Archive for the ‘Mitologia’ Category

Paul Atreides, Muad’dib, está morto há mais de nove anos. O Imperador que conquistou um trono usando os terríveis Fremen, o povo de Dune, como exército e mecanismo de controlo da Spice, a única coisa que mantém o Império interestelar a funcionar (permite aos navegadores da Guilda Espacial dobrar o tempo e espaço além de ter outros usos pessoais como aumentar a esperança de vida e presciência), não conseguiu conseguir sobreviver aos seus próprios poderes de previsão do futuro e acabou por entrar sozinho no deserto para nunca mais voltar. Mas a galáxia não esteve parada desde esse dia. Os seus filhos gémeos, leto e Ghanima, são os herdeiros do Império e enquanto não atingem maturidade Alia (sua tia, irmã de Paul) assume o controlo directo da regência e do corpo religioso que deificou Muad’dib e que prossegue uma imparável cruzada de conversão pela galáxia. Mas estas duas crianças não são normais. Tal como a sua tia possuem a memória genética de todos os que os precederam o que faz deles anciões veneráveis em corpos de crianças mas ao contrário dela querem encontrar uma forma de controlar as incontáveis vidas que possuem dentro de si para não perderem as suas próprias personalidades. Fora destas tensões familiares o próprio planeta de Arrakis está a mudar. Os fremen estão intencionalmente a mudar o clima ao mesmo tempo que o seu carácter também se altera. De ferozes, independentes e isolados passaram a citadinos, conquistadores e gananciosos. Poderá o Império manter-se quando a sua base militar parece estar a mudar de forma tão rápida? Pode o próprio planeta, e a vital Spice, sobreviver aos novos donos? Como se estas incertezas não bastassem a grande casa Corrino conspira de longe para recuperar o trono que Paul lhes tirou ao fim de incontáveis gerações e a própria irmandade das Bene Gesserit, através de Lady Jessica (avó dos gémeos e mão de Alia), parece empenhada em minar os novos poderes para benefício do seu programa de perfeição genética. Como se isto não fosse suficiente surge do deserto profundo (onde ainda existem as grandes minhocas produtoras de spice, Shai-hulud, encarnações vivas de deus segundo a mitologia fremen) um profeta cego que parece determinado em minar o edifício religioso do novo Império. Em última análise trata-se de saber quem governa Dune e por extensão a Galáxia.

Uma versão discreta e sóbria.

Este livro, o terceiro da saga Dune, é a continuação conceptual directa dos outros dois volumes e prossegue a exploração de Frank Herbert sobre a evolução das civilizações, o papel da religião, a realidade da política e em certa medida até pode ser visto como uma meditação sobre o nosso destino colectivo. Se há algo que podemos apontar como característica desta série é a nossa incapacidade, enquanto leitores, de perceber muito bem como as coisas vão acabar; existem demasiadas personagens, interesses, eventos e sempre mais uma surpresa quando pensamos que as coisas já estão decididas. Sendo este o terceiro livro há um certo desgaste deste recurso ao segredo e à surpresa de última hora. Em termos de personagens há que dizer que existe pouca flexibilidade em toda a obra sendo que este volume não é excepção. Todos os actores deste drama espacial estão imensamente condicionados pelos papéis sociais e políticos que desempenham sendo tudo o resto enterrado até quase não sobrar vislumbre de preocupações puramente pessoais – Leto e Ghanima são uma excepção parcial já que apesar de terem uma agenda muito pessoal (não serem consumidos pelas vozes interiores dos seus antepassados) ela é sempre percepcionada como algo ligado à governação e planos para o Império (parecem só existir como entes políticos). O tempo dedicado a cada perspectiva está equilibrado de forma eficaz sendo que vamos tendo acesso a visões muito diferentes – mais uma vez Leto é uma excepção sendo que tem muito mais tempo que os restantes (por vezes começa a tornar-se aborrecido seguir a sua trajectória já que há imenso tempo dedicado puramente a vozes internas e a uma transformação que é inevitável).

Versão mais antiga e das mais fracas que tenho visto.

Onde a obra brilha, como um sol de meio-dia no deserto, é nos planos metafórico e simbólico. Herbert viveu obcecado com sistemas (biológicos, sociais, etc) e isso transpira em cada página que é lida. Nada é sem consequências e tudo tem um efeito no meio que por sua vez afecta quem iniciou a acção (círculos de acção-reacção que se afectam mutuamente) – é a total negação da narrativa simplista em que o herói aparece como a única variável em toda a história. Mais que isso a saga Dune é sobre Política, com “P” maiúsculo. Esqueçam os partidos, esqueçam os lirismos, esqueçam os mitos. A visão do autor é aterradora na sua vontade implacável de nos arrancar as nossas seguranças e mentiras (a começar pela forma como trata o tema da religião que é uma mistura de calculismo de longo prazo, exploração do fanatismo e condicionamento colectivo) sem nos dar nada em troca que não seja uma eterna luta, enquanto grupo biológico, para a frente. De certa forma esta série também é única noutro aspecto já que anula completamente a figura do homem-comum. Não há espaço no universo Dune para um herói despreparado, casual ou sequer normal. Todos os personagens são extraordinários nas suas respectivas áreas e talentos (não são apenas bons naquilo que fazem… são genuinamente o pináculo dos grupos a que pertencem). Tudo isto cria uma certa dose de distanciamento emocional por parte do leitor mas não é um abismo que não se consiga atravessar porque apesar de tudo conseguimos identificar elementos humanos em certos momentos (especialmente na personagem do Profeta).

