Archive for the ‘Max Brooks’ Category

Apesar de não me opor a ver um ou outro filme de zombies, de tempos a tempos, nunca tinha tido interesse em ler nada baseado nesses seres tão familiares e, apesar de tudo, assustadores. Mas ao fim de alguns anos a ouvir e ler reviews bastante positivos de alguns livros desse género (há um interesse enorme recentemente sobre este tipo de ficção zombie) acabei por colocar os meus receios de lado (temia especialmente que outra criatura dos nossos pesadelos sofresse o destino dos vampiros na última década, uma popularização enorme mas baseada em escrita de péssima qualidade que não faz justiça ao género especulativo) e avancei para Word War Z, o segundo livro deste tipo de Max Brooks (sim é mesmo filho do “infame” Mel Brooks 🙂 ). A história passa-se no nosso mundo, no nosso tempo e começa com um evento bastante corriqueiro que de certeza já todos ouvimos num telejornal: uma nova doença contagiosa teve origem algures na China e está em risco de se espalhar ao resto da Ásia e eventualmente o resto do mundo. O que não se conhece bem são os detalhes da nova doença e quando os primeiros mortos-vivos (ainda não reconhecidos enquanto tal pois afinal de contas quem é que acreditaria que os mortos estão mesmo a regressar?) aparecem na Europa e Estados Unidos há um pânico quase imediato para que os governos protejam as suas populações. Não interessa se criam zonas de quarentena ou se prometem uma vacina, o que é importante é acalmar as massas para restabelecer um pouco de ordem. Mas um pouco por todo o globo há alguns especialistas que não acreditam que a ameaça possa ser contida com medidas essencialmente cosméticas e de relações públicas. Na África do Sul, em Israel e outros sítios começa-se a suspeitar que a onda de mortos que aí vem não pode ser sequer parada.

A capa da minha edição - talvez um pouco espartana demais.

É uma ideia mais ou menos batida e qualquer fã do género consegue adivinhar os primeiros capítulos. Caos, violência, negação da realidade, pânico e finalmente um colapso social a uma escala planetária. Mas de alguma forma a estrutura do livro ajuda a criar uma sensação de estar a ler algo novo, em vez de termos a perspectiva de uma ou duas pessoas apanhadas nesta loucura e empenhadas numa luta desesperada pela sua sobrevivência o autor estruturou a obra como uma série de entrevistas que são conduzidas depois do fim da Guerra Mundial Z. Originalmente o presente (o mundo que emergiu depois deste desastre que vitimou mais de dois terços da população) e o passado (o mundo pré-guerra, o pânico e a guerra em si) são introduzidos simultaneamente criando uma alternância muito interessante nas entrevistas. As personagens têm um passado e vidas variadas, apesar de o contexto limitar em a variedade possível; estas pessoas sobreviveram ao fim do seu mundo por isso de uma forma ou de outra todos são guerreiros e sobreviventes apesar de nem todos conseguirem aceitar o que aconteceu com a mesma facilidade. Há uma certa preponderância de pontos de vista americanos sobre todos os outros mas dado que é a nacionalidade do autor talvez isso sirva de desculpa – há muitos outros representados mas não em tanto detalhe ou com tanta frequência.

A edição portugesa tem uma capa com mais impacto!

No meio de êxodos populacionais maciços, uma guerra com os mortos-vivos e a reconstrução de um novo mundo há espaço para o autor explorar muitos temas políticos contemporâneos. O que aconteceu às potencias mundiais? A sua rivalidade sobrevive? Que tipo de regime sobrevive a um evento deste tipo? Como é que rivais (políticos, económicos, religiosos, militares, etc) podem colaborar quando nem sequer existem formas de contacto fácil? No fundo quase que faz uma sátira à tacanhez da mente humana que se recusa a enterrar as suas diferenças mesmo quando a alternativa é a eliminação. O tom geral do livro é talvez demasiado positivo para o meu gosto e talvez minimize a dimensão da nossa falta de visão enquanto espécie mas não se torna desagradável ou demasiado irrealista o que permite um bom ritmo de leitura. Outro tema que percorre o livro é o sobrevivencialismo (e admito que acho histórias ligadas a este conceito interessantes – reminiscências de ler Robinson Crusoe quando era novo de certeza) nas suas mais variadas formas, desde indivíduos a nações inteiras, o quadro que é pintado é de um mundo em que ao fim de décadas de interdependência a auto-suficiência volta a mostrar o seu valor. Foi um livro agradável de ler e posso dizer que me deixou com vontade saber mais sobre zombies e catástrofes, sem dúvida que de futuro ambos irão ter lugar nas minhas escolhas de leituras.

 

Nota: 8.5/10

 

Ps: Em Portugal este livro está editado pela Gailivro, parte da sua colecção 1001 Mundos, como Guerra Mundial Z.