Archive for the ‘Horus Heresy’ Category

A saga da Heresia de Horus continua e depois de “The Flight of the Eisenstein” somos presenteados com “Fulgrim”, o quinto volume de uma das maiores epopeias da ficção científica a “Horus Heresy”. O livro é um pouco mais longo que os quatro volumes que o precederam sendo que excede as quinhentas páginas. Como o título indica a narrativa está centrada no Primarch da III Legião do Império, os “Emperor’s Children”, Fulgrim. Trata-se de um líder empenhado senão mesmo consumido até à sua alma na busca da perfeição. Busca essa que transmite a toda a legião que comanda; não basta serem bons guerreiros ou serem leais ao Imperador. É preciso serem os melhores, os mais cultos, os mais belos, os mais leais, os mais eficientes. Nos seus melhores momentos a III Legião é um ícone de esperança para toda a humanidade, mostrando o caminho de serviço ao Império que inspira grandes feitos e sacríficos mas nos seus piores dias são um exemplo de arrogância desmedida e frieza sem par que levam ao afastamento progressivo entre os astartes e o resto da humanidade. O problema é que existem cada vez mais dias maus. Desde que Fulgrim liderou pessoalmente um assalto ao templo de uma espécie não humana num planeta aquático há algo que mudou no carácter do Primarch e daqueles que comanda. O que antes era a busca da perfeição transforma-se em pretensões de status ocas; o que era um apurado sentido estético começa a deteriorar-se em mostras de arte grotescas, heréticas e mesmo demoníacas; onde antes havia amizade para com as outras legiões agora há ressentimento e inveja. Mais preocupante de tudo é o facto de quase ninguém na expedição reparar nesta súbita mudança ao fim de quase duzentos antes de estabilidade.

Uma capa dentro do estilo a que já estamos habituados.

Ao contrário dos outros livros desta série (pelo menos até aqui) este centra-se sobre a perspectiva pessoal de um dos semideuses (Primarchs) que comanda uma legião do Império da Humanidade (as anteriores dividam-se entre Primarchs, soldados comuns, artistas e capitães de companhias de astartes) e é talvez por isso mesmo algo mais humana e detalhada. Cobre essencialmente os eventos que já haviam sido falados nos outros quatro volumes, até à traição de Isstvan III, (de uma perspectiva completamente nova é certo) e avança mesmo um pouco na história deixando-nos mesmo no limite de um grande evento. Mais que nos outros livros os efeitos nocivos das forças do Caos são detalhados o suficiente para que o leitor possa sentir verdadeira repulsa pelo que está a acontecer (até eu, que costumo ter um “soft spot” para com os vilões, comecei a desejar uma vitória das forças da ordem) – já não falamos de algo impessoal e que quase não é sentido ou visto pelas personagens principais. É um mal que oprime a cada página que lemos, uma corrupção que vai crescendo apesar das várias tentativas de resistência, uma força que parece viva e torna o belo em horripilante sem poupar nada. Uma verdadeira descida ao abismo da loucura mais pura.

Fulgrim Vs Ferrus Manus. Irmão contra irmão. Caos contra Ordem.

Existem algumas personagens secundárias, de importância variável, que vão tornando possível uma acumulação de eventos dramáticos que culminam num gloriosos e maléfico final. Uma das mais importantes é Ferrus Manus, Primarch da X legião (“Iron Hands”), um dos irmãos mais próximos de Fulgrim que por ser, em temperamento, o oposto dele acaba por lhe servir de consciência e de travão. Os quatro capitães principais dos “Emperor’s Children” acabam por cair no modelo dos outros livros sobre a Legião comandada por Horus, dois parecem ser susceptíveis de conversão aos poderes ruinosos do Caos na sua procura da perfeição e dois parecem incorruptíveis (sem querer estragar a leitura a ninguém mas até a história segue uma linha similar no que toca aos seus destinos). O que realmente sobressai no livro não é a interacção entre as personagens mas o estudo algo detalhado de como uma das unidades de elite do Império é completamente destruída pelas suas próprias ambições e paixões à medida que Slaanesh (um dos deuses do Caos) renasce na nossa galáxia. Príncipe dos prazeres e Senhor da auto-indulgência e do excesso, vai tomando conta do espírito destes indomináveis guerreiros. O destino final nunca está em causa porque questionar decisões prévias seria uma brecha inadmissível numa muralha de orgulho de seres que se assumem perfeitos. De certa forma quase que podemos dizer que os poderes do Caos são, como um todo, a personagem principal deste livro. Seja como for, é uma adição de peso ao cânone Warhammer 40k que nos leva de volta ao nível muito elevado de “Galaxy in Flames”.

