Archive for the ‘Livro’ Category

Antes de começar o texto em si tenho que pedir desculpa aos leitores mais regulares dos Manuscritos Malditos pela minha ausência. Foram umas semanas complicadas que me obrigaram a dedicar bastante tempo a leituras fora do reino da ficção. Mas cá estou de volta com o comentário a mais um livro.

Plague of Spells é um livro introdutório ao universo de fantasia dos Forgotten Realms (o mesmo de Drizzt) mas mais especificamente é uma introdução a esse universo pós-“spellplague”. A morte da deusa da magia Mystra às mãos do seu rival, o deus louco Cyric, causou ondas por todo este mundo alterando tudo um pouco, incluindo as regras que regiam os poderes especiais de feiticeiros, sacerdotes e todos os que lidam com o arcano. Não é preciso muita descrição para os mais experientes perceberem que estamos perante mais uma mudança de edição do Dugeons & Dragons (esta é a quarta), sistema de jogo de roleplay que serve de base aos livros – quem tiver boa memória poderá lembrar-se que há uns anos atrás, quando saiu a segunda edição, o universo Forgotten Realms também sofreu outro evento cataclísmico, o “Time of Troubles”. Os novos livros (em que o Plague of Spells é o primeiro) servem dois objectivos; o primeiro é introduzir os jogadores a um mundo onde as coisas já não funcionam bem da mesma forma, e o segundo é relançar as histórias como ficção semiautónoma para os muitos leitores que não são roleplayers. Poderemos dizer alcançaram esses objectivos? Parcialmente penso que sim e é aqui que entramos no livro em si.

Até gostei da capa, tons algo estranhos mas dada a natureza dos adversários parece-me apropriado.

Raidon Kane é um monge que é apanhado no fogo azul que se seguiu à morte de Mystra quando acorda de novo faltam-lhe 11 anos de memórias. O mundo para o qual emerge (marcado pelo fogo azul e com poderes que ainda não compreende) não é o mesmo do qual partiu. Cidades inteiras desapareceram ou mudaram radicalmente de natureza, mares secaram, deuses morreram, muitos magos perderam o seu poder ao não se conseguirem adaptar às novas regras da magia e acima de tudo… a sua filha está morta. Sem objectivos e com uma imensa mágoa Raidon deriva até ser contactado por um estranho ser que lhe comunica a existência de um perigo nascente para toda a realidade… os aboleths (seres primordiais de outra dimensão com enormes poderes) estão a acordar e se isso acontecer destruírão este mundo para o recriar segundo as suas preferências dementes. Para os combater embarca numa busca de por uma arma poderosa que pode verdadeiramente destruir os seus adversários, a espada Angul. Noutro canto de Toril Japheth, um Warlock com um grave problema de adição a substâncias fatais, recebe uma missão do seu odiado empregador, deve largar âncora e recuperar para ele um poderoso artefacto (pertencente aos aboleth) que pode catapultar qualquer um para o trono de Impiltur. O que ele não contava é que a irmã do mercador que o emprega, Anusha (também ela marcada pelo fogo azul e com o seu poder especial), o seguisse secretamente. Uma reunião destes dois polos da história é inevitável à medida que as personagens são atraídas para a mesma fonte de demência e poder que é o estranho artefacto de nome Dreamheart.

Ahhh... que vontade de voltar a jogar!

