Archive for the ‘Suspense’ Category

Nuns Estados Unidos diferentes dos actuais, todos os anos são seleccionados 100 adolescentes masculinos para participar numa marcha até à morte. Não podem andar a menos de quatro milhas por hora, não podem parar ou abrandar por mais de 30 segundos ou recebem um aviso, não podem receber mais de 3 avisos. Ao fim destes 3 avisos, uma tentativa de fuga ou desobediência, serão mortos. A marcha continua, dia e noite, até restar apenas um. Esse atleta tem direito a pedir tudo o que desejar sendo adorado por milhões de americanos como um herói. Este é o novo desporto sangrento que apaixona uma América totalitária. Ray Garraty, o nosso herói, é apenas um jovem com uma vida mais complicada que a maioria. A sua mãe teve que o criar sozinha depois do pai ter sido morto por um governo totalitário que reprime qualquer opinião dissidente. A amargura é o que caracteriza grande parte da sua infância e talvez tenha condicionado a sua decisão de se candidatar à corrida. Seja como for, está condenado a acabar o que começou. Ou vence os outros 99 concorrentes ou tem que aceitar a sua própria morte ao desistir.

A minha edição. Bastante boa. DIscreta. Sóbria. Algo escura.

Devo dizer que estava à espera de um livro diferente. Stephen King é um autor mais conhecido pelos seus contos sobrenaturais e de horror e esta história tem pouca relação com esses temas. É “apenas” a história de alguns jovens que tomaram uma decisão estúpida que lhes pode custar a vida antes dela ter realmente começado. O estranho é que apesar de tudo o livro é algo viciante. A história não é particularmente complexa mas a escrita tem uma fluidez que nos faz continuar a ler mesmo quando pensamos que estamos a perder interesse. Isso é a marca de um bom escritor. O facto torna-se ainda mais notável porque esta foi a primeira obra que King escreveu, quando ainda era aluno da Universidade de Maine (o Estado onde ele aliás situa a sua história) em 1966 e 1967. Talvez por ser tão novo (e estar tão próximo da idade das suas personagens) consegue retractar de forma extremamente convincente todas as angústias que definem o fim da adolescência – de um ponto de vista global são pouco interessantes, mas isso é apenas porque os adolescentes são, regra geral, objectos de estudo pouco interessantes. Usando o mecanismo do esforço físico que as personagens despendem o autor trás à superfície a análise da curta vida destes jovens pelos seus próprios olhos. Tecnicamente está bem estruturado e executado.

Uma versão mais antiga. Decente mas inferior.

Como disse acima os adolescentes não costumam ser material para as personagens mais interessantes do mundo, quanto mais não seja porque a maioria não teve ainda experiências de vida interessantes o suficiente para merecerem destaque, e isso nota-se nas personagens de King. De um ponto de vista mais psicológico e intimista terão sem dúvida o seu interesse mas em última análise são demasiado vulgares e mundanos para fascinarem o leitor. Mas, mesmo assim, existe um leque com alguma variedade. Temos Peter McVries, o principal amigo e “aliado” de Ray na corrida, sendo que os dois formam uma verdadeira amizade (e com potencial até para ser algo mais) no decorrer do livro. Gary Barkovitch, o miúdo ligeiramente psicopático que todos odeiam e que facilmente entre no molde do “vilão”. O estóico Stebbins, a personagem mais enigmática do livro – sabemos que há algo especial e secreto acerca dele e o autor soube manipular muito bem essa expectativa até quase ao fim do livro. E por fim o Major. Uma personagem quase sem falas. Que apenas representa o poder opressivo do regime que os força a continuar a correr. Aparece fazendo discursos hipócritas de apreciação do valor dos jovens mas, tal como o sistema que o criou, é na realidade perfeitamente indiferente ao seu destino. Para o ano será outro grupo de 100 e voltarão a correr até só sobreviver um. Os sentimentos dos jovens para com esta personagem são dos pontos mais interessantes da obra. Por um lado odeiam-no. Reconhecem o seu estilo de “mal banal” que se esconde atrás de um uniforme para apagar as suas acções criminosas. Mas por outro lado, não conseguem deixar de o adorar como um ídolo. Os mecanismos de vinculação emocional que o regime criou parecem, por vezes, sobreviver até à experiência da morte. Por fim parece-me relevante referir a multidão que acompanha a corrida. Como símbolo não é particularmente subtil e representa o que se espera, a forma animalesca como as pessoas se alinham com os regimes e acções mais bárbaros desde que seja isso que é esperado delas socialmente.

Teria sido talvez mais interessante se King tivesse desenvolvido mais o lado político da narrativa e tivesse usado personagens mais complexos. De qualquer forma é um livro mais que recomendável e que se lê muito bem sem ser preciso estar preocupado em perder o fio à narrativa quando tem que se fazer uma pausa.

Nota: 7.5/10

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