Nota: 9/10

Este livro começa ligeiramente antes dos eventos finais do anterior livro da saga Horus Heresy, Galaxy in Flames, e muda a perspectiva dos anteriores três volumes ao introduzir uma nova personagem principal, Garro, Capitão na XIV legião, a Death Guard. Somos inseridos logo  na acção quando Garro comanda a sua companhia no ataque a uma nave alienígena que ousou entrar em espaço imperial. Este, não tão pequeno, episódio serve de introdução ao espaço mental deste soldado e é uma forma de adaptação, para o leitor, a outros espaços e realidades que não tinham aparecido antes nesta série – uma nova perspectiva sobre a grande cruzada do Imperador, conhecemos mais um Primarch, Mortarion o Senhor da Morte, e acima de tudo a uma nova cultura (cada legião tem o seu código e características especificas). Eventualmente somos levados aos eventos de Isstvan III onde Horus trai os astartes que permaneceram fieis ao Império bombardeando o planeta onde estão colocados com armas químicas. Garro e a sua equipa de comando conseguem evitar este fim por um acaso e recrutam a fragata Eisenstein na sua fuga para avisar a Terra da defecção do seu campeão. Mas a viagem promete ser dura. Para começar há outra equipa de astartes a bordo da nave que não partilha das lealdades do nosso herói; em segundo lugar o espaço Warp está a conspirar  contra esta viagem à medida que os deuses do caos despertam para o nosso universo e por último mesmo que consigam chegar ao seu destino não sabem em quem podem confiar esta informação vital para a sobrevivência da humanidade. Até onde chega a corrupção do caos?

 

Não é a minha capa favorita mas funciona.

A forma como o último livro da série acabava não deixava espaço para dúvidas que novas personagens teriam que ser introduzidas mas James Swallow quase que só nos introduz uma, Garro. O resto do cast do livro é composto por personagens secundárias da equipa do capitão que não têm autonomia ou interesse para serem desenvolvidas em grande detalhes e algumas que vieram de livros anteriores como a “Santa” Keeler ou o velho capitão Qruze mas que também não são desenvolvidas em detalhe, aliás estas são praticamente ignoradas ou descritas de forma superficial. Tudo assenta então sobre o heróico capitão e a sua missão de entregar a mensagem de aviso. Se fosse esta a história toda teríamos um problema  já que Garro não é assim tão interessante (pelo menos à partida) mas felizmente o autor percebeu isso e acrescentou uma dimensão nova à personagem. A fé. Esta série retrata a passagem de um universo em que domina uma visão cientifica para outro em que o sobrenatural é central e Swallow aproveitou a necessidade de fazer essa transição enriquecendo a sua personagem com uma viagem de descoberta espiritual, descoberta na sua fé no Deus-Imperador da humanidade – é verdade que o tema já tinha sido abordado na série mas desta vez é-lhe dado tempo para ser verdadeiramente explorado.

 

The Emperor protects!

Além de haver uma certa pobreza no que toca a personagens (Garro não é tão complexo ou interessante como o seu antecessor, Loken, além de que parece estar quase sozinho sendo todos os outros quase que amostras de personagens ou personagens potenciais) existem sérios problemas de timing neste volume. A introdução é claramente demasiado longa, mesmo para quem não leu mais nada do universo Warhammer os outros três livros anteriores já tinham dado uma boa imagem das características centrais e a insistência do autor em dedicar tanto espaço a informação que já temos diminui o espaço que poderia ter usado para desenvolver uma história autónoma. Também de apontar que o fim (e o combate associado) é demasiado simples, desilude pela solução linear e deixa demasiadas perguntas que tínhamos no inicio do volume sem resposta. Em resumo é um bom livro, que acrescenta algo à série, mas que tem sérias falhas na forma como foi construído o que o impede de estar à altura do seu antecessor. O próximo volume da série, Fulgrim, já está na minha mesa à espera de leitura.

