Archive for the ‘Ficção Especulativa’ Category

Ramon Llull é um homem pouco comum para o século XIV. Teve uma vida secular interessante, alguns diriam mesmo apaixonante, mas alguns erros que cometeu acabaram por o empurrar para a religião ao ponto de tomar a decisão de ingressar numa ordem religiosa. O trabalho para o qual acredita ter sido chamado é de natureza científica e filosófica, a tentativa de provar que deus e o cristianismo podem ser atingidos por uma via puramente racional e lógica sem ter que assumir como premissa nenhum dos dogmas da fé. Nessa tentativa desenvolveu o seu sistema de proposições lógicas para categorizar o pensamento humano e chegou mesmo a viajar ao mundo árabe para tentar a conversão pela razão em vez da espada – sem grande apoio do papado que claramente tinha investido numa guerra muito mais física que ideológica. Na tentativa de atingir a terra santa Ramon dá por si encalhado na ilha de Malta sem saber como continuar a sua viagem. Mas nessa altura recebe uma estranha oferta de um emissário de um condottiero ao serviço do Império Bizantino, Roger de Flor. Vai a Constantinopla falar pessoalmente com Roger que tem uma ambiciosa oferta para lhe fazer, descobrir o mítico reino de Prestes João, a cidade de deus, o coração da cristandade escondido em parte incerta. Seguindo algumas pistas, deixadas para trás por membros do lendário reino, nas catacumbas de Bizâncio acabam por iniciar uma viagem que os levará aos limites do mundo conhecido e mesmo além disso.

Uma capa apelativa e apropriada à história.

Estamos perante um livro de aventuras e exploração e sinceramente esperava apenas um livro mais ou menos light com uma trama aceitável mas fui agradavelmente surpreendido por Juan Miguel Aguilera já que ao longo do livro temos momentos realmente muito bons e acima da aventura típica da ficção científica. Há algumas surpresas mais ou menos previsíveis (a começar pela natureza da cidade que procuram, Ápeiron, que de religiosa tem pouco ou nada) que por vezes tornam a narrativa um pouco menos excitante mas nunca perdemos a vontade de continuar a ler e, mais tarde ou mais cedo, somos sempre recompensados por uma ideia ou um diálogo verdadeiramente bom. Em termos temáticos falamos aqui de um conflito entre a mentalidade moderna (representada pelos cidadãos de Ápeiron, um verdadeiro oásis de sanidade num deserto de violência cega) e uma mentalidade medieval própria do período descrito (e aqui não há tentativas de dourar a pílula, mesmo Ramon é descrito como acima de tudo um monge da sua época apesar de a partir de certa altura começarmos a ver uma transformação interior com resultados curiosos) sendo tudo isto encaixado dentro não só de aventuras várias (com alguns combates individuais e de batalhas pouco usuais) e uma história de ficção científica paralela que nas melhores alturas chega a misturar elementos à la Lovecraft com fantasia mágica.

A versão original, menos criativa mas também apropriada.

As personagens são possivelmente o que impede o livro de ser verdadeiramente épico. Os conceitos interessantes estão lá mas a verdade é que as personagens centrais nem sempre estão à altura. Ramon, de longe o mais interessante, não tem a profundidade que seria de esperar de um homem considerado como um verdadeiro génio da sua época (nota importante, o autor usa e abusa dos desmaios de ramon, um homem de certa idade, para terminar capítulos. A tal ponto que dá vontade de o comparar com romancistas do século XIX que punham uma heroína a desmaiar a cada dois capítulos). Roger de Flor, companheiro incansável do nosso monge franciscano, é pura e simplesmente uma máquina de matar com alguns vislumbres de personalidade e interesse que não são explorados convenientemente (por exemplo, a sua posição religiosa pouco usual para a época). A conselheira Neléis é um arquétipo andante e falante da modernidade que serve mais como forma de criar contraste entre os dois mundos que como um ser humano autónomo (apesar de mais uma vez existir potencial neste caso na relação amorosa dela). Os outros soldados da expedição de Roger e os poucos cidadãos de Ápeiron mencionados por nome são quase irrelevantes e só intervêm em momentos em que os detalhes pessoais são de pouca ou nenhuma importância tornando isto um elenco algo limitado. A compensar um pouco estes elementos temos um vilão verdadeiramente interessante e misterioso sendo que vamos conhecendo os seus planos, e mesmo a sua natureza, apenas à medida que o livro avança sendo que existe um nível crescente de confronto com os seus esbirros que achei muito satisfatório.

