Archive for the ‘Forgotten Realms’ Category

Antes de começar o texto em si tenho que pedir desculpa aos leitores mais regulares dos Manuscritos Malditos pela minha ausência. Foram umas semanas complicadas que me obrigaram a dedicar bastante tempo a leituras fora do reino da ficção. Mas cá estou de volta com o comentário a mais um livro.

Plague of Spells é um livro introdutório ao universo de fantasia dos Forgotten Realms (o mesmo de Drizzt) mas mais especificamente é uma introdução a esse universo pós-“spellplague”. A morte da deusa da magia Mystra às mãos do seu rival, o deus louco Cyric, causou ondas por todo este mundo alterando tudo um pouco, incluindo as regras que regiam os poderes especiais de feiticeiros, sacerdotes e todos os que lidam com o arcano. Não é preciso muita descrição para os mais experientes perceberem que estamos perante mais uma mudança de edição do Dugeons & Dragons (esta é a quarta), sistema de jogo de roleplay que serve de base aos livros – quem tiver boa memória poderá lembrar-se que há uns anos atrás, quando saiu a segunda edição, o universo Forgotten Realms também sofreu outro evento cataclísmico, o “Time of Troubles”. Os novos livros (em que o Plague of Spells é o primeiro) servem dois objectivos; o primeiro é introduzir os jogadores a um mundo onde as coisas já não funcionam bem da mesma forma, e o segundo é relançar as histórias como ficção semiautónoma para os muitos leitores que não são roleplayers. Poderemos dizer alcançaram esses objectivos? Parcialmente penso que sim e é aqui que entramos no livro em si.

Até gostei da capa, tons algo estranhos mas dada a natureza dos adversários parece-me apropriado.

Raidon Kane é um monge que é apanhado no fogo azul que se seguiu à morte de Mystra quando acorda de novo faltam-lhe 11 anos de memórias. O mundo para o qual emerge (marcado pelo fogo azul e com poderes que ainda não compreende) não é o mesmo do qual partiu. Cidades inteiras desapareceram ou mudaram radicalmente de natureza, mares secaram, deuses morreram, muitos magos perderam o seu poder ao não se conseguirem adaptar às novas regras da magia e acima de tudo… a sua filha está morta. Sem objectivos e com uma imensa mágoa Raidon deriva até ser contactado por um estranho ser que lhe comunica a existência de um perigo nascente para toda a realidade… os aboleths (seres primordiais de outra dimensão com enormes poderes) estão a acordar e se isso acontecer destruírão este mundo para o recriar segundo as suas preferências dementes. Para os combater embarca numa busca de por uma arma poderosa que pode verdadeiramente destruir os seus adversários, a espada Angul. Noutro canto de Toril Japheth, um Warlock com um grave problema de adição a substâncias fatais, recebe uma missão do seu odiado empregador, deve largar âncora e recuperar para ele um poderoso artefacto (pertencente aos aboleth) que pode catapultar qualquer um para o trono de Impiltur. O que ele não contava é que a irmã do mercador que o emprega, Anusha (também ela marcada pelo fogo azul e com o seu poder especial), o seguisse secretamente. Uma reunião destes dois polos da história é inevitável à medida que as personagens são atraídas para a mesma fonte de demência e poder que é o estranho artefacto de nome Dreamheart.

Ahhh... que vontade de voltar a jogar!

É impossível dizer que o livro é perfeito ou que a história é inovadora. Há demasiadas restrições à escrita de Bruce R. Cordell (demasiadas referências obrigatórias para atingir os objectivos que mencionei antes) para que ele possa criar algo único. Mas mesmo assim é de reconhecer o mérito da tentativa. É certo que há uma certa falta de profundidade das personagens principais (em especial Raidon já que o perder a sua filha é insuficiente para o definir a si e às suas acções)  e que os vilões poderiam ter sido muito melhor pensados (é perdido tempo a desenvolver um que assumimos ser o principal só para alguns capítulos mais tarde ver esse trabalho todo ir pelo cano sem qualquer necessidade) mas mesmo assim é uma boa introdução ao novo Faerun e uma quest que ainda nos interessa apesar dos elementos demasiado convencionais (tornam-se mais patentes para o fim à medida que o “romance” floresce entre duas personagens). Por fim tenho que dizer que a transição para esta edição parece estar menos bem feita que a que foi realizada para o Time of Troubles, parece mais artificial e menos significativa mas sem ler mais livros deste universo posso estar a precipitar-me nesta conclusão. O melhor é concluir os outros dois livros da Abolethic Sovereignty, “City of Torments” e “Key of Stars”.