É impossível dizer que o livro é perfeito ou que a história é inovadora. Há demasiadas restrições à escrita de Bruce R. Cordell (demasiadas referências obrigatórias para atingir os objectivos que mencionei antes) para que ele possa criar algo único. Mas mesmo assim é de reconhecer o mérito da tentativa. É certo que há uma certa falta de profundidade das personagens principais (em especial Raidon já que o perder a sua filha é insuficiente para o definir a si e às suas acções)  e que os vilões poderiam ter sido muito melhor pensados (é perdido tempo a desenvolver um que assumimos ser o principal só para alguns capítulos mais tarde ver esse trabalho todo ir pelo cano sem qualquer necessidade) mas mesmo assim é uma boa introdução ao novo Faerun e uma quest que ainda nos interessa apesar dos elementos demasiado convencionais (tornam-se mais patentes para o fim à medida que o “romance” floresce entre duas personagens). Por fim tenho que dizer que a transição para esta edição parece estar menos bem feita que a que foi realizada para o Time of Troubles, parece mais artificial e menos significativa mas sem ler mais livros deste universo posso estar a precipitar-me nesta conclusão. O melhor é concluir os outros dois livros da Abolethic Sovereignty, “City of Torments” e “Key of Stars”.

Nota: 6.5/10

Aviso: este livro fez-me lembrar o quanto gostava dos meus jogos de roleplay e por isso gostava de deixar um pedido aos leitores que por aqui passarem. Se alguém tiver um grupo de jogo de D&D na área de Lisboa que precise de mais um jogado por favor diga-me algo para o mail ( manuscritosmalditos@hotmail.com ) porque eu adorava experimentar a quarta edição.

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A noite é perigosa. É à noite que os demónios saem do núcleo para atormentar uma humanidade em vias de extinção. Isolados em aldeias e pequenas cidades os humanos dependem de um sistema de runas se protegerem e manterem os monstros fora das suas casas ou muralhas. Mas nem sempre foi assim. Há mais três séculos a humanidade vivia num estado de prosperidade e grande conhecimento científico que lhe permitia um bem-estar muito diferente do mundo primitivo em que agora vive. Mas nessa maré de progresso técnico algo tinha ficado esquecido, as lendas antigas. Elas contavam como os seres humanos desde os primórdios tinham sido perseguidos como animais selvagens por monstros que saiam à noite em caçadas sangrentas e como lentamente, ao descobrirem a escrita e as runas, emergiu um sistema de guardas que lhes permitiu primeiro manter os demónios à distância e finalmente combate-los. Mas tudo isto foi esquecido e não há memória das guardas mágicas que permitiam dar guerra às monstruosidades que dominam a noite. Neste mundo fracturado surgem três jovens que podem ser a chave para a recuperação da humanidade. Arlen, um jovem agricultor que não consegue aceitar que a melhor solução para a sua espécie seja esconderem-se como coelhos em tocas assim que o sol se põe. Leesha, a filha de um produtor de papel (um bem raro nos dias que correm) que encontrará uma vocação diferente da esperada que pode conter a chave de muitos conhecimentos julgados perdidos. E Rojer uma criança forçada a entrar no mundo adulto demasiado cedo e que descobrirá que consegue usar uma nova arma para manter os demónios à distância, algo que nunca ninguém teria sequer pensado até ele chegar.

Uma grande capa sem dúvida!