No fim tudo fica claro. A história está contada. Os dados lançados. E ficamos com pena de acabar a leitura desta história que, apesar de ter alguns altos e baixos, nos fascinou. É algo diferente do standard da ficção científica e fica a ganhar com isso! Uma leitura mais que recomendável. Fico com muita vontade de ver mais material de Juan Aguilera traduzido.

Nota: 8.5/10

Ps: sem querer ser perfeccionista há algo a mencionar em que o autor está enganado nos factos históricos que usa para construir a narrativa. Ele assume que na Idade Média era pensado que a terra seria plana coisa que está longe de ser verdade. Durante toda a Idade Média os sábios tinham consciência plena de que o mundo era provavelmente esférico. Um mito muito difundido (originalmente nas guerras intestinas do cristianismo moderno) mas apenas isso, um mito.

“Vorga. Vorga. Vorga!! Vorga!!!!!” É tudo o que está na mente de Gully Foyle e não podemos culpá-lo pela sua obsessão. Ao fim de seis meses à deriva nos destroços da nave espacial que tripulava, a Nomad, em que só tentava manter-se vivo uma hora de cada vez, alimentando a esperança que alguém desse pela falta da Nomad, teve o seu momento de sorte. Apareceu outra nave. A Vorga. Mas a Vorga não parou. E a mente de Gully Foyle estilhaçou-se. A partir deste momento não interessa mais nada no universo. A Vorga tem que pagar. Tem que ser destruída. Custe o que custar. Fazendo o impossível escapa dos destroços à deriva e consegue ser resgatado mas o que saiu do espaço já não é o mesmo homem. Se é que podemos dizer que ainda é humano. Há uma determinação que condiciona todos os seus passos e que o vai levar a situações bem mais complexas do aquilo que alguma pudesse ter imaginado pois a nem a Nomad nem a Vorga eram simples naves de transporte. O sistema solar não está preparado para o renascimento de Gully Foyle, o tigre, o predador, o monstro. Entretanto à sua volta toda a humanidade começa a desintegrar-se. Os Planetas Internos e os Exteriores (relativamente à cintura de asteróides) digladiam-se numa guerra económica (não são todas?) que fica mais feia com cada dia que passa, começa a suspeitar-se que apenas um dos dois sistemas irá sobreviver a esta horrível guerra civil da humanidade.

Uma boa capa para um bom livro.

Este é um livro de várias partes sendo que cada uma corresponde a uma transformação do nosso personagens principal que é, permitam-me dizê-lo, perfeito. Gully é o Homem comum despido de qualquer pretensão ou romantismo. Não tem qualificações, não tem ambições, não tem personalidade, é vil, egoísta, não sofisticado e acima de tudo não tem qualquer futuro no mundo que habita. Mas o potencial estava lá e quando todos o abandonam o seu instinto de agressão leva a melhor e serve de catalisador a todo um processo transformativo de consequências imprevisíveis. A primeira parte desta obra é quase como ser presenteado com uma versão do Conde de Monte Cristo no espaço. Tudo e todos são reduzidos apenas a meios para atingir um fim, a destruição da Vorga e todos os que estavam a bordo. À medida que tudo isto se desenrola Alfred Bester vai revelando como é este futuro do século XXV. Uma era em que o teletransporte não só é possível como é orgânico, ou seja, todos são capazes de o fazer (com menor ou maior capacidade e distância) desde que seja na superfície do mesmo planeta – o que aboliu de forma instantânea o conceito de Nação. Um mundo em que o conceito de nobreza foi reactivado em toda a sua glória e as dinastias reinantes dos carteis comerciais são a crème de la crème da sociedade – é curioso como ao fim de mais de 50 anos os autores de ficção científica continuam enormemente preocupados com cenários de oligarquias opressivas, o tema permanece tão actual como sempre. E aqueles que nada têm transformam-se em salteadores que se teletransportam para onde quer que exista uma vítima fácil ou um desastre.

