrito de forma realista e os comportamentos destes soldados, no seu melhor e pior, está presente em toda a sua humanidade o que para mim tornou a leitura muito mais agradável do que se o lado negro tivesse sido ignorado. Já tenho o volume seguinte desta saga, Ghostmaker, na estante à espera de leitura.

 

Nota: 8/10