Adorei a premissa inicial deste livro. Um mundo semi-medieval (mas com ecos de outros tempos em que talvez a civilização humana tivesse um nível de desenvolvimento muito superior) em que a humanidade luta desesperadamente contra um adversário demoníaco que claramente é mais forte – quase que conseguia sentir ecos do jogo de PC Diablo. Mas apesar da minha disposição inicial ter sido de paixão o desenvolvimento do resto do livro não está à altura das espectativas apesar de existirem momentos muito bons polvilhados pelo livro. Temos um início bastante agradável em que somos lentamente introduzidos a este mundo ruralizado à força e rapidamente entendemos que Peter Brett não tem qualquer intenção de romantizar o campo e as pequenas comunidades (o que é um alívio), tudo é revelado tal como é. Mas passado alguns capítulos começamos a ter as primeiras indicações que nem tudo é tão bom como seria de esperar. O nível de detalhe da narrativa começa a tornar-se bastante escasso. Acabamos por ter uma história com bastantes saltos temporais e cortes de perspectiva, nem sempre bem intercalados, que acabam por criar um ritmo estranho não só para os eventos para a própria evolução das personagens que recebem atenção desigual – de Rojer, para dar um exemplo, nem sequer consegui formar uma opinião devido à escassez de informação sobre a sua personalidade. Há vários momentos ao longo do livro em que pensamos que algo extraordinário vai acontecer para acabarmos desiludidos quando Brett escolhe o caminho menos interessante e mais previsível – por mais que uma vez consegui prever o curso da história com vários capítulos de antecedência, o que não é de todo positivo. Há também alguns elementos recorrentes que a partir de certa altura se tornam simplesmente estranhos. A obsessão com procriação (presente até na linguagem escolhida) pode ser compreensível num mundo em que os seres humanos não abundam mas sinceramente vai demasiado longe (ao ponto de parecer ser o grande objectivo de vida de todas as personagens… é normal que a maioria das pessoas pense isso mas não é interessante em termos de desenvolvimento das personagens). Um segundo elemento que faz “comichão” é a que a toda a cultura de Krassia (uma das cidades estados independentes) é no fundo a cultura islâmica decalcada, sem tirar nem pôr. Se fosse só inspirada acharia fantástico (como Robert Jordan fez tão espectacularmente) mas levantada como um todo sem grandes alterações revela uma falta de criatividade ou um desejo de criar na maioria dos leitores um sentimento automático de antagonismo.

A capa internacional - muito, muito, mais fraca. Um bom exemplo de uma capa genérica com uma misteriosa figura de capuz *bocejo*

Pelo lado positivo tenho que admitir que apesar das falhas o autor continua a manter-nos interessados no que está a acontecer e nunca nos sentimos desligados do que poderá vir a suceder nas próximas páginas (isso explica a facilidade de leitura). Também sabe criar suspense suficiente sobre certos temas para nos deixar curiosos pela continuação já que há bastantes questões que ficam por responder no fim do volume. E apesar de no fundo nem Leesha nem Arlen serem personagens coerentes ou inteiramente convincentes nas suas escolhas são interessantes. São diferentes o suficiente do mundo que as rodeia para se destacarem e assumirem um papel importante a moldar os eventos relatados no livro. Em conclusão: trata-se de um livro com imenso potencial que não foi realizado (além de que 600 páginas para um livro que é apenas uma introdução é um exagero) mas que mesmo assim tem pontos de interesse que o tornam fácil de ler e nos deixam com vontade de saber como as coisas irão acabar.

Nota: 6.5/10

Ian Esslemont fez parte da criação do mundo de Malazan Book of the Fallen desde o início juntamente com Steven Erikson sendo que ambos foram jogadores no RPG que deu origem à mais complexa obra de fantasia moderna. Ao fim de alguns livros da saga de dez volumes de Erikson aparece o primeiro livro de Esslemont, Night of Knives. Cronologicamente seguimos um evento que apenas é aludido na saga principal, a ascensão ao estatuto de deuses do antigo Imperador Kellanved e o seu mestre de assassinos Dancer – tudo se passa numa só noite, a noite da Lua da Sombra em que os Warrens ficam mais abertos a todos. Depois de anos dedicados à conquista de um magnífico império estes dois estranhos amigos querem objectivos mais interessantes que o mero poder temporal e estão dispostos a absolutamente tudo para alcançar novos patamares de poder. Claro que contarão com a oposição de vários poderes que têm objectivos dissonantes. A começar pela Deadhouse que funciona como guardiã do poder que procuram e não hesitará em usar todas as criaturas que aprisionou ao longo de milénios para impedir as ambições do antigo imperador e passando, claro, por Surly, a comandante do corpo de assassinos do Império, a Claw, que passou anos a destruir a antiga organização de assassinos de Dancer (os Talon) e que à medida que o líder imperial se centra na sua investigação mágica e objectivos sobrenaturais vê a sua hipótese de usurpação de todo o Império tornar-se uma realidade. Fica prometida uma batalha entre campeões e deuses que terá como palco a pacata cidade de Malaz, antiga capital Imperial e actualmente um porto insignificante de quinta categoria situado numa ilha onde nada de relevante ocorre há décadas. É nesta localização que as duas personagens principais deste livro (as únicas perspectivas às quais o leitor tem acesso directo) se encontram quando são arrastadas neste remoinho de poder e sangue. Primeiro temos Temper, um veterano de muitas campanhas que por razões desconhecidas acabou por preferir passar os seus últimos anos no activo como um simples guarda de uma fortaleza sem qualquer relevância estratégica; em segundo lugar temos Kiska uma jovem ladra que anseia por ter uma oportunidade de entrar ao serviço do Império para poder ter a vida de aventura com que sempre sonhou. Estarão estes dois pobres diabos irremediavelmente perdidos numa luta que claramente está acima do seu nível? Ou conseguirão sobreviver até o sol nascer?

