Archive for the ‘KJ Parker’ Category

Depois de umas semanas mais complicadas lá acabei de ler o “Devices and Desires” de KJ Parker. Entre vários assuntos que foram surgindo, uma falta de tempo em geral e alguns pontos de bloqueio no livro, cheguei a assumir que seria um dos poucos que não acabaria de ler. Quer isto dizer que o livro é mau? Nem por isso. A acção do livro desenrola-se num mundo parecido com o nosso mas na algures entre o fim da idade média e o renascimento, nada de magia ou seres de outras dimensões, que se divide em quatro facções: Mezentia, a República Perpétua, que domina comercial e politicamente os seus vizinhos ao deter o monopólio da produção “industrial” (uso as aspas porque o sistema é baseado em ciência mas uma ciência mais renascentista que de século XIX), os ducados de Eremia e Vadania que mantêm uma recente e frágil paz após de séculos de agressão mútua e um povo de bárbaros semi-desconhecidos mas tremendamente numerosos que vivem separados do resto do mundo apenas por um deserto que se pressupõe impossível de atravessar.

  

Depois de uma introdução algo demorada mas agradável Parker dá-nos a conhecer o anti-heroi desta narrativa. Ziani Vaatzes, engenheiro caído em desgraça após ter cometido uma pequena falha inofensiva ao desafiar sem intenção as sacrossantas especificações técnicas de Mezentia num brinquedo que fez para a sua filha. Julgado e condenado à morte acaba por encontrar refúgio em Eremia onde o novo, e algo incompetente, Duque governa sem saber bem o que fazer com este refugiado. A partir daqui a história vai-nos mostrando o lado mais perverso de Ziani que de vítima passa a orquestrador de massacres usando tecnologia que ninguém fora da República Perpétua deveria dominar. Mezentia, confrontada com um potencial rival estratégico, tem agora uma escolha. Ignorar este foragido e correr o risco de que o conhecimento técnico deixe de ser exclusivo seu ou empreender uma guerra de agressão e aniquilação total como nunca antes tinha sido feito para assegurar a sua hegemonia e trazer a cabeça de Vaatzes na ponta de uma lança.

O livro é prometedor logo à partida ao arrastar-nos para não só para as intrigas palacianas dos ducados mas também para as conspirações parlamentares de Mezentia acabando o leitor por perceber que o poder é algo universal independentemente do regime que o usa. Mas depois desta entrada de leão as coisas pioram significativamente. Há uma tentativa de dar alguma profundidade emocional a algumas personagens mas muitas vezes acabamos apenas por ouvir monólogos algo repetitivos (especialmente no caso de Ziani) que impendem a história de avançar a bom ritmo. Por mais que uma vez senti que estava a marcar passo com o livro e sinceramente a perder interesse nas personagens. Há outra grande falha nesta obra que é o enfoque nos aspectos técnicos das criações de Ziani, é interessante dar uma descrição geral das máquinas que ele cria para ajudar à imaginação e visualização do leitor mas página atrás de página a descrever o método de produção começam a irritar qualquer leitor que não tenha um interesse por mecânica ou características de materiais de construção.

Após alguns atrasos (essencialmente nestas duas áreas, o excesso de interioridade dos personagens centrais e as descrições técnicas) a história retoma e acaba por concluir de forma satisfatória sendo que nas últimas 200-150 páginas recuperamos o interesse inicial pelo desenlace da trama política e o destino de Ziani e a sua vingança contra quem o traiu. O mesmo livro seria melhor entre o inicio e o fim o editor tivesse recomendado alguns cortes. De qualquer forma o final compensa alguma frustração acumulada e deixa-nos com vontade de ver o que se vai passar a seguir no segundo livro da trilogia “Evil for Evil”. Apesar de algumas reservas em relação ao primeiro volume faço intenções de ler o segundo!

Nota: 6.5/10

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