Posts Tagged ‘Bruce R. Cordell’

Antes de começar o texto em si tenho que pedir desculpa aos leitores mais regulares dos Manuscritos Malditos pela minha ausência. Foram umas semanas complicadas que me obrigaram a dedicar bastante tempo a leituras fora do reino da ficção. Mas cá estou de volta com o comentário a mais um livro.

Plague of Spells é um livro introdutório ao universo de fantasia dos Forgotten Realms (o mesmo de Drizzt) mas mais especificamente é uma introdução a esse universo pós-“spellplague”. A morte da deusa da magia Mystra às mãos do seu rival, o deus louco Cyric, causou ondas por todo este mundo alterando tudo um pouco, incluindo as regras que regiam os poderes especiais de feiticeiros, sacerdotes e todos os que lidam com o arcano. Não é preciso muita descrição para os mais experientes perceberem que estamos perante mais uma mudança de edição do Dugeons & Dragons (esta é a quarta), sistema de jogo de roleplay que serve de base aos livros – quem tiver boa memória poderá lembrar-se que há uns anos atrás, quando saiu a segunda edição, o universo Forgotten Realms também sofreu outro evento cataclísmico, o “Time of Troubles”. Os novos livros (em que o Plague of Spells é o primeiro) servem dois objectivos; o primeiro é introduzir os jogadores a um mundo onde as coisas já não funcionam bem da mesma forma, e o segundo é relançar as histórias como ficção semiautónoma para os muitos leitores que não são roleplayers. Poderemos dizer alcançaram esses objectivos? Parcialmente penso que sim e é aqui que entramos no livro em si.

Até gostei da capa, tons algo estranhos mas dada a natureza dos adversários parece-me apropriado.

Raidon Kane é um monge que é apanhado no fogo azul que se seguiu à morte de Mystra quando acorda de novo faltam-lhe 11 anos de memórias. O mundo para o qual emerge (marcado pelo fogo azul e com poderes que ainda não compreende) não é o mesmo do qual partiu. Cidades inteiras desapareceram ou mudaram radicalmente de natureza, mares secaram, deuses morreram, muitos magos perderam o seu poder ao não se conseguirem adaptar às novas regras da magia e acima de tudo… a sua filha está morta. Sem objectivos e com uma imensa mágoa Raidon deriva até ser contactado por um estranho ser que lhe comunica a existência de um perigo nascente para toda a realidade… os aboleths (seres primordiais de outra dimensão com enormes poderes) estão a acordar e se isso acontecer destruírão este mundo para o recriar segundo as suas preferências dementes. Para os combater embarca numa busca de por uma arma poderosa que pode verdadeiramente destruir os seus adversários, a espada Angul. Noutro canto de Toril Japheth, um Warlock com um grave problema de adição a substâncias fatais, recebe uma missão do seu odiado empregador, deve largar âncora e recuperar para ele um poderoso artefacto (pertencente aos aboleth) que pode catapultar qualquer um para o trono de Impiltur. O que ele não contava é que a irmã do mercador que o emprega, Anusha (também ela marcada pelo fogo azul e com o seu poder especial), o seguisse secretamente. Uma reunião destes dois polos da história é inevitável à medida que as personagens são atraídas para a mesma fonte de demência e poder que é o estranho artefacto de nome Dreamheart.

Ahhh... que vontade de voltar a jogar!

É impossível dizer que o livro é perfeito ou que a história é inovadora. Há demasiadas restrições à escrita de Bruce R. Cordell (demasiadas referências obrigatórias para atingir os objectivos que mencionei antes) para que ele possa criar algo único. Mas mesmo assim é de reconhecer o mérito da tentativa. É certo que há uma certa falta de profundidade das personagens principais (em especial Raidon já que o perder a sua filha é insuficiente para o definir a si e às suas acções)  e que os vilões poderiam ter sido muito melhor pensados (é perdido tempo a desenvolver um que assumimos ser o principal só para alguns capítulos mais tarde ver esse trabalho todo ir pelo cano sem qualquer necessidade) mas mesmo assim é uma boa introdução ao novo Faerun e uma quest que ainda nos interessa apesar dos elementos demasiado convencionais (tornam-se mais patentes para o fim à medida que o “romance” floresce entre duas personagens). Por fim tenho que dizer que a transição para esta edição parece estar menos bem feita que a que foi realizada para o Time of Troubles, parece mais artificial e menos significativa mas sem ler mais livros deste universo posso estar a precipitar-me nesta conclusão. O melhor é concluir os outros dois livros da Abolethic Sovereignty, “City of Torments” e “Key of Stars”.

Nota: 6.5/10

Aviso: este livro fez-me lembrar o quanto gostava dos meus jogos de roleplay e por isso gostava de deixar um pedido aos leitores que por aqui passarem. Se alguém tiver um grupo de jogo de D&D na área de Lisboa que precise de mais um jogado por favor diga-me algo para o mail ( manuscritosmalditos@hotmail.com ) porque eu adorava experimentar a quarta edição.