Nota: 6.5/10

Aviso: este livro fez-me lembrar o quanto gostava dos meus jogos de roleplay e por isso gostava de deixar um pedido aos leitores que por aqui passarem. Se alguém tiver um grupo de jogo de D&D na área de Lisboa que precise de mais um jogado por favor diga-me algo para o mail ( manuscritosmalditos@hotmail.com ) porque eu adorava experimentar a quarta edição.

Debaixo dos Reinos Esquecidos há vida. Numa imensidão de túneis envolvidos numa escuridão cavernal perpétua habitam muitas raças diferentes. Umas boas, outras más e algumas simplesmente indiferentes a conceitos morais. Mas de todas estas os Drow, elfos negros, são a mais temida. A sua sociedade existe por obra de uma Deusa cruel e louca, Lolth a Rainha Aranha, que só reconhece a força e o caos como princípios e instiga os seus servos aos mais cruéis actos de agressão e traição como forma de provar o seu valor e devoção. As cidades Drow são antros de conspiração e violência em que dezenas de casas nobres aspiram sempre a um lugar mais elevado na hierarquia da cidade, tudo com a bênção de Lolth, afinal de contas se as casas mais fortes não conseguem defender a sua preeminência então não a merecem e devem ser destruídas até não sobrar uma única criança dessa linhagem. Menzoberranzan é uma destas cidades. Um sitio governado pelas sacerdotisas da Rainha Aranha em que os machos Drow servem apenas para a guerra e procriação. Neste sitio esquecido pela luz, amaldiçoado pelos elfos da superfície e inundado de sangue pelas traições dos elfos negros nasce uma criança diferente. Drizzt Do’Urden, filho da Matrona Malice da casa Do’Urden e de Zaknafein mestre de armas da mesma casa. Um príncipe da nona casa de Menzoberranzan que deverá seguir a longa tradição da sua espécie, uma vida dedicada à ascensão social e tentativas de apaziguar o ódio infernal da deusa aranha. Mas Drizzt parece ser diferente. A sua sede de batalha não o cega à maldade do seu povo. A sua honra não se satisfaz com a vida traiçoeira da cidade e a sua devoção certamente não vai para a deusa que a seus olhos condenou todos os elfos negros ao ódio de praticamente todas as outras espécies inteligentes. Mas poderá tal diferença sobreviver num lugar que é a encarnação do mal? Poderá existir uma excepção a um povo moralmente cego?

Adorei esta capa!

Foi com grande antecipação e prazer que li este livro. Ou melhor, que reli. Já conhecia o trabalho de R. A. Salvatore há muito tempo (sendo ele e Raymond E. Feist os responsáveis por me ter interessado pelo fantástico há tantos anos atrás) e quando soube que ia ser traduzido tive a certeza que queria regressar ao mundo de Drizzt. Há algo de confortável nesta personagem que nos faz voltar tantas vezes às suas façanhas e dilemas, é quase como um regresso a casa. O livro em si está divido em cinco partes que nos contam a história deste elfo negro tão especial desde o seu nascimento até à sua maioridade sendo que cada parte tem até um pequeno texto introdutório escrito na perspectiva de Drizzt sobre o que sentiu nessa fase da sua vida (é um toque bastante inteligente por parte de Salvatore porque injecta bastante sentimento no personagem e prepara o leitor para o que aí vem). A evolução segue a um ritmo algo acelerado sendo que temos apenas relances momentâneos sobre as várias décadas da vida inicial de Drizzt (com uma esperança de vida de sete séculos não será de estranhar que a noção de tempo seja algo diferente nesta narrativa), desde o momento que nasce e escapa por uma unha negra a ser sacrificado à Rainha Aranha, passando pela sua educação dentro da sua casa nobre a cargo de vários membros da sua família (a irmã Vierna, uma sacerdotisa como não podia deixar de ser ao se tratar de uma fêmea nobre Drow, e Zaknafein, seu pai e instrutor marcial), atravessando a sua formação na academia militar da cidade e as suas façanhas enquanto jovem indeciso à procura de si mesmo num mar de mentiras e traições.