 

Uma boa capa!

Este livro à primeira vista prometia ser um verdadeiro petisco para os fãs de Malazan. A história é muito interessante (a ascensão de Shadowthrone (kellanved) e Cotillion (Dancer) a patronos do Warren das sombras é algo que deixa qualquer leitor a salivar), o palco escolhido é sugestivo porque é o primeiro sítio que aparece descrito, de forma geral, na introdução do primeiro volume, Gardens of the Moon, e até as personagens parecem ter potencial apesar de uma delas (Kiska) cair no estereótipo da Jovem aventureira que tem que conquistar o seu lugar no mundo – Temper é bem mais interessante porque é misterioso, há profundidades da sua vida às quais não temos acesso imediato e vão sendo desvendadas à medida que a história progride. Mas a verdade é que existem algumas falhas que impedem Night of Knives de chegar ao seu potencial pleno. A começar pelo ritmo de escrita do autor. Não é uniforme nem rápido o suficiente e no início isso é dolorosamente frustrante já que demora quase cem páginas a montar o cenário para o resto livro (dado que o livro tem 450 páginas é bastante espaço dedicado essencialmente a coisas que não avançam a narrativa); já mais à frente o ritmo torna-se frenético sendo que temos imensa acção mas desligada de um contexto mais vasto que nos permita perceber o objectivo de tanto combate e fuga – há tanta informação que é retida do leitor por tanto tempo que acaba por prejudicar o envolvimento pessoal com o que se está a ler. Mas para mim a principal desilusão deste livro foi que a presença de Kellanved e Dancer é quase não existente, aparecem de raspão de forma muito ligeira e sinceramente penso que todos os fãs esperavam que este livro iluminasse mais um pouco estes dois personagens tão curiosos. É verdade que Temper acaba por conseguir compensar um pouco ao termos acesso a episódios marcantes do seu passado e até descobrirmos um segredo sobre outra personagem importante Dassem Ultor, o antigo campeão imperial que caiu em combate no continente das Sete Cidades.

 

Uma capa alternativa, parecida mas menos famosa.

Apesar de tudo isto é um bom livro que nos dá mais a conhecer sobre o universo Malazan e que até revela alguns segredos (aparecem vários personagens importantes por curtos momentos) e lança pistas para eventos futuros e mesmo que não entre pelas áreas que eu julgo mais interessantes a verdade é que é profundo o suficiente para a história nos prender (apesar de eu admitir que Kiska é uma personagem bastante fraca) até ao fim. As cenas de combate na rua (não revelo detalhes para não estragar a leitura) estão bastante bem feitas e têm uma atmosfera muito bem construída, sente-se mesmo o medo e desespero de alguns personagens. Resumindo, apesar de não ser um livro perfeito é um bom suplemento à série principal e faço questão de ler segundo livro de Esslemont, The Crimson Guard.

 

Nota: 7/10

 

Ps: recomento a todos que leiam este livro depois do quinto volume de Malazan Book of the Fallen, Midnight Tides.