Uma capa mais antiga e que faz menos sentido.

Quanto às personagens há que admitir que quem brilha é mesmo quase só Foyle. Ele é um anti-heroi. O verdadeiro self-made man que nada teme e nada dá a ninguém. Implacável a seguir o caminho que escolheu sem pedir desculpa pelos corpos e destroços que vai deixando pelo caminho. Parece simplista mas não é. Foyle muda, evolui, cresce e teme o seu próprio potencial para ainda maior terror do resto das personagens. Presteign, o senhor de um dos maiores grupos económicos dos Sistemas Internos, odeia-o pelo que pensa que ele sabe sobre a Nomad e sua missão. Dagenham, o homem mutante radioactivo, também procura o nosso pequeno monstro, primeiro por ter sido contratado para o fazer e mais tarde porque descobre uma consciência que nunca suspeitou vir a ter e tem que proteger valores mais altos que não pode permitir que sejam destruídos nesta Vendetta louca. Y’ang-yeovil, o chefe dos serviços secretos dos Sistemas Internos, que também é um dos poucos que sabe a verdade sobre o voo de Gully Foyle e que tem uma guerra a ganhar, e não aceita de forma de alguma que um cretino semieducado o impeça de atingir esse objectivo. O livro é no seu todo uma metáfora sobre o Homem comum, o potencial que todos temos, os percursos que temos que percorrer (quer individualmente quer colectivamente como espécie), o riscos da opressão para a própria casta dirigente e mesmo sobre o ódio como motivação para guiar uma vida, algo que tanto nos pode levar ao inferno como abrir as portas do céu se não se aceitar estagnar. Um triunfo dentro do género!

Nota: 9.5/10

Will Rabjohns é um homem pouco comum. Abandonou a sua pátria, Inglaterra, e uma família que nunca verdadeiramente o quis ou aceitou. Na sua nova vida na América recriou-se a si mesmo, como um homem gay livre e razoavelmente feliz. A sua profissão, fotógrafo da vida selvagem, é a sua paixão apesar de às vezes não saber bem se é uma maldição já que as imagens que reproduz parecem verdadeiros ecos de morte que a humanidade visita sobre todas as outras espécies (ou deverá ser tudo visto como um “crime” da natureza contra si própria?). Mas amaldiçoado ou não este chamamento tornou-o famoso. Permitiu-lhe conhecer o mundo. Enriquecer. E, talvez, descobrir-se a si próprio. À entrada para a meia-idade, envolvido num projecto no meio do gelo que não o entusiasma, Will tem um encontro demasiado próximo com um urso polar que o coloca num coma. Agora é obrigado a revisitar o percurso que o levou até ali e a reconsiderar o cinismo que sempre tomou como necessário e desejável para poder continuar a trabalhar e viver. Nesse passado, há quase três décadas, na pacata aldeia, no norte de Inglaterra, de Burnt Yarley os Rabjohns (Hugo, Eleanor e Will) retiram-se do mundo para recuperar da morte de um dos seus filhos, Nathaniel, quase esquecendo-se que têm outro que ainda está vivo. Estando essencialmente sozinho Will pouco descobre de positivo no novo lugarejo que habita até um dia conhecer duas estranhas personagens. Rosa McGee e Jacob Steep. Irmãos, amantes, psicopatas, assassinos, místicos, forças vivas da natureza, de muito são acusados e muito mais fica por imaginar. Jacob num breve encontro vai tocar Will de uma forma imprevisível que os vai prender para sempre um ao outro mesmo contra a sua vontade e levá-los-á inexoravelmente a uma rota de colisão décadas mais tarde. Assim começa um livro que, enganadoramente, parece prometer pouco.

