Posts Tagged ‘Fantasia’

Antes de começar o texto em si tenho que pedir desculpa aos leitores mais regulares dos Manuscritos Malditos pela minha ausência. Foram umas semanas complicadas que me obrigaram a dedicar bastante tempo a leituras fora do reino da ficção. Mas cá estou de volta com o comentário a mais um livro.

Plague of Spells é um livro introdutório ao universo de fantasia dos Forgotten Realms (o mesmo de Drizzt) mas mais especificamente é uma introdução a esse universo pós-“spellplague”. A morte da deusa da magia Mystra às mãos do seu rival, o deus louco Cyric, causou ondas por todo este mundo alterando tudo um pouco, incluindo as regras que regiam os poderes especiais de feiticeiros, sacerdotes e todos os que lidam com o arcano. Não é preciso muita descrição para os mais experientes perceberem que estamos perante mais uma mudança de edição do Dugeons & Dragons (esta é a quarta), sistema de jogo de roleplay que serve de base aos livros – quem tiver boa memória poderá lembrar-se que há uns anos atrás, quando saiu a segunda edição, o universo Forgotten Realms também sofreu outro evento cataclísmico, o “Time of Troubles”. Os novos livros (em que o Plague of Spells é o primeiro) servem dois objectivos; o primeiro é introduzir os jogadores a um mundo onde as coisas já não funcionam bem da mesma forma, e o segundo é relançar as histórias como ficção semiautónoma para os muitos leitores que não são roleplayers. Poderemos dizer alcançaram esses objectivos? Parcialmente penso que sim e é aqui que entramos no livro em si.

Até gostei da capa, tons algo estranhos mas dada a natureza dos adversários parece-me apropriado.

Raidon Kane é um monge que é apanhado no fogo azul que se seguiu à morte de Mystra quando acorda de novo faltam-lhe 11 anos de memórias. O mundo para o qual emerge (marcado pelo fogo azul e com poderes que ainda não compreende) não é o mesmo do qual partiu. Cidades inteiras desapareceram ou mudaram radicalmente de natureza, mares secaram, deuses morreram, muitos magos perderam o seu poder ao não se conseguirem adaptar às novas regras da magia e acima de tudo… a sua filha está morta. Sem objectivos e com uma imensa mágoa Raidon deriva até ser contactado por um estranho ser que lhe comunica a existência de um perigo nascente para toda a realidade… os aboleths (seres primordiais de outra dimensão com enormes poderes) estão a acordar e se isso acontecer destruírão este mundo para o recriar segundo as suas preferências dementes. Para os combater embarca numa busca de por uma arma poderosa que pode verdadeiramente destruir os seus adversários, a espada Angul. Noutro canto de Toril Japheth, um Warlock com um grave problema de adição a substâncias fatais, recebe uma missão do seu odiado empregador, deve largar âncora e recuperar para ele um poderoso artefacto (pertencente aos aboleth) que pode catapultar qualquer um para o trono de Impiltur. O que ele não contava é que a irmã do mercador que o emprega, Anusha (também ela marcada pelo fogo azul e com o seu poder especial), o seguisse secretamente. Uma reunião destes dois polos da história é inevitável à medida que as personagens são atraídas para a mesma fonte de demência e poder que é o estranho artefacto de nome Dreamheart.

Ahhh... que vontade de voltar a jogar!

É impossível dizer que o livro é perfeito ou que a história é inovadora. Há demasiadas restrições à escrita de Bruce R. Cordell (demasiadas referências obrigatórias para atingir os objectivos que mencionei antes) para que ele possa criar algo único. Mas mesmo assim é de reconhecer o mérito da tentativa. É certo que há uma certa falta de profundidade das personagens principais (em especial Raidon já que o perder a sua filha é insuficiente para o definir a si e às suas acções)  e que os vilões poderiam ter sido muito melhor pensados (é perdido tempo a desenvolver um que assumimos ser o principal só para alguns capítulos mais tarde ver esse trabalho todo ir pelo cano sem qualquer necessidade) mas mesmo assim é uma boa introdução ao novo Faerun e uma quest que ainda nos interessa apesar dos elementos demasiado convencionais (tornam-se mais patentes para o fim à medida que o “romance” floresce entre duas personagens). Por fim tenho que dizer que a transição para esta edição parece estar menos bem feita que a que foi realizada para o Time of Troubles, parece mais artificial e menos significativa mas sem ler mais livros deste universo posso estar a precipitar-me nesta conclusão. O melhor é concluir os outros dois livros da Abolethic Sovereignty, “City of Torments” e “Key of Stars”.