No sistema Sabbat os poderes ruinosos do Caos tomaram poder há gerações e tornaram toda a região numa gigantesca base para o avanço da Heresia, quer através de missionários que espalham mentiras venenosas contra o Império quer usando assaltos militares a todos os sistemas circundantes. O Warmaster Slaydo, herói distinguido em incontáveis conflitos com heréticos e alienígenas, foi agora encarregue de comandar uma expedição da Guarda Imperial (auxiliada por contingentes dos imortais Adeptus Astartes e os sábios Adeptus Mechanicus ) a este sistema para o reconquistar em nome do Imortal Deus-Imperador. Fiel à sua reputação Slaydo alcança sucesso atrás de sucesso até que na hora da sua maior vitória tomba em combate. A expedição de mais de mil milhões de soldados da Guarda fica primeiro de luto e depois em choque com as decisões tomadas por Slaydo no seu leito de morte. Ignorando critérios de tempo de serviço ou experiência nomeia um oficial superior relativamente novo como seu herdeiro, ascende assim o Warmaster Macaroth e deixa o candidato mais óbvio, Lord High Militant General Dravere, a espumar de raiva e claramente interessado em conspirar para usurpar a posição que pensa que lhe pertence por direito e mérito. Uma segunda acção, menos pública, foi conceder a equivalência à patente de coronel (e como tal a liderança de um regimento) ao comissário político Ibram Gaunt (há mais que uma leve semelhança estética entre alguns elementos do Império do Homem e a velha União Soviética começando pela existência de comissários políticos no exército), líder dos fantasmas de Tanith.

Não é uma capa má mas talvez seja demasiado "pulp" (um problema estético recorrente nesta série).

Este homem de ferro é o centro da narrativa que nos arrasta de novo para o universo Warhammer (de facto este livro é uma boa forma de começar a ler algo do complexo universo da Black Library) para um cenário de guerra sem fim e sem piedade. E aqui não é preciso andar com muitas subtilezas, o livro é essencialmente mesmo sobre guerra, dever e política – nesta ordem. O Coronel-Comissário Gaunt é um homem marcado por um passado difícil (com traições à mistura) e por um estranho aviso que recebeu há mais de vinte anos vinda de uma rapariga com poderes psíquicos aprisionada pela Inquisição. Começando em Fortis Binary, um planeta industrial que é o cenário de uma guerra de trincheiras contra as forças do Caos, vemos o estilo de liderança muito especial de Gaunt entrar em acção (um oficial que se destaca pela preocupação com os seus homens é algo estranho neste universo onde o guarda imperial médio é considerado como carne para canhão) e ao fim de algumas grandes cenas de combate começamos a entrar no espírito da unidade que comanda e de como interage com o que a rodeia (o seu ódio aos Patrícios de Jant que remonta a uma dívida de Gaunt, ou a relação distante com o comando central que, não infrequentemente, conspira contra as suas próprias unidades) e somos introduzidos a novos graus de complexidade. Começamos a ter uma história de fundo que é mais complexa que apenas uma série de combates desconexos e que envolve alguma intriga política por parte de alguns personagens – nada de grandes complexidades mas o suficiente para dar uma nova dimensão, credível, à guerra constante.

A versão alternativa.

As personagens que mais nos marcam são sem dúvida os oficiais das várias unidades começando claramente por Gaunt e os seus deus oficiais (o Coronel Corbec e o Major Rawne – personagens bem distintos e únicos à sua maneira), Flense o colérico inimigo mortal de Gaunt por mais razões do que aquelas que seriam de esperar ou Zoren o estóico comandante dos Vitrian Dragoons (uma unidade aliada). Há uma falha clara no desenvolvimento de alguns personagens mais secundários, especialmente os vilões, sendo que alguns poderiam ter sido muito mais interessantes se Dan Abnett tivesse tido mais trabalho a criar detalhes e uma trama algo mais complexa – é interessante o suficiente para nos fazer querer ler quase compulsivamente mas não o suficiente para que não se torne algo previsível para os leitores com mais experiência. Nesta categoria é de destacar o Inquisidor Heldane que tem bastante potencial e facilmente poderia ter-se tornado em algo mais que um simples obstáculo secundário na trama. Para concluir esta crítica gostaria de reforçar a ideia de que este livro está claramente na categoria de ficção científica/fantasia militar. Quem tiver problemas em ler descrições algo detalhadas de operações militares ou de bravos combates em grupo ou individuais terá sérias dificuldades em avançar na leitura. Mas mesmo para os que não gostam especialmente da parte guerreira é de apontar que o autor não cai nunca em facilitismos ou em heroísmos fáceis. Longe disso. Tudo é descrito de forma realista e os comportamentos destes soldados, no seu melhor e pior, está presente em toda a sua humanidade o que para mim tornou a leitura muito mais agradável do que se o lado negro tivesse sido ignorado. Já tenho o volume seguinte desta saga, Ghostmaker, na estante à espera de leitura.

