Archive for the ‘Ficção Histórica’ Category

Ramon Llull é um homem pouco comum para o século XIV. Teve uma vida secular interessante, alguns diriam mesmo apaixonante, mas alguns erros que cometeu acabaram por o empurrar para a religião ao ponto de tomar a decisão de ingressar numa ordem religiosa. O trabalho para o qual acredita ter sido chamado é de natureza científica e filosófica, a tentativa de provar que deus e o cristianismo podem ser atingidos por uma via puramente racional e lógica sem ter que assumir como premissa nenhum dos dogmas da fé. Nessa tentativa desenvolveu o seu sistema de proposições lógicas para categorizar o pensamento humano e chegou mesmo a viajar ao mundo árabe para tentar a conversão pela razão em vez da espada – sem grande apoio do papado que claramente tinha investido numa guerra muito mais física que ideológica. Na tentativa de atingir a terra santa Ramon dá por si encalhado na ilha de Malta sem saber como continuar a sua viagem. Mas nessa altura recebe uma estranha oferta de um emissário de um condottiero ao serviço do Império Bizantino, Roger de Flor. Vai a Constantinopla falar pessoalmente com Roger que tem uma ambiciosa oferta para lhe fazer, descobrir o mítico reino de Prestes João, a cidade de deus, o coração da cristandade escondido em parte incerta. Seguindo algumas pistas, deixadas para trás por membros do lendário reino, nas catacumbas de Bizâncio acabam por iniciar uma viagem que os levará aos limites do mundo conhecido e mesmo além disso.

Uma capa apelativa e apropriada à história.

Estamos perante um livro de aventuras e exploração e sinceramente esperava apenas um livro mais ou menos light com uma trama aceitável mas fui agradavelmente surpreendido por Juan Miguel Aguilera já que ao longo do livro temos momentos realmente muito bons e acima da aventura típica da ficção científica. Há algumas surpresas mais ou menos previsíveis (a começar pela natureza da cidade que procuram, Ápeiron, que de religiosa tem pouco ou nada) que por vezes tornam a narrativa um pouco menos excitante mas nunca perdemos a vontade de continuar a ler e, mais tarde ou mais cedo, somos sempre recompensados por uma ideia ou um diálogo verdadeiramente bom. Em termos temáticos falamos aqui de um conflito entre a mentalidade moderna (representada pelos cidadãos de Ápeiron, um verdadeiro oásis de sanidade num deserto de violência cega) e uma mentalidade medieval própria do período descrito (e aqui não há tentativas de dourar a pílula, mesmo Ramon é descrito como acima de tudo um monge da sua época apesar de a partir de certa altura começarmos a ver uma transformação interior com resultados curiosos) sendo tudo isto encaixado dentro não só de aventuras várias (com alguns combates individuais e de batalhas pouco usuais) e uma história de ficção científica paralela que nas melhores alturas chega a misturar elementos à la Lovecraft com fantasia mágica.

A versão original, menos criativa mas também apropriada.

As personagens são possivelmente o que impede o livro de ser verdadeiramente épico. Os conceitos interessantes estão lá mas a verdade é que as personagens centrais nem sempre estão à altura. Ramon, de longe o mais interessante, não tem a profundidade que seria de esperar de um homem considerado como um verdadeiro génio da sua época (nota importante, o autor usa e abusa dos desmaios de ramon, um homem de certa idade, para terminar capítulos. A tal ponto que dá vontade de o comparar com romancistas do século XIX que punham uma heroína a desmaiar a cada dois capítulos). Roger de Flor, companheiro incansável do nosso monge franciscano, é pura e simplesmente uma máquina de matar com alguns vislumbres de personalidade e interesse que não são explorados convenientemente (por exemplo, a sua posição religiosa pouco usual para a época). A conselheira Neléis é um arquétipo andante e falante da modernidade que serve mais como forma de criar contraste entre os dois mundos que como um ser humano autónomo (apesar de mais uma vez existir potencial neste caso na relação amorosa dela). Os outros soldados da expedição de Roger e os poucos cidadãos de Ápeiron mencionados por nome são quase irrelevantes e só intervêm em momentos em que os detalhes pessoais são de pouca ou nenhuma importância tornando isto um elenco algo limitado. A compensar um pouco estes elementos temos um vilão verdadeiramente interessante e misterioso sendo que vamos conhecendo os seus planos, e mesmo a sua natureza, apenas à medida que o livro avança sendo que existe um nível crescente de confronto com os seus esbirros que achei muito satisfatório.

No fim tudo fica claro. A história está contada. Os dados lançados. E ficamos com pena de acabar a leitura desta história que, apesar de ter alguns altos e baixos, nos fascinou. É algo diferente do standard da ficção científica e fica a ganhar com isso! Uma leitura mais que recomendável. Fico com muita vontade de ver mais material de Juan Aguilera traduzido.

