Archive for the ‘Graham McNeill’ Category

A saga da Heresia de Horus continua e depois de “The Flight of the Eisenstein” somos presenteados com “Fulgrim”, o quinto volume de uma das maiores epopeias da ficção científica a “Horus Heresy”. O livro é um pouco mais longo que os quatro volumes que o precederam sendo que excede as quinhentas páginas. Como o título indica a narrativa está centrada no Primarch da III Legião do Império, os “Emperor’s Children”, Fulgrim. Trata-se de um líder empenhado senão mesmo consumido até à sua alma na busca da perfeição. Busca essa que transmite a toda a legião que comanda; não basta serem bons guerreiros ou serem leais ao Imperador. É preciso serem os melhores, os mais cultos, os mais belos, os mais leais, os mais eficientes. Nos seus melhores momentos a III Legião é um ícone de esperança para toda a humanidade, mostrando o caminho de serviço ao Império que inspira grandes feitos e sacríficos mas nos seus piores dias são um exemplo de arrogância desmedida e frieza sem par que levam ao afastamento progressivo entre os astartes e o resto da humanidade. O problema é que existem cada vez mais dias maus. Desde que Fulgrim liderou pessoalmente um assalto ao templo de uma espécie não humana num planeta aquático há algo que mudou no carácter do Primarch e daqueles que comanda. O que antes era a busca da perfeição transforma-se em pretensões de status ocas; o que era um apurado sentido estético começa a deteriorar-se em mostras de arte grotescas, heréticas e mesmo demoníacas; onde antes havia amizade para com as outras legiões agora há ressentimento e inveja. Mais preocupante de tudo é o facto de quase ninguém na expedição reparar nesta súbita mudança ao fim de quase duzentos antes de estabilidade.

Uma capa dentro do estilo a que já estamos habituados.

Ao contrário dos outros livros desta série (pelo menos até aqui) este centra-se sobre a perspectiva pessoal de um dos semideuses (Primarchs) que comanda uma legião do Império da Humanidade (as anteriores dividam-se entre Primarchs, soldados comuns, artistas e capitães de companhias de astartes) e é talvez por isso mesmo algo mais humana e detalhada. Cobre essencialmente os eventos que já haviam sido falados nos outros quatro volumes, até à traição de Isstvan III, (de uma perspectiva completamente nova é certo) e avança mesmo um pouco na história deixando-nos mesmo no limite de um grande evento. Mais que nos outros livros os efeitos nocivos das forças do Caos são detalhados o suficiente para que o leitor possa sentir verdadeira repulsa pelo que está a acontecer (até eu, que costumo ter um “soft spot” para com os vilões, comecei a desejar uma vitória das forças da ordem) – já não falamos de algo impessoal e que quase não é sentido ou visto pelas personagens principais. É um mal que oprime a cada página que lemos, uma corrupção que vai crescendo apesar das várias tentativas de resistência, uma força que parece viva e torna o belo em horripilante sem poupar nada. Uma verdadeira descida ao abismo da loucura mais pura.

Fulgrim Vs Ferrus Manus. Irmão contra irmão. Caos contra Ordem.

Existem algumas personagens secundárias, de importância variável, que vão tornando possível uma acumulação de eventos dramáticos que culminam num gloriosos e maléfico final. Uma das mais importantes é Ferrus Manus, Primarch da X legião (“Iron Hands”), um dos irmãos mais próximos de Fulgrim que por ser, em temperamento, o oposto dele acaba por lhe servir de consciência e de travão. Os quatro capitães principais dos “Emperor’s Children” acabam por cair no modelo dos outros livros sobre a Legião comandada por Horus, dois parecem ser susceptíveis de conversão aos poderes ruinosos do Caos na sua procura da perfeição e dois parecem incorruptíveis (sem querer estragar a leitura a ninguém mas até a história segue uma linha similar no que toca aos seus destinos). O que realmente sobressai no livro não é a interacção entre as personagens mas o estudo algo detalhado de como uma das unidades de elite do Império é completamente destruída pelas suas próprias ambições e paixões à medida que Slaanesh (um dos deuses do Caos) renasce na nossa galáxia. Príncipe dos prazeres e Senhor da auto-indulgência e do excesso, vai tomando conta do espírito destes indomináveis guerreiros. O destino final nunca está em causa porque questionar decisões prévias seria uma brecha inadmissível numa muralha de orgulho de seres que se assumem perfeitos. De certa forma quase que podemos dizer que os poderes do Caos são, como um todo, a personagem principal deste livro. Seja como for, é uma adição de peso ao cânone Warhammer 40k que nos leva de volta ao nível muito elevado de “Galaxy in Flames”.

Nota: 9/10