Nota: 6.5/10

Aviso: este livro fez-me lembrar o quanto gostava dos meus jogos de roleplay e por isso gostava de deixar um pedido aos leitores que por aqui passarem. Se alguém tiver um grupo de jogo de D&D na área de Lisboa que precise de mais um jogado por favor diga-me algo para o mail ( manuscritosmalditos@hotmail.com ) porque eu adorava experimentar a quarta edição.

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A noite é perigosa. É à noite que os demónios saem do núcleo para atormentar uma humanidade em vias de extinção. Isolados em aldeias e pequenas cidades os humanos dependem de um sistema de runas se protegerem e manterem os monstros fora das suas casas ou muralhas. Mas nem sempre foi assim. Há mais três séculos a humanidade vivia num estado de prosperidade e grande conhecimento científico que lhe permitia um bem-estar muito diferente do mundo primitivo em que agora vive. Mas nessa maré de progresso técnico algo tinha ficado esquecido, as lendas antigas. Elas contavam como os seres humanos desde os primórdios tinham sido perseguidos como animais selvagens por monstros que saiam à noite em caçadas sangrentas e como lentamente, ao descobrirem a escrita e as runas, emergiu um sistema de guardas que lhes permitiu primeiro manter os demónios à distância e finalmente combate-los. Mas tudo isto foi esquecido e não há memória das guardas mágicas que permitiam dar guerra às monstruosidades que dominam a noite. Neste mundo fracturado surgem três jovens que podem ser a chave para a recuperação da humanidade. Arlen, um jovem agricultor que não consegue aceitar que a melhor solução para a sua espécie seja esconderem-se como coelhos em tocas assim que o sol se põe. Leesha, a filha de um produtor de papel (um bem raro nos dias que correm) que encontrará uma vocação diferente da esperada que pode conter a chave de muitos conhecimentos julgados perdidos. E Rojer uma criança forçada a entrar no mundo adulto demasiado cedo e que descobrirá que consegue usar uma nova arma para manter os demónios à distância, algo que nunca ninguém teria sequer pensado até ele chegar.

Uma grande capa sem dúvida!

Adorei a premissa inicial deste livro. Um mundo semi-medieval (mas com ecos de outros tempos em que talvez a civilização humana tivesse um nível de desenvolvimento muito superior) em que a humanidade luta desesperadamente contra um adversário demoníaco que claramente é mais forte – quase que conseguia sentir ecos do jogo de PC Diablo. Mas apesar da minha disposição inicial ter sido de paixão o desenvolvimento do resto do livro não está à altura das espectativas apesar de existirem momentos muito bons polvilhados pelo livro. Temos um início bastante agradável em que somos lentamente introduzidos a este mundo ruralizado à força e rapidamente entendemos que Peter Brett não tem qualquer intenção de romantizar o campo e as pequenas comunidades (o que é um alívio), tudo é revelado tal como é. Mas passado alguns capítulos começamos a ter as primeiras indicações que nem tudo é tão bom como seria de esperar. O nível de detalhe da narrativa começa a tornar-se bastante escasso. Acabamos por ter uma história com bastantes saltos temporais e cortes de perspectiva, nem sempre bem intercalados, que acabam por criar um ritmo estranho não só para os eventos para a própria evolução das personagens que recebem atenção desigual – de Rojer, para dar um exemplo, nem sequer consegui formar uma opinião devido à escassez de informação sobre a sua personalidade. Há vários momentos ao longo do livro em que pensamos que algo extraordinário vai acontecer para acabarmos desiludidos quando Brett escolhe o caminho menos interessante e mais previsível – por mais que uma vez consegui prever o curso da história com vários capítulos de antecedência, o que não é de todo positivo. Há também alguns elementos recorrentes que a partir de certa altura se tornam simplesmente estranhos. A obsessão com procriação (presente até na linguagem escolhida) pode ser compreensível num mundo em que os seres humanos não abundam mas sinceramente vai demasiado longe (ao ponto de parecer ser o grande objectivo de vida de todas as personagens… é normal que a maioria das pessoas pense isso mas não é interessante em termos de desenvolvimento das personagens). Um segundo elemento que faz “comichão” é a que a toda a cultura de Krassia (uma das cidades estados independentes) é no fundo a cultura islâmica decalcada, sem tirar nem pôr. Se fosse só inspirada acharia fantástico (como Robert Jordan fez tão espectacularmente) mas levantada como um todo sem grandes alterações revela uma falta de criatividade ou um desejo de criar na maioria dos leitores um sentimento automático de antagonismo.