 

Nota: 7.5/10

A Terra uniu-se ao fim de milénios de conflito e nasce uma gloriosa Era da Tecnologia que nos permite não só suprir os eternos problemas de subsistência da nossa espécie como também explorar e colonizar milhares de mundos ao longo do Universo. Ao fim de milénios de paz interna e externa (com alienígenas) aparecem as tempestades Warp. O Warp, que até aqui servia de meio de comunicação usado pelas nossas naves espaciais, está fora de controlo. Cada sistema está isolado e coisas estranhas começam a acontecer. A magia funciona. Os deuses parecem vivos. As mutações humanas multiplicam-se criando seres estranhos e mesmo novas espécies que tendem a dominar as populações humanas normais. O Império do Homem está quebrado sem que tenha percebido quem lhe desferiu o golpe fatal. A Terra volta a ser um campo de batalha disputado por diferentes senhores da guerra, reis-sacerdores, feiticeiros e tecnocratas. Até que ao fim de vários milhares de anos de conflito sangrento aparece o imperador. Um ser misterioso que parece viver eternamente domina as várias facções e trás a paz de volta ao planeta e ao sistema solar. Com a ambição de voltar a reunir a si o Império do Homem cria os Astartes, super soldados imortais que partilham parte da sua essência, divididos em legiões e liderados pelos “Primarchs” (ainda mais próximos geneticamente do imperador). Ao longo de 200 anos, depois das tempestades Warp desaparecerem e os seus efeitos acalmarem, prossegue uma cruzada para voltar a reunir a humanidade e espalhar a verdade imperial: unidade contra a fragmentação e ciência contra a superstição.

É aqui que começa a série Horus Heresy do universo Warhammer (que já havia introduzido aqui e aqui apesar de neste caso tudo se passar 10 milénios antes) este livro, o terceiro de muitos, por Ben Counter, conta-nos como a traição de Hórus (primeiro entre os primarchs, líder da cruzada em nome do Imperador) tomou forma depois da sua miraculosa recuperação nos templos de Davin (os eventos precedentes são relatados em Horus Rising e False Gods), recuperação essa que foi obra dos poderes ruinosos do Caos (alternadamente referido como Warp). Recuperado Hórus planeia o caminho para suplantar o imperador no trono da Terra não se importando com os ideais que supostamente a cruzada deveria defender. Os cultos do Caos espalham-se pelas legiões ao serviço de Hórus mas há quem resista. Entre os humanos normais da expedição surge um novo culto religioso que diviniza o imperador e recusa qualquer tentativa de o trair e mesmo entre os Astartes há quem não queira dobrar os joelhos em templos a deuses sangrentos quando o imperador nega a existência do sobrenatural.

Astartes em formação

O livro é excelente dentro do género já que consegue atingir um ponto de equilíbrio entre intriga política, mistério e guerra, o que nem sempre é fácil. As personagens estão bem traçadas, apesar de nem sempre serem exploradas em toda a sua complexidade, sendo que conseguimos sentir empatia com várias delas especialmente no que toca às suas lealdades divididas (especialmente no capitão astarte Loken que não acreditando em que o Imperador é um deus também não consegue aceitar o que Hórus está a planear). A acção segue sempre a bom ritmo sendo que os momentos heróicos são realmente dramáticos e estão bem espaçados. A conclusão é complexa e corajosa o suficiente para não nos deixar com um sabor desagradável no fim – se há coisa que aprecio no universo warhammer é que nem tudo acaba sempre tão bem como nós desejaríamos, tal como na vida real. Penso que o Counter consegue subir o nível da série (na qual colaboram vários escritores) com este título e sem dúvida que sabe trabalhar com um universo tão rico e complexo como este. O melhor que posso dizer é que deixa o leitor praticamente a salivar pela continuação.

Nota: 9/10