Nota: 8.5/10

Ps: sem querer ser perfeccionista há algo a mencionar em que o autor está enganado nos factos históricos que usa para construir a narrativa. Ele assume que na Idade Média era pensado que a terra seria plana coisa que está longe de ser verdade. Durante toda a Idade Média os sábios tinham consciência plena de que o mundo era provavelmente esférico. Um mito muito difundido (originalmente nas guerras intestinas do cristianismo moderno) mas apenas isso, um mito.

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Num futuro não muito distante (algo mais distante na altura em que Philip K. Dick escreveu o livro) os Estados Unidos e várioas nações Europeias fundiram os seus sistemas políticos passando efectivamente a existir dois grandes estados mundiais, a União Americana-Europeia (USEA) e a União Soviética (lembrem-se que o livro foi escrito nos anos 60…). Não conseguimos perceber muito bem qual a diferença ou relação entre os dois colossos e os habitantes deste tempo futuro também não as parecem conhecer. De facto não parecem conhecer grande parte do mundo em que habitam, vivendo divididos entre os seus trabalhos, constantes testes ideológicos que visam avaliar os seus conhecimentos da “realidade” (falhar significa passar para uma casta social inferior) e uma obsessão semi-religiosa com a primeira dama dos USEA aparece como a única constante das suas vidas – os presidentes mudam conforme as eleições mas a primeira dama é eterna. Quem é esta primeira-dama? Como consegue ocupar uma função essencialmente monárquica num regime republicano? Quem são os presidentes eleitos que parecem surgir do nada a cada ano eleitoral? Quem controla o poder na realidade?
A belíssima capa da minha edição

E no fundo é este o cerne do livro, o poder e a realidade. As diferentes camadas sociais e a percepção que têm de quem os governa e de quais as suas intenções. Como em todas as distopias (presentes e futuras, reais e imaginárias) há muitos níveis de “realidade” e não é claro quem detém a versão mais correcta. Dick usa um espectro bastante alargado de personagens tentando desta forma dar várias perspectivas sobre os eventos que se vão desenrolando. Temos Richard Kongrosian, um músico com poderes psíquicos, que vive quase incapacitado num mundo de neurose e paranóias constantes; Nicole a misteriosa primeira-dama que funciona como uma espécie de Deusa-Mãe para a população dos USEA; Egon Superb último psicanalista legal que não sabe bem porque foi poupado ao édito presidencial que proibia a psicanálise (considerada como uma pesudo ciência pelos poderosos carteis farmacêuticos); Al Miller um vendedor de pequenas naves que permitem a emigração ilegal para Marte, o último refúgio de pessoas genuinamente livres; e Bertold Goltz revolucionário de agenda obscura que é pintado alternadamente como líder neo-nazi ou como um visionário defensor dos oprimidos.

Uma versão mais antiga

 É um livro complexo para o tamanho que tem (apenas 220 páginas) e não é definitivamente “leve” em termos de conteúdos. Não só porque as semelhanças com o nosso próprio mundo são assustadoras (a forma como PKD prevê o nosso perverso fascínio com a reality tv e alienação daí resultante é algo perturba qualquer um que não seja indiferente aos conceitos de liberdade pessoal e verdade) mas também porque a ambiance (um planeta populado por pessoas profundamente desajustadas a todos os níveis mas que não se apercebem do quão doentes estão) está descrita de forma perfeita e cria uma tensão permanente no leitor que é tentado a simpatizar com as personagens mas ao mesmo tempo desespera com a sua falta de percepção própria e das situações. Um toque particularmente interessante é a introdução do conceito de viagens no tempo (não posso enfatizar o suficiente a riqueza conceptual deste livro) que introduz um elemento de incerta no desenvolvimento da narrativa que nos prende ainda mais à leitura que qualquer nível de empatia para com a personagem A, B ou C.

E uma ainda mais antiga

Mesmo para quem não tenha lido mais nada do autor é fácil perceber porque é que ele é considerado com um dos mestres do género. A riqueza de ideias é tanta que transborda a cada capítulo e o autor não perde tempo desnecessariamente em detalhes que não desenvolvem o conceito central do livro (se houvesse algo a apontar como falha seria precisamente que o leitor quer mais! Facilmente poderia ter escrito um livro com o dobro da dimensão que ninguém diria que o conteúdo fora diluído) – há momentos de introspecção profunda no livro mas não tomam controlo da narrativa o que é um feito notável, conseguir um equilíbrio entre profundidade psicológica e um bom ritmo. No fim da leitura as nossas certezas são arrasadas, o improvável torna-se letal e a nossa própria existência continuada é posta é dúvida. Um dos livros mais interessantes que já li.