 

Nota: 8/10

Will Rabjohns é um homem pouco comum. Abandonou a sua pátria, Inglaterra, e uma família que nunca verdadeiramente o quis ou aceitou. Na sua nova vida na América recriou-se a si mesmo, como um homem gay livre e razoavelmente feliz. A sua profissão, fotógrafo da vida selvagem, é a sua paixão apesar de às vezes não saber bem se é uma maldição já que as imagens que reproduz parecem verdadeiros ecos de morte que a humanidade visita sobre todas as outras espécies (ou deverá ser tudo visto como um “crime” da natureza contra si própria?). Mas amaldiçoado ou não este chamamento tornou-o famoso. Permitiu-lhe conhecer o mundo. Enriquecer. E, talvez, descobrir-se a si próprio. À entrada para a meia-idade, envolvido num projecto no meio do gelo que não o entusiasma, Will tem um encontro demasiado próximo com um urso polar que o coloca num coma. Agora é obrigado a revisitar o percurso que o levou até ali e a reconsiderar o cinismo que sempre tomou como necessário e desejável para poder continuar a trabalhar e viver. Nesse passado, há quase três décadas, na pacata aldeia, no norte de Inglaterra, de Burnt Yarley os Rabjohns (Hugo, Eleanor e Will) retiram-se do mundo para recuperar da morte de um dos seus filhos, Nathaniel, quase esquecendo-se que têm outro que ainda está vivo. Estando essencialmente sozinho Will pouco descobre de positivo no novo lugarejo que habita até um dia conhecer duas estranhas personagens. Rosa McGee e Jacob Steep. Irmãos, amantes, psicopatas, assassinos, místicos, forças vivas da natureza, de muito são acusados e muito mais fica por imaginar. Jacob num breve encontro vai tocar Will de uma forma imprevisível que os vai prender para sempre um ao outro mesmo contra a sua vontade e levá-los-á inexoravelmente a uma rota de colisão décadas mais tarde. Assim começa um livro que, enganadoramente, parece prometer pouco.

Até a arte da capa do livro foi cuidada.

A história é verdadeiramente complexa e arrasta as personagens principais por memórias, acções e imaginações ficando por vezes à discrição do leitor a escolha de qual está a ocorrer no momento. Uma boa parte do livro é profundamente introspectiva (e suspeito que Clive Barker depositou muito de si nisto – e isto é um elogio porque é feito de forma a envolver o leitor e nunca o perder em memórias alheias) caindo quase na biografia e deixando o elemento fantástico quase de lado (está sempre presente mas é extremamente discreto até meio do livro). Poderá parecer excessivo a quem parar a leitura por aí mas ao continuar um pouco mais no trilho descobrimos que acima de tudo estamos envolvidos numa busca espiritual na qual Will é o nosso xamã perfeito – sempre em parte excluído do mundo por ser quem é vê-se obrigado a prosperar apesar de tudo (separação da tribo), a reinventar-se e renascer (proximidade com a morte, social e física – as descrições da devastação causada pela Sida em S. Francisco são potentes), comunicar com o que outros não querem ver (um psicopompo relutante que através do seu totem, a raposa, encontra uma voz noutros mundos) e trazer essa sabedoria de volta à comunidade para a curar e tornar mais forte. De certa forma faz-me lembrar algumas das visões de Alan Moore, também elas xamânicas e viagens de descoberta pessoal (quanto mais não seja para o leitor que souber entender o que lhe está a ser comunicado). O que ele terá que descobrir é, como dizia o oráculo de Delfos, a si próprio e só assim poderá emergir deste caminho que escolheu, e para o qual foi escolhido, para regressar aos que o querem, amam e precisam dele e do seu conhecimento. É importante notar que para quem quiser fazer uma leitura mais existencialista que espiritual o livro também permite essa abordagem e sem dúvida que aborda uma série de temas sociais quentes para a nossa sociedade nomeadamente a de definir quem somos, o que queremos vir a ser, e a que preço (uma mistura fascinante de tolerância, diversidade, crescimento, criatividade e realismo).