A capa internacional - muito, muito, mais fraca. Um bom exemplo de uma capa genérica com uma misteriosa figura de capuz *bocejo*

Pelo lado positivo tenho que admitir que apesar das falhas o autor continua a manter-nos interessados no que está a acontecer e nunca nos sentimos desligados do que poderá vir a suceder nas próximas páginas (isso explica a facilidade de leitura). Também sabe criar suspense suficiente sobre certos temas para nos deixar curiosos pela continuação já que há bastantes questões que ficam por responder no fim do volume. E apesar de no fundo nem Leesha nem Arlen serem personagens coerentes ou inteiramente convincentes nas suas escolhas são interessantes. São diferentes o suficiente do mundo que as rodeia para se destacarem e assumirem um papel importante a moldar os eventos relatados no livro. Em conclusão: trata-se de um livro com imenso potencial que não foi realizado (além de que 600 páginas para um livro que é apenas uma introdução é um exagero) mas que mesmo assim tem pontos de interesse que o tornam fácil de ler e nos deixam com vontade de saber como as coisas irão acabar.

Nota: 6.5/10

Ian Esslemont fez parte da criação do mundo de Malazan Book of the Fallen desde o início juntamente com Steven Erikson sendo que ambos foram jogadores no RPG que deu origem à mais complexa obra de fantasia moderna. Ao fim de alguns livros da saga de dez volumes de Erikson aparece o primeiro livro de Esslemont, Night of Knives. Cronologicamente seguimos um evento que apenas é aludido na saga principal, a ascensão ao estatuto de deuses do antigo Imperador Kellanved e o seu mestre de assassinos Dancer – tudo se passa numa só noite, a noite da Lua da Sombra em que os Warrens ficam mais abertos a todos. Depois de anos dedicados à conquista de um magnífico império estes dois estranhos amigos querem objectivos mais interessantes que o mero poder temporal e estão dispostos a absolutamente tudo para alcançar novos patamares de poder. Claro que contarão com a oposição de vários poderes que têm objectivos dissonantes. A começar pela Deadhouse que funciona como guardiã do poder que procuram e não hesitará em usar todas as criaturas que aprisionou ao longo de milénios para impedir as ambições do antigo imperador e passando, claro, por Surly, a comandante do corpo de assassinos do Império, a Claw, que passou anos a destruir a antiga organização de assassinos de Dancer (os Talon) e que à medida que o líder imperial se centra na sua investigação mágica e objectivos sobrenaturais vê a sua hipótese de usurpação de todo o Império tornar-se uma realidade. Fica prometida uma batalha entre campeões e deuses que terá como palco a pacata cidade de Malaz, antiga capital Imperial e actualmente um porto insignificante de quinta categoria situado numa ilha onde nada de relevante ocorre há décadas. É nesta localização que as duas personagens principais deste livro (as únicas perspectivas às quais o leitor tem acesso directo) se encontram quando são arrastadas neste remoinho de poder e sangue. Primeiro temos Temper, um veterano de muitas campanhas que por razões desconhecidas acabou por preferir passar os seus últimos anos no activo como um simples guarda de uma fortaleza sem qualquer relevância estratégica; em segundo lugar temos Kiska uma jovem ladra que anseia por ter uma oportunidade de entrar ao serviço do Império para poder ter a vida de aventura com que sempre sonhou. Estarão estes dois pobres diabos irremediavelmente perdidos numa luta que claramente está acima do seu nível? Ou conseguirão sobreviver até o sol nascer?

 

Uma boa capa!