Nota: 9.5/10

O que é “A Voz do Fogo”? Esta é a pergunta que surge a qualquer leitor que dê uma vista de olhos pelo livro. Não é claro pela apresentação o que temos nas nossas mãos. Um conjunto de histórias horripilantes e fantásticas? Um romance dividido em doze partes com intervalos temporais e mudança de personagens? Um exercício esotérico por parte de Moore? Uma crítica social? Na minha opinião as quatro leituras estão correctas mas não de forma igual. É preciso compreender que Moore é acima de tudo um esoterista moderno e um artista. Percebendo isso vemos que os elementos crítica social e satisfação dos gostos mais fantásticos devem ser interpretados sobre essa luz e a situação fica ainda mais clara quando acabamos o último capitulo (que serve quase como um confessionário do autor ao leitor) e recebemos a interpretação do autor:

“ [A Voz do Fogo] É sobre a mensagem vital que os lábios ressequidos de homens decapitados ainda murmuram; é o testamento de espectrais cães pretos escritos em mijadelas nos nossos pesadelos. É sobre ressuscitar os mortos para que nos contem os seus segredos. É uma ponte, um local de passagem, um ponto gasto no tecido entre o nosso mundo e o mundo inferior, entre a argamassa e a mitologia, facto e ficção, uma fina ligadura deteriorada. É sobre a poderosa glossolalia das feitiçarias e a sua revisão mágica dos textos que vivemos. Nada disto pode ser explicado por palavras.”

Uma capa interessante

Ao longo desta tentativa de reanimar o passado e o mito Moore premeia o leitor com verdadeiras pérolas que lemos num ápice e que geralmente nos deixam presos quando passamos ao próximo capitulo e a outras personagens (esse é um dos meus pontos de implicação com o formato “short story”, quando o material é bom deixa o leitor a salivar por mais o que pode ser frustrante). A qualidade não é constante sendo que alguns dos capítulos pareceram-me muito mais interessantes que outros (os meus capítulos preferidos são “Coxeando até Jerusalém” e as “Tricotadeiras Fessureiras”) mas como um todo a obra é impressionante por entrelaçar elementos ao longo de 6000 anos e por nos dar uma sensação da importância e substância do mito – aqui tenho que fazer uma nota pessoal, qualquer livro que nos consegue fazer sentir um mito em vez de simplesmente o compreender intelectualmente de forma fria e analítica merece os meus parabéns.

A capa da edição anterior, que na minha opinião é bem mais fraca que a actual.

Northampton transforma-se no áxis mundi da narrativa e de um inferno urbano começa a metamorfosear-se numa encruzilhada espácio-temporal vital para o mundo. É uma refundação da cidade no plano das ideias, o que só pode merecer a minha admiração já que respira um novo fôlego moral a uma comunidade que desesperadamente precisa dele. Alan Moore actua como muito mais que um “filho pródigo” que escreve sobre o seu local de nascença; ele é um verdadeiro xamã moderno para a sua cidade ao inspirar significados e providenciar saídas para a situação presente.

A capa da versão original.

Como últimas notas é de referir a continuidade que Moore dá às ideias que desenvolveu no campo da BD (quem o conhece encontrará uma e outra vez elementos familiares que são reinventados para encaixar neste novo meio de comunicação) e o excelente trabalho de David Soares (que é possivelmente o meu autor de língua portuguesa favorito) como tradutor e compilador de notas literárias que servem de guia e referência para os que não estão familiarizados com a visão “Mooriana” do Universo.

Nota: 9/10

A Europa medieval é um local escuro. Especialmente quando todos os mitos medievais são verdadeiros. As bruxas existem mesmo, demónios andam à solta pelas cidades a espalhar a peste e toda espécie de criaturas desagradáveis povoam a noite. Pior e mais perigoso que tudo isto só os irmãos Grossbart, Hegel e Manfried, os protagonistas deste óptimo livro, “The Sad Tale of the Brothers Grossbart” de Jesse Bullington. São a cópia chapada um do outro tendo sido criados por uma mãe louca, um pai desaparecido e um tio criminoso os dois cedo enveredam pelo negócio da família, o roubo de túmulos. Todos os prazeres deste mundo são pouco ou nada quando comparado com a violação de um túmulo fresco, especialmente se estiver bem recheado de pertences valiosos.

 

É com este objectivo que os nossos dois irmãos embarcam numa viagem que vai desde a Alemanha até ao Egipto. Seguem o rumor da família, segundo o qual o seu avô uma vez chegado ao Egipto enriqueceu de tal forma com o roubo de túmulos que vive como um rei – o nome desse antepassado próximo parece ser desconhecido tal é a proximidade e amor desta família. O que estas duas almas perdidas não esperam é que os assuntos que deixaram pendentes ao partir nesta viagem os perseguissem… Um pai enraivecido, bruxas vingativas, demónios pestilentos e hereges semi-loucos assombram o percurso destes dois vis personagem que entre si amontoam pior reputação que todos os seus inimigos juntos.