A velhinha primeira edição em inglês.

Boa parte do livro desenrola-se no rescaldo de um ataque da casa Do’Urden à cada DeVir que deixou um sobrevivente nobre que sabiamente optou por permanecer no anonimato ao longo de décadas até ser descoberto pela matrona da quinta casa da cidade que o recruta à força para impedir a ascensão dos ambiciosos Do’Urden. Parecendo uma história de aventura com bastante combate e magia à mistura (e Salvatore tem um talento incrível para tornar os combates reais para o leitor) o autor escolhe abordar uma série de temas que não são nada simples. O papel da raça ou nacionalidade na definição das nossas lealdades, o respeito à tradição, a discussão eterna entre a escola filosófica que defende que o meio dita o que somos e a que defende que existe algo autêntico que é só nosso e que o meio é incapaz de mudar, a própria autenticidade da emoção e mesmo o valor moral da acção que apesar de boa é condenada socialmente. Não que isto seja abordado de forma académica e por estes nomes mas estas temáticas estão subjacentes a tudo o que Drizzt faz e pensa, o seu caminho ao longo desta estrada perigosa, e possivelmente letal, é a resposta do autor a todas estas questões. Se o leitor escolher fazer essa leitura poderá até sentir-se interpelado a comparar, na sua devida proporção, as escolhas deste solitário elfo negro com as suas próprias. Somos morais ou somos apenas aquilo que esperam de nós?

 

Nota: 9/10

 

 Ps: Entretanto a Saída de Emergência já publicou o segundo volume desta trilogia, “Exílio”. Só posso esperar que continuem a publicar a saga deste personagem tão carismático até termos a obra na totalidade em português – de momento penso que já está prevista a edição não só do volume final desta trilogia como o lançamento da seguinte composta pelos livros seguintes, “The Crystal Shard”, “Streams of Silver” e “The Halfling’s Gem”.

Uma das minhas personagens preferidas está traduzida para português! Drizzt Do’Urden está em Portugal! 🙂 Durante anos segui esta personagem de R. A. Salvatore em diversas séries e esses livros foram sempre uma espécie de prazer simples e secreto, boa fantasia com bastante acção e com personagens interessantes – nada melhor num Domingo de Inverno chuvoso que ler um destes livros no conforto da nossa casa.

A Saída de Emergência até fez uma promoção inicial com este livro já que temos 2 pelo preço de 1 sendo que a segunda cópia é para oferecer a algum amigo que possa apreciar – eu já ofereci a minha segunda cópia! Só posso dizer que foi uma surpresa agradável e que espero que sejam publicados todos os outros. Mal posso esperar por revisitar o mundo dos Forgotten Realms, a realidade subterrânea (“Underdark”) de Drizzt em que os perversos elfos negros governados pelo Matriarcado das sacerdotisas de Lolth que presidem às casas nobres da cidade de Menzoberranzan. Um mundo de traição, intriga e sangue que drizzt fai fazer tudo para escapar.

“Nas profundezas da terra e rodeada de trevas eternas, esconde-se a imensa cidade proibida de Menzoberranzan. Habitada pelos drows, os temidos elfos negros, Menzoberranzan é governada por um complexo sistema de Casas em constante batalha. No meio de uma dessas batalhas nasce uma criança com olhos cor púrpura. A criança, Drizzt Do’Urden, destinada a tornar-se príncipe de uma das Casas, cresce num mundo vil onde a sua própria família não hesita em conspirar, trair e assassinar. Surpreendentemente, Drizzt desenvolve um sentido de honra e justiça completamente estranho à sua cidade. Mas haverá lugar para ele num mundo onde a crueldade é a maior virtude? Venha descobrir Drizzt, o elfo negro, uma das personagens mais lendárias da fantasia. E acompanhe-o na épica e intrépida jornada para longe de um mundo onde não tem lugar… em busca de outro, na superfície, onde talvez nunca o aceitem.”