Uma edição anterior - nada má mas claramente ultrapassada pela nova.

Quanto às personagens Will é o nosso intérprete quase exclusivo do que acontece aparecendo por vezes alguns outros que emprestam a sua voz para criar grande realismo. Desde os pais de will (Hugo o professor de filosofia falhado e amargo que rejeita o filho e tudo o que ele sempre foi e se tornou e Eleanor uma figura materna remota quando não ausente), passando por Patrick e Drew (os dois amores da sua vida, um no passado e outro num potencial futuro), Adrianna e Frannie as duas amigas e confidentes em vidas diferentes e claro Rosa e Jacob os dois seres que desconhecem a sua própria natureza mas cujo poder toca todos os que entram em contacto consigo. Da interacção de todos eles e acima de tudo da busca de Will nasce um apaixonante relato de busca pessoal em que ao deixarmos a história desenrolar-se o fantástico volta a aparecer com cada vez mais força à medida que as páginas passam ajudando a dar força à mensagem do autor. Tenho que reconhecer que “Sacrament” é possivelmente um dos livros menos usuais e mais exigentes que li nos últimos tempos e devo igualmente admitir que houve alturas em que não sabia muito bem o que o autor queria fazer com a história e tive dúvidas quanto à qualidade do texto mas no fim foi uma autêntica viagem, a vários níveis, que não abdicaria de ter.

 

Nota: 10/10

Os ingleses decidiram mimar os leitores e toda a obra de China Miéville irá ter direito a capas novas para ficar uma colecção esteticamente coerente e bem atractiva na estante de alguém – apesar de os livros em si não serem continuações uns dos outros, cada um é de facto completamente autónomo.

Capa favorita: The Scar

King Rat (1998), Perdido Street Station (2000) e The Scar (2002).

Capa favorita: The Iron Council

Iron Council (2004), Looking for Jake and other Stories (2005), Un Lun Dun (2007).

Capa favorita: Embassytown

 The City and The City (2009), Kraken (2010) e Embassytown (previsto para 2011).  

 

Quase que dá vontade de dizer que seria uma altura perfeita para alguma editora mais aventurosa ter iniciativa e aproveitar para começar a publicação de Miéville em Portugal!