 

A premissa do livro é original. Pegar em elementos do folclore europeu tradicional e aplicar dar-lhe uns toques de fantasia. Mais interessante ainda é o facto de o autor não criar um herói mas sim 2 seres que só podem ser descritos como alternadamente vis e loucos. Ainda reconhecemos algumas emoções humanas nos irmãos Grossbart mas não muitas já que tendem a ver o mundo apenas em função das suas necessidades – num jogo literário que goza com os nossos mecanismos reais de racionalização de decisões que tomámos antes de termos qualquer motivo racional, pelo simples motivo que nos era conveniente. Parte da violência da obra deriva também do mundo que é descrito. A vida medieval era verdadeiramente dura, violenta e curta e isso é descrito perfeitamente pelo autor através não só dos irmãos como de todas as personagens secundárias.  Mas esse elemento acaba por ser contrabalançado pelo humor negro que o autor não abandona mesmo nos momentos mais dramáticos da história e que acaba por nos fazer rir em voz alta de tempos a tempos (como leio em público recebi alguns olhares…).

Se há falhas a apontar só me ocorre a forma como o livro acaba. Sem querer entrar em detalhes que possam estragar a leitura de outros posso dizer que o achei anti-climático. Todas as pontas soltas são realmente resolvidas mas parece algo apressado e inconclusivo. Esta estreia de Jesse Bullington foi uma surpresa agradável e sinceramente um dos melhores livros que apanhei nos últimos tempos. Altamente recomendável.

Nota: 9/10

Como tive uns dias em que precisava mesmo de calma absoluta aproveitei e peguei num livro que normalmente não me chamaria a atenção o “Em Território Pirata” de Michael Crichton (editado pela Livros d’Hoje). Uma aventura de piratas no século XVII parece um tema já um pouco gasto mas não sei porquê ao olhar para o livro tive um momento nostálgico e lembrei-me do quanto me diverti a ler as Aventuras do Corsário Negro de Emilio Salgari quando tinha 12 ou 13 anos. Entre a necessidade de algo ligeiro para ler e as boas memórias associadas ao tema acabei por ceder À tentação e trazer o livro para casa.

A arte da capa não é má de todo

O livro não desiludiu. Um pedaço de tarde ao longo de dois ou três dias bastaram para terminar a leitura e fiquei com uma boa sensação apesar de algumas falhas. A acção é quase imediata sendo que somos introduzidos ao capitão Hunter sem grandes prelúdios e às suas intenções de assaltar um galeão espanhol. Tudo isto generosamente misturado com uma leve introdução ao clima político e social da colónia Inglesa de Port Royal (como não podia deixar de ser num livro de piratas é descrita como um antro de corsários, militares aborrecidos, burocratas corruptos e prostitutas extremamente activas) que serve de base ao nosso “empreendedor marítimo”.  

A partir do momento que as personagens principais estão reunidas a acção é non stop até ao fim. A cada episódio de violência e audácia segue-se outro que o ultrapassa quase sem dar tempo ao leitor de respirar. E como era precisamente isso que queria fiquei muito satisfeito mas não posso deixar de apontar algumas falhas que podem desapontar outros leitores com expectativas diferentes. Em primeiro lugar as personagens são quase caricaturas. Nada de complexidades indevidas. Hunter é um corsário inglês com os preconceitos de esperar, os seus adversários espanhóis também são uma sombra estereotipada sem qualquer vestígio de complexidade – o objectivo poderia ser o de criar uma área moralmente cinzenta em que ninguém pode ser descrito como o “bom da fita” mas pelos preconceitos anglo-saxónicos postos na boca de alguns personagens estamos simplesmente perante alguma preguiça em fugir aos padrões mais comuns deste género.

O segundo problema do livro pode ser descrito como a presença de personagens redundantes. São introduzidas na história mas o seu papel é quase que artificialmente implantado na estrutura do livro – por exemplo, a partir de certa altura aparece a sobrinha do governador de Port Royal como prisioneira dos espanhóis mas é transparente que é colocada ali apenas porque faltava um elemento feminino ao livro.

Apesar destas falhas o livro é muito agradável e não mente ao leitor ao prometer grandes tramas no enredo. É uma aventura de Verão de espada na mão e pé no canhão que promete algumas horas de diversão pura apesar da mão algo pesada do autor ao forçar um ritmo demasiado elevado à história e assim omitir detalhes e desenvolvimentos potencialmente interessantes. Recomendo a quem precisar do mesmo que eu precisei, diversão livre de complexidades.

Nota final: 7/10