Archive for the ‘Jesse Bullington’ Category

A Europa medieval é um local escuro. Especialmente quando todos os mitos medievais são verdadeiros. As bruxas existem mesmo, demónios andam à solta pelas cidades a espalhar a peste e toda espécie de criaturas desagradáveis povoam a noite. Pior e mais perigoso que tudo isto só os irmãos Grossbart, Hegel e Manfried, os protagonistas deste óptimo livro, “The Sad Tale of the Brothers Grossbart” de Jesse Bullington. São a cópia chapada um do outro tendo sido criados por uma mãe louca, um pai desaparecido e um tio criminoso os dois cedo enveredam pelo negócio da família, o roubo de túmulos. Todos os prazeres deste mundo são pouco ou nada quando comparado com a violação de um túmulo fresco, especialmente se estiver bem recheado de pertences valiosos.

 

É com este objectivo que os nossos dois irmãos embarcam numa viagem que vai desde a Alemanha até ao Egipto. Seguem o rumor da família, segundo o qual o seu avô uma vez chegado ao Egipto enriqueceu de tal forma com o roubo de túmulos que vive como um rei – o nome desse antepassado próximo parece ser desconhecido tal é a proximidade e amor desta família. O que estas duas almas perdidas não esperam é que os assuntos que deixaram pendentes ao partir nesta viagem os perseguissem… Um pai enraivecido, bruxas vingativas, demónios pestilentos e hereges semi-loucos assombram o percurso destes dois vis personagem que entre si amontoam pior reputação que todos os seus inimigos juntos.

 

A premissa do livro é original. Pegar em elementos do folclore europeu tradicional e aplicar dar-lhe uns toques de fantasia. Mais interessante ainda é o facto de o autor não criar um herói mas sim 2 seres que só podem ser descritos como alternadamente vis e loucos. Ainda reconhecemos algumas emoções humanas nos irmãos Grossbart mas não muitas já que tendem a ver o mundo apenas em função das suas necessidades – num jogo literário que goza com os nossos mecanismos reais de racionalização de decisões que tomámos antes de termos qualquer motivo racional, pelo simples motivo que nos era conveniente. Parte da violência da obra deriva também do mundo que é descrito. A vida medieval era verdadeiramente dura, violenta e curta e isso é descrito perfeitamente pelo autor através não só dos irmãos como de todas as personagens secundárias.  Mas esse elemento acaba por ser contrabalançado pelo humor negro que o autor não abandona mesmo nos momentos mais dramáticos da história e que acaba por nos fazer rir em voz alta de tempos a tempos (como leio em público recebi alguns olhares…).

Se há falhas a apontar só me ocorre a forma como o livro acaba. Sem querer entrar em detalhes que possam estragar a leitura de outros posso dizer que o achei anti-climático. Todas as pontas soltas são realmente resolvidas mas parece algo apressado e inconclusivo. Esta estreia de Jesse Bullington foi uma surpresa agradável e sinceramente um dos melhores livros que apanhei nos últimos tempos. Altamente recomendável.

Nota: 9/10

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