Uma terceira versão derivada da anterior (ou vice-versa).

Mesmo não sendo sempre realista (em termos de distribuição de poder), algo distante do leitor e altamente metafórico este livro é parte da obra-prima que são os seis livros de Dune e deve ser lido por todos.

Nota: 8/10

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Will Rabjohns é um homem pouco comum. Abandonou a sua pátria, Inglaterra, e uma família que nunca verdadeiramente o quis ou aceitou. Na sua nova vida na América recriou-se a si mesmo, como um homem gay livre e razoavelmente feliz. A sua profissão, fotógrafo da vida selvagem, é a sua paixão apesar de às vezes não saber bem se é uma maldição já que as imagens que reproduz parecem verdadeiros ecos de morte que a humanidade visita sobre todas as outras espécies (ou deverá ser tudo visto como um “crime” da natureza contra si própria?). Mas amaldiçoado ou não este chamamento tornou-o famoso. Permitiu-lhe conhecer o mundo. Enriquecer. E, talvez, descobrir-se a si próprio. À entrada para a meia-idade, envolvido num projecto no meio do gelo que não o entusiasma, Will tem um encontro demasiado próximo com um urso polar que o coloca num coma. Agora é obrigado a revisitar o percurso que o levou até ali e a reconsiderar o cinismo que sempre tomou como necessário e desejável para poder continuar a trabalhar e viver. Nesse passado, há quase três décadas, na pacata aldeia, no norte de Inglaterra, de Burnt Yarley os Rabjohns (Hugo, Eleanor e Will) retiram-se do mundo para recuperar da morte de um dos seus filhos, Nathaniel, quase esquecendo-se que têm outro que ainda está vivo. Estando essencialmente sozinho Will pouco descobre de positivo no novo lugarejo que habita até um dia conhecer duas estranhas personagens. Rosa McGee e Jacob Steep. Irmãos, amantes, psicopatas, assassinos, místicos, forças vivas da natureza, de muito são acusados e muito mais fica por imaginar. Jacob num breve encontro vai tocar Will de uma forma imprevisível que os vai prender para sempre um ao outro mesmo contra a sua vontade e levá-los-á inexoravelmente a uma rota de colisão décadas mais tarde. Assim começa um livro que, enganadoramente, parece prometer pouco.

Até a arte da capa do livro foi cuidada.

A história é verdadeiramente complexa e arrasta as personagens principais por memórias, acções e imaginações ficando por vezes à discrição do leitor a escolha de qual está a ocorrer no momento. Uma boa parte do livro é profundamente introspectiva (e suspeito que Clive Barker depositou muito de si nisto – e isto é um elogio porque é feito de forma a envolver o leitor e nunca o perder em memórias alheias) caindo quase na biografia e deixando o elemento fantástico quase de lado (está sempre presente mas é extremamente discreto até meio do livro). Poderá parecer excessivo a quem parar a leitura por aí mas ao continuar um pouco mais no trilho descobrimos que acima de tudo estamos envolvidos numa busca espiritual na qual Will é o nosso xamã perfeito – sempre em parte excluído do mundo por ser quem é vê-se obrigado a prosperar apesar de tudo (separação da tribo), a reinventar-se e renascer (proximidade com a morte, social e física – as descrições da devastação causada pela Sida em S. Francisco são potentes), comunicar com o que outros não querem ver (um psicopompo relutante que através do seu totem, a raposa, encontra uma voz noutros mundos) e trazer essa sabedoria de volta à comunidade para a curar e tornar mais forte. De certa forma faz-me lembrar algumas das visões de Alan Moore, também elas xamânicas e viagens de descoberta pessoal (quanto mais não seja para o leitor que souber entender o que lhe está a ser comunicado). O que ele terá que descobrir é, como dizia o oráculo de Delfos, a si próprio e só assim poderá emergir deste caminho que escolheu, e para o qual foi escolhido, para regressar aos que o querem, amam e precisam dele e do seu conhecimento. É importante notar que para quem quiser fazer uma leitura mais existencialista que espiritual o livro também permite essa abordagem e sem dúvida que aborda uma série de temas sociais quentes para a nossa sociedade nomeadamente a de definir quem somos, o que queremos vir a ser, e a que preço (uma mistura fascinante de tolerância, diversidade, crescimento, criatividade e realismo).