Apesar de não me opor a ver um ou outro filme de zombies, de tempos a tempos, nunca tinha tido interesse em ler nada baseado nesses seres tão familiares e, apesar de tudo, assustadores. Mas ao fim de alguns anos a ouvir e ler reviews bastante positivos de alguns livros desse género (há um interesse enorme recentemente sobre este tipo de ficção zombie) acabei por colocar os meus receios de lado (temia especialmente que outra criatura dos nossos pesadelos sofresse o destino dos vampiros na última década, uma popularização enorme mas baseada em escrita de péssima qualidade que não faz justiça ao género especulativo) e avancei para Word War Z, o segundo livro deste tipo de Max Brooks (sim é mesmo filho do “infame” Mel Brooks 🙂 ). A história passa-se no nosso mundo, no nosso tempo e começa com um evento bastante corriqueiro que de certeza já todos ouvimos num telejornal: uma nova doença contagiosa teve origem algures na China e está em risco de se espalhar ao resto da Ásia e eventualmente o resto do mundo. O que não se conhece bem são os detalhes da nova doença e quando os primeiros mortos-vivos (ainda não reconhecidos enquanto tal pois afinal de contas quem é que acreditaria que os mortos estão mesmo a regressar?) aparecem na Europa e Estados Unidos há um pânico quase imediato para que os governos protejam as suas populações. Não interessa se criam zonas de quarentena ou se prometem uma vacina, o que é importante é acalmar as massas para restabelecer um pouco de ordem. Mas um pouco por todo o globo há alguns especialistas que não acreditam que a ameaça possa ser contida com medidas essencialmente cosméticas e de relações públicas. Na África do Sul, em Israel e outros sítios começa-se a suspeitar que a onda de mortos que aí vem não pode ser sequer parada.

A capa da minha edição - talvez um pouco espartana demais.

É uma ideia mais ou menos batida e qualquer fã do género consegue adivinhar os primeiros capítulos. Caos, violência, negação da realidade, pânico e finalmente um colapso social a uma escala planetária. Mas de alguma forma a estrutura do livro ajuda a criar uma sensação de estar a ler algo novo, em vez de termos a perspectiva de uma ou duas pessoas apanhadas nesta loucura e empenhadas numa luta desesperada pela sua sobrevivência o autor estruturou a obra como uma série de entrevistas que são conduzidas depois do fim da Guerra Mundial Z. Originalmente o presente (o mundo que emergiu depois deste desastre que vitimou mais de dois terços da população) e o passado (o mundo pré-guerra, o pânico e a guerra em si) são introduzidos simultaneamente criando uma alternância muito interessante nas entrevistas. As personagens têm um passado e vidas variadas, apesar de o contexto limitar em a variedade possível; estas pessoas sobreviveram ao fim do seu mundo por isso de uma forma ou de outra todos são guerreiros e sobreviventes apesar de nem todos conseguirem aceitar o que aconteceu com a mesma facilidade. Há uma certa preponderância de pontos de vista americanos sobre todos os outros mas dado que é a nacionalidade do autor talvez isso sirva de desculpa – há muitos outros representados mas não em tanto detalhe ou com tanta frequência.

A edição portugesa tem uma capa com mais impacto!

No meio de êxodos populacionais maciços, uma guerra com os mortos-vivos e a reconstrução de um novo mundo há espaço para o autor explorar muitos temas políticos contemporâneos. O que aconteceu às potencias mundiais? A sua rivalidade sobrevive? Que tipo de regime sobrevive a um evento deste tipo? Como é que rivais (políticos, económicos, religiosos, militares, etc) podem colaborar quando nem sequer existem formas de contacto fácil? No fundo quase que faz uma sátira à tacanhez da mente humana que se recusa a enterrar as suas diferenças mesmo quando a alternativa é a eliminação. O tom geral do livro é talvez demasiado positivo para o meu gosto e talvez minimize a dimensão da nossa falta de visão enquanto espécie mas não se torna desagradável ou demasiado irrealista o que permite um bom ritmo de leitura. Outro tema que percorre o livro é o sobrevivencialismo (e admito que acho histórias ligadas a este conceito interessantes – reminiscências de ler Robinson Crusoe quando era novo de certeza) nas suas mais variadas formas, desde indivíduos a nações inteiras, o quadro que é pintado é de um mundo em que ao fim de décadas de interdependência a auto-suficiência volta a mostrar o seu valor. Foi um livro agradável de ler e posso dizer que me deixou com vontade saber mais sobre zombies e catástrofes, sem dúvida que de futuro ambos irão ter lugar nas minhas escolhas de leituras.

 

Nota: 8.5/10

 

Ps: Em Portugal este livro está editado pela Gailivro, parte da sua colecção 1001 Mundos, como Guerra Mundial Z.