Este livro à primeira vista prometia ser um verdadeiro petisco para os fãs de Malazan. A história é muito interessante (a ascensão de Shadowthrone (kellanved) e Cotillion (Dancer) a patronos do Warren das sombras é algo que deixa qualquer leitor a salivar), o palco escolhido é sugestivo porque é o primeiro sítio que aparece descrito, de forma geral, na introdução do primeiro volume, Gardens of the Moon, e até as personagens parecem ter potencial apesar de uma delas (Kiska) cair no estereótipo da Jovem aventureira que tem que conquistar o seu lugar no mundo – Temper é bem mais interessante porque é misterioso, há profundidades da sua vida às quais não temos acesso imediato e vão sendo desvendadas à medida que a história progride. Mas a verdade é que existem algumas falhas que impedem Night of Knives de chegar ao seu potencial pleno. A começar pelo ritmo de escrita do autor. Não é uniforme nem rápido o suficiente e no início isso é dolorosamente frustrante já que demora quase cem páginas a montar o cenário para o resto livro (dado que o livro tem 450 páginas é bastante espaço dedicado essencialmente a coisas que não avançam a narrativa); já mais à frente o ritmo torna-se frenético sendo que temos imensa acção mas desligada de um contexto mais vasto que nos permita perceber o objectivo de tanto combate e fuga – há tanta informação que é retida do leitor por tanto tempo que acaba por prejudicar o envolvimento pessoal com o que se está a ler. Mas para mim a principal desilusão deste livro foi que a presença de Kellanved e Dancer é quase não existente, aparecem de raspão de forma muito ligeira e sinceramente penso que todos os fãs esperavam que este livro iluminasse mais um pouco estes dois personagens tão curiosos. É verdade que Temper acaba por conseguir compensar um pouco ao termos acesso a episódios marcantes do seu passado e até descobrirmos um segredo sobre outra personagem importante Dassem Ultor, o antigo campeão imperial que caiu em combate no continente das Sete Cidades.

 

Uma capa alternativa, parecida mas menos famosa.

Apesar de tudo isto é um bom livro que nos dá mais a conhecer sobre o universo Malazan e que até revela alguns segredos (aparecem vários personagens importantes por curtos momentos) e lança pistas para eventos futuros e mesmo que não entre pelas áreas que eu julgo mais interessantes a verdade é que é profundo o suficiente para a história nos prender (apesar de eu admitir que Kiska é uma personagem bastante fraca) até ao fim. As cenas de combate na rua (não revelo detalhes para não estragar a leitura) estão bastante bem feitas e têm uma atmosfera muito bem construída, sente-se mesmo o medo e desespero de alguns personagens. Resumindo, apesar de não ser um livro perfeito é um bom suplemento à série principal e faço questão de ler segundo livro de Esslemont, The Crimson Guard.

 

Nota: 7/10

 

Ps: recomento a todos que leiam este livro depois do quinto volume de Malazan Book of the Fallen, Midnight Tides.

Solomon Kane

Posted: Março 17, 2011 in Fantasia, Filme, Horror, Sobrenatural
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Esteticamente seria complicado pedir melhor.

Transformar os heróis literários, e da BD, em filmes parece ser uma tendência bastante constante dos últimos dez anos e tem produzido resultados de qualidade variável, oscilando entre os horríveis Fantastic Four e o épico V For Vendetta (que mesmo apesar de Alan Moore se ter desvinculado do projecto consegue, na minha opinião, ser um dos melhores filmes políticos dos últimos tempos). Neste caso pegaram num clássico da aventura Sword and Sorcery de Robert E. Howard (o mesmo homem que criou Conan o Bárbaro) Solomon Kane. Um herói sombrio e relutante que se condena a si próprio por um acto pelo qual não é verdadeiramente responsável e em virtude disso escolhe viver como um corsário e mercenário na Europa do século XVI. Isto até que a o diabo decide que o Kane já se divertiu o suficiente e envia um dos seus servos para recolher a sua alma. Sem aceitar tal destino e muito menos o preço de um acordo que nunca fez Solomon Kane escapa e renúncia à violência vivendo a partir dessa altura como um simples monge para compensar os seus anos mais violentos. Mas claro que as coisas não são tão simples. Em Inglaterra uma força negra assola o país sendo que cada vez mais são arrastados para um culto negro com cada dia que passa. Os monges sabem tudo isto e pressentem que o seu mais recente