Uma edição anterior - nada má mas claramente ultrapassada pela nova.

Quanto às personagens Will é o nosso intérprete quase exclusivo do que acontece aparecendo por vezes alguns outros que emprestam a sua voz para criar grande realismo. Desde os pais de will (Hugo o professor de filosofia falhado e amargo que rejeita o filho e tudo o que ele sempre foi e se tornou e Eleanor uma figura materna remota quando não ausente), passando por Patrick e Drew (os dois amores da sua vida, um no passado e outro num potencial futuro), Adrianna e Frannie as duas amigas e confidentes em vidas diferentes e claro Rosa e Jacob os dois seres que desconhecem a sua própria natureza mas cujo poder toca todos os que entram em contacto consigo. Da interacção de todos eles e acima de tudo da busca de Will nasce um apaixonante relato de busca pessoal em que ao deixarmos a história desenrolar-se o fantástico volta a aparecer com cada vez mais força à medida que as páginas passam ajudando a dar força à mensagem do autor. Tenho que reconhecer que “Sacrament” é possivelmente um dos livros menos usuais e mais exigentes que li nos últimos tempos e devo igualmente admitir que houve alturas em que não sabia muito bem o que o autor queria fazer com a história e tive dúvidas quanto à qualidade do texto mas no fim foi uma autêntica viagem, a vários níveis, que não abdicaria de ter.

 

Nota: 10/10

O que é “A Voz do Fogo”? Esta é a pergunta que surge a qualquer leitor que dê uma vista de olhos pelo livro. Não é claro pela apresentação o que temos nas nossas mãos. Um conjunto de histórias horripilantes e fantásticas? Um romance dividido em doze partes com intervalos temporais e mudança de personagens? Um exercício esotérico por parte de Moore? Uma crítica social? Na minha opinião as quatro leituras estão correctas mas não de forma igual. É preciso compreender que Moore é acima de tudo um esoterista moderno e um artista. Percebendo isso vemos que os elementos crítica social e satisfação dos gostos mais fantásticos devem ser interpretados sobre essa luz e a situação fica ainda mais clara quando acabamos o último capitulo (que serve quase como um confessionário do autor ao leitor) e recebemos a interpretação do autor:

“ [A Voz do Fogo] É sobre a mensagem vital que os lábios ressequidos de homens decapitados ainda murmuram; é o testamento de espectrais cães pretos escritos em mijadelas nos nossos pesadelos. É sobre ressuscitar os mortos para que nos contem os seus segredos. É uma ponte, um local de passagem, um ponto gasto no tecido entre o nosso mundo e o mundo inferior, entre a argamassa e a mitologia, facto e ficção, uma fina ligadura deteriorada. É sobre a poderosa glossolalia das feitiçarias e a sua revisão mágica dos textos que vivemos. Nada disto pode ser explicado por palavras.”

Uma capa interessante

Ao longo desta tentativa de reanimar o passado e o mito Moore premeia o leitor com verdadeiras pérolas que lemos num ápice e que geralmente nos deixam presos quando passamos ao próximo capitulo e a outras personagens (esse é um dos meus pontos de implicação com o formato “short story”, quando o material é bom deixa o leitor a salivar por mais o que pode ser frustrante). A qualidade não é constante sendo que alguns dos capítulos pareceram-me muito mais interessantes que outros (os meus capítulos preferidos são “Coxeando até Jerusalém” e as “Tricotadeiras Fessureiras”) mas como um todo a obra é impressionante por entrelaçar elementos ao longo de 6000 anos e por nos dar uma sensação da importância e substância do mito – aqui tenho que fazer uma nota pessoal, qualquer livro que nos consegue fazer sentir um mito em vez de simplesmente o compreender intelectualmente de forma fria e analítica merece os meus parabéns.

A capa da edição anterior, que na minha opinião é bem mais fraca que a actual.

Northampton transforma-se no áxis mundi da narrativa e de um inferno urbano começa a metamorfosear-se numa encruzilhada espácio-temporal vital para o mundo. É uma refundação da cidade no plano das ideias, o que só pode merecer a minha admiração já que respira um novo fôlego moral a uma comunidade que desesperadamente precisa dele. Alan Moore actua como muito mais que um “filho pródigo” que escreve sobre o seu local de nascença; ele é um verdadeiro xamã moderno para a sua cidade ao inspirar significados e providenciar saídas para a situação presente.

A capa da versão original.

Como últimas notas é de referir a continuidade que Moore dá às ideias que desenvolveu no campo da BD (quem o conhece encontrará uma e outra vez elementos familiares que são reinventados para encaixar neste novo meio de comunicação) e o excelente trabalho de David Soares (que é possivelmente o meu autor de língua portuguesa favorito) como tradutor e compilador de notas literárias que servem de guia e referência para os que não estão familiarizados com a visão “Mooriana” do Universo.

Nota: 9/10