Até a arte da capa do livro foi cuidada.

A história é verdadeiramente complexa e arrasta as personagens principais por memórias, acções e imaginações ficando por vezes à discrição do leitor a escolha de qual está a ocorrer no momento. Uma boa parte do livro é profundamente introspectiva (e suspeito que Clive Barker depositou muito de si nisto – e isto é um elogio porque é feito de forma a envolver o leitor e nunca o perder em memórias alheias) caindo quase na biografia e deixando o elemento fantástico quase de lado (está sempre presente mas é extremamente discreto até meio do livro). Poderá parecer excessivo a quem parar a leitura por aí mas ao continuar um pouco mais no trilho descobrimos que acima de tudo estamos envolvidos numa busca espiritual na qual Will é o nosso xamã perfeito – sempre em parte excluído do mundo por ser quem é vê-se obrigado a prosperar apesar de tudo (separação da tribo), a reinventar-se e renascer (proximidade com a morte, social e física – as descrições da devastação causada pela Sida em S. Francisco são potentes), comunicar com o que outros não querem ver (um psicopompo relutante que através do seu totem, a raposa, encontra uma voz noutros mundos) e trazer essa sabedoria de volta à comunidade para a curar e tornar mais forte. De certa forma faz-me lembrar algumas das visões de Alan Moore, também elas xamânicas e viagens de descoberta pessoal (quanto mais não seja para o leitor que souber entender o que lhe está a ser comunicado). O que ele terá que descobrir é, como dizia o oráculo de Delfos, a si próprio e só assim poderá emergir deste caminho que escolheu, e para o qual foi escolhido, para regressar aos que o querem, amam e precisam dele e do seu conhecimento. É importante notar que para quem quiser fazer uma leitura mais existencialista que espiritual o livro também permite essa abordagem e sem dúvida que aborda uma série de temas sociais quentes para a nossa sociedade nomeadamente a de definir quem somos, o que queremos vir a ser, e a que preço (uma mistura fascinante de tolerância, diversidade, crescimento, criatividade e realismo).

Uma edição anterior - nada má mas claramente ultrapassada pela nova.

Quanto às personagens Will é o nosso intérprete quase exclusivo do que acontece aparecendo por vezes alguns outros que emprestam a sua voz para criar grande realismo. Desde os pais de will (Hugo o professor de filosofia falhado e amargo que rejeita o filho e tudo o que ele sempre foi e se tornou e Eleanor uma figura materna remota quando não ausente), passando por Patrick e Drew (os dois amores da sua vida, um no passado e outro num potencial futuro), Adrianna e Frannie as duas amigas e confidentes em vidas diferentes e claro Rosa e Jacob os dois seres que desconhecem a sua própria natureza mas cujo poder toca todos os que entram em contacto consigo. Da interacção de todos eles e acima de tudo da busca de Will nasce um apaixonante relato de busca pessoal em que ao deixarmos a história desenrolar-se o fantástico volta a aparecer com cada vez mais força à medida que as páginas passam ajudando a dar força à mensagem do autor. Tenho que reconhecer que “Sacrament” é possivelmente um dos livros menos usuais e mais exigentes que li nos últimos tempos e devo igualmente admitir que houve alturas em que não sabia muito bem o que o autor queria fazer com a história e tive dúvidas quanto à qualidade do texto mas no fim foi uma autêntica viagem, a vários níveis, que não abdicaria de ter.

 

Nota: 10/10

Os ingleses decidiram mimar os leitores e toda a obra de China Miéville irá ter direito a capas novas para ficar uma colecção esteticamente coerente e bem atractiva na estante de alguém – apesar de os livros em si não serem continuações uns dos outros, cada um é de facto completamente autónomo.

Capa favorita: The Scar

King Rat (1998), Perdido Street Station (2000) e The Scar (2002).

Capa favorita: The Iron Council

Iron Council (2004), Looking for Jake and other Stories (2005), Un Lun Dun (2007).

Capa favorita: Embassytown

 The City and The City (2009), Kraken (2010) e Embassytown (previsto para 2011).  

 

Quase que dá vontade de dizer que seria uma altura perfeita para alguma editora mais aventurosa ter iniciativa e aproveitar para começar a publicação de Miéville em Portugal!

Apesar de não me opor a ver um ou outro filme de zombies, de tempos a tempos, nunca tinha tido interesse em ler nada baseado nesses seres tão familiares e, apesar de tudo, assustadores. Mas ao fim de alguns anos a ouvir e ler reviews bastante positivos de alguns livros desse género (há um interesse enorme recentemente sobre este tipo de ficção zombie) acabei por colocar os meus receios de lado (temia especialmente que outra criatura dos nossos pesadelos sofresse o destino dos vampiros na última década, uma popularização enorme mas baseada em escrita de péssima qualidade que não faz justiça ao género especulativo) e avancei para Word War Z, o segundo livro deste tipo de Max Brooks (sim é mesmo filho do “infame” Mel Brooks 🙂 ). A história passa-se no nosso mundo, no nosso tempo e começa com um evento bastante corriqueiro que de certeza já todos ouvimos num telejornal: uma nova doença contagiosa teve origem algures na China e está em risco de se espalhar ao resto da Ásia e eventualmente o resto do mundo. O que não se conhece bem são os detalhes da nova doença e quando os primeiros mortos-vivos (ainda não reconhecidos enquanto tal pois afinal de contas quem é que acreditaria que os mortos estão mesmo a regressar?) aparecem na Europa e Estados Unidos há um pânico quase imediato para que os governos protejam as suas populações. Não interessa se criam zonas de quarentena ou se prometem uma vacina, o que é importante é acalmar as massas para restabelecer um pouco de ordem. Mas um pouco por todo o globo há alguns especialistas que não acreditam que a ameaça possa ser contida com medidas essencialmente cosméticas e de relações públicas. Na África do Sul, em Israel e outros sítios começa-se a suspeitar que a onda de mortos que aí vem não pode ser sequer parada.

A capa da minha edição - talvez um pouco espartana demais.

É uma ideia mais ou menos batida e qualquer fã do género consegue adivinhar os primeiros capítulos. Caos, violência, negação da realidade, pânico e finalmente um colapso social a uma escala planetária. Mas de alguma forma a estrutura do livro ajuda a criar uma sensação de estar a ler algo novo, em vez de termos a perspectiva de uma ou duas pessoas apanhadas nesta loucura e empenhadas numa luta desesperada pela sua sobrevivência o autor estruturou a obra como uma série de entrevistas que são conduzidas depois do fim da Guerra Mundial Z. Originalmente o presente (o mundo que emergiu depois deste desastre que vitimou mais de dois terços da população) e o passado (o mundo pré-guerra, o pânico e a guerra em si) são introduzidos simultaneamente criando uma alternância muito interessante nas entrevistas. As personagens têm um passado e vidas variadas, apesar de o contexto limitar em a variedade possível; estas pessoas sobreviveram ao fim do seu mundo por isso de uma forma ou de outra todos são guerreiros e sobreviventes apesar de nem todos conseguirem aceitar o que aconteceu com a mesma facilidade. Há uma certa preponderância de pontos de vista americanos sobre todos os outros mas dado que é a nacionalidade do autor talvez isso sirva de desculpa – há muitos outros representados mas não em tanto detalhe ou com tanta frequência.

A edição portugesa tem uma capa com mais impacto!

No meio de êxodos populacionais maciços, uma guerra com os mortos-vivos e a reconstrução de um novo mundo há espaço para o autor explorar muitos temas políticos contemporâneos. O que aconteceu às potencias mundiais? A sua rivalidade sobrevive? Que tipo de regime sobrevive a um evento deste tipo? Como é que rivais (políticos, económicos, religiosos, militares, etc) podem colaborar quando nem sequer existem formas de contacto fácil? No fundo quase que faz uma sátira à tacanhez da mente humana que se recusa a enterrar as suas diferenças mesmo quando a alternativa é a eliminação. O tom geral do livro é talvez demasiado positivo para o meu gosto e talvez minimize a dimensão da nossa falta de visão enquanto espécie mas não se torna desagradável ou demasiado irrealista o que permite um bom ritmo de leitura. Outro tema que percorre o livro é o sobrevivencialismo (e admito que acho histórias ligadas a este conceito interessantes – reminiscências de ler Robinson Crusoe quando era novo de certeza) nas suas mais variadas formas, desde indivíduos a nações inteiras, o quadro que é pintado é de um mundo em que ao fim de décadas de interdependência a auto-suficiência volta a mostrar o seu valor. Foi um livro agradável de ler e posso dizer que me deixou com vontade saber mais sobre zombies e catástrofes, sem dúvida que de futuro ambos irão ter lugar nas minhas escolhas de leituras.

 

Nota: 8.5/10

 

Ps: Em Portugal este livro está editado pela Gailivro, parte da sua colecção 1001 Mundos, como Guerra Mundial Z.

Neil Cassidy e Thomas Bible foram grandes amigos durante a maior parte da sua vida adulta; conheceram-se na universidade e a relação transformou-se numa constante na vida de ambos, mesmo nos períodos mais difíceis como aquando do divórcio de Thomas e Nora. O que os aproximou nesses primeiros anos foi uma paixão mútua por psicologia e neurociência que os levou até a desenvolver o que eles chamaram “A Discussão”, uma teoria que afirma que os seres humanos nada mais são que máquinas biológicas desprovidas de qualquer livre vontade sendo todos os comportamentos explicáveis apenas por referência biológica e sobrevivência de traços genéticos positivos. Ao acabarem os seus estudos Neil foi trabalhar para uma agência de segurança do governo americano na aplicação do condicionamento neurológico (quer a aliados quer a inimigos) e Thomas acabou por desenvolver uma tese baseada na “Discussão” que o levou ao ensino universitário. Ao fim de mais de uma década de uma relação mais ou menos distante Thomas, que no momento está simplesmente a apreciar uns dias de férias com os seus filhos (Ripley e Frankie), recebe uma visita inesperada por parte do FBI. É-lhe mostrado um dvd em que se pode ver Neil a torturar uma jovem através de alguma espécie de manipulação cerebral. Em choque Thomas tem de decidir se acredita nas autoridades ou no seu melhor amigo. Por um lado Neil parece um psicopata à solta que usa a tecnologia e conhecimento que acumulou na NSA para dar “lições” ao mundo sobre a natureza humana mas por outro lado há duas décadas de amizade e dedicação. Ou haverá mesmo? As descobertas amontoam-se rapidamente e Thomas vai ver a sua vida destruída à medida que a sua tese de dissertação de há tantos anos ganha vida perante os seus olhos.

Uma capa até algo interessante.

Estava bastante curioso em ler este livro porque o autor já tinha escrito uma série de fantasia (The Prince of Nothing) que teve uma resposta muito positiva junto dos fãs do género. Este livro parecia ser a introdução perfeita à escrita de Bakker, um thriller mais leve com toques de ficção científica que me ambientariam ao seu estilo de escrita. É triste admiti-lo mas saí imensamente frustrado deste livro. Adorei a premissa inicial do autor, gostei da forma como introduziu as personagens e o tema (“A Discussão” é explicada de forma mais ou menos realista e clara) mas depois desses primeiros capítulo comecei a ter dissabores. “A discussão” nunca é desenvolvida em toda a sua glória (e é um tema fascinante em si mesmo, que já ocupou filósofos, místicos, teólogos e escritores ao longo de milénios) sendo que ficamos sempre apenas com várias reiterações das suas premissas básicas. As personagens são um problema do princípio ao fim porque ou não são interessantes ou não são credíveis de todo. Pegando só nas duas principais temos um Thomas Bible que é supostamente um académico de excelência mas que acaba por se revelar um homem desinteressante sem grande profundidade intelectual e de uma boçalidade que tornaria mais credível como agente da polícia de Nova York e quanto a Neil pura e simplesmente está ausente da maior parte do livro sendo uma sombra indefinida que paira sobre a história.

Também está curiosa.

O próprio desenvolvimento da narrativa é feito de forma desequilibrada sendo que o inicio e o fim são extremamente rápidos e ricos em eventos e informação e o grosso do livro é maioritariamente aborrecido. Temos amplas oportunidades de saber a vida familiar de Thomas Bible, o quanto adora os seus filhos, o quanto se ressente da ex-mulher, a sua amizade com o vizinho do lado, reminiscências sobre o seu passado com Neil e Nora, enfim há tempo e oportunidades para tudo o que é irrelevante para a história que supostamente estaria a construir. Uma narrativa de ficção científica, localizada num futuro próximo em que a tecnologia permite uma perigosa aproximação a um estado de coisas em que o individuo deixa de ser autónomo, é raptada e transforma-se num banal relatório sobre a vida suburbana nos Estados Unidos. Sou da opinião que o autor teve um pressentimento quanto à falta de interesse do grosso da história e por isso presenteia o leitor, com uma precisão de relógio suíço, com episódios de sexo gratuito em espaços regulares o que ainda insulta mais quem o está a ler pela tentativa transparente de injectar relevância e interesse a um conto que ele não sabe como desenvolver. Se há algo que me levou a acabar este livro é o facto de achar a premissa inicial interessante (e o debate subjacente que poderia ter sido escrito…) e querer saber mais sobre a personagem Neil e algumas das suas vítimas.

Talvez a melhor versão - é pena as capas serem provavelmente mais interessantes que o livro em si.

Em resumo posso dizer que foi possivelmente uma das piores leituras que fiz nos últimos tempos e que me fez colocar em dúvida a leitura da obra de fantasia do autor. Uma ideia original, pessimamente desenvolvida e executada de forma desleixada quando não atabalhoada.

Nota: 4/10

Foi com alguma expectativa que voltei à mente de Philip K. Dick depois de ter tido uma óptima experiência com o “The Simulacra” há relativamente pouco tempo. Neste caso as premissas do livro são ligeiramente diferentes, e talvez até mais simples, já que em essência temos um mundo dividido apenas entre duas facções, a maioria que corresponde aos que vivem em bunkers subterrâneos porque pensam que a superfície está a ser devastada por uma terrível guerra entre as potências ocidentais e a União Soviética e aqueles que vivem à superfície e que sabem a verdade, ou pelo menos parte dela, e que ajudam a perpetuar uma mentira para manter a maioria da população debaixo do solo. As coisas tornam-se interessantes quando se percebe o porquê desta situação e como alguns sobreviventes da tal guerra apocalíptica (que foi um evento real) souberam criar uma nova realidade em que vivem como senhores feudais em propriedades isoladas por milhares de quilómetros de zonas florestais (de facto depois da terceira guerra mundial a maior parte do globo é um parque gigante), rodeados de máquinas que os servem e usufruindo dos bens produzidos nos bunkers por populações que ainda pensam estar a contribuir para o esforço de guerra.

Uma capa não muito interessante mas sem ser das piores.

O conhecimento, ou a sua falta, é um tema que o autor gosta de abordar e este livro não é excepção. Uma maioria vive essencialmente na proverbial caverna de Platão, olhando para as sombras que os yance-men (a elite que vive à superfície) projectam através de mentiras televisionadas a nível global e tomando-as como a realidade em si – não falta sequer a comparação do autor em que o que uns sabem e outros desconhecem se transforma uma espécie de gnose política que facilita a escravização. É fácil perceber aqui a preocupação do autor com o controlo da informação (décadas antes de ser popular questionar o que é televisionado) e com as dimensões do “real”, daquilo que conhecemos verdadeiramente, ou pelo menos pensamos conhecer. Voltamos também a encontrar robots (usados primeiro como armas na guerra e depois como guerreiros para proteger as propriedades de cada yance-man) e mesmo um simulacro político (tal como no outro livro – apesar de este ser mais que um acessório e a sua história ter impacto real na trama) Há outros conceitos que fazem a sua aparência como a possibilidade de manipular ou ser manipulado pelo tempo, o poder de entidades essencialmente privadas sobre o bem comum entre muitas outras. O que mais me surpreendeu no livro foi a sua capacidade de introduzir uma trama política que o leitor pode seguir mais ou menos de perto e que não é apenas um pano de fundo para acção principal.

Uma versão anterior um pouco mais curiosa.

As personagens não são de todo centrais no sentido em que não nos é dado a conhecer muitos detalhes pessoais mas nem por isso deixamos de ter um conjunto interessante, variado e podemos conhecer o impacto que a acção tem neles quando isso serve para ilustrar os pontos que o autor considera importantes. Temos Joseph Adams um yance-man que é dos melhores escritores de discursos fictícios para o simulacro e que parece ainda sentir vestígios de culpa sobre o seu papel na manutenção de tal fraude. Nicholas St. James presidente eleito de um dos milhares de bunkers colectivos que terá que vir à superfície para salvar um dos seus cidadãos que é vital para manter a produção de guerra. Stanton Brose, decrépito e provavelmente meio senil mas ainda assim o homem mais poderoso e odiado à superfície, enquanto a mentira durar ninguém o poderá desafiar. Loius Runcible, milionário que propõe uma alternativa, igualmente desumana, para lidar com os milhões de humanos no subsolo e principal opositor de Brose. E finalmente David Lantano, um recém-promovido yance-man que parece deter um talento nunca visto para a escrita do simulacro mas cuja agenda é a menos clara de todos os participantes. Todos eles têm os seus momentos mais brilhantes e desempenham a função de alternar a perspectiva sobre os mesmos fenómenos para dar várias leituras, nem todas simpáticas mas todas autênticas.

Simplesmente bizarra 🙂

Tal como já havia comentado sobre este autor, os seus livros dão enganadoramente simples e curtos e não correspondem à riqueza conceptual do material que é enorme. Sobre o mesmo tema poderia ter sido escrita uma história várias vezes maior e mais bizantina mas dado que o autor parece quase ter urgência em transmitir algumas informações e dúvidas ao leitor sou levado a pensar que se trata de um mecanismo intencional para não diluir quer o material quer a mensagem. Se houvessem falhas a apontar teria que incidir sobre o fraco desenvolvimento de certos traços que teriam dado força e credibilidade às personagens (mais raiva por parte de Nicholas ao saber que está a viver uma mentira há 15 anos ou mais “vilania” por parte de Brose que é empurrado para o papel de vilão louco) e o final um pouco inconclusivo apesar de algo esperançoso. Depois desta leitura o último comentário que deixo é que estou rapidamente a tornar-me um fã de Philip k. Dick.

 

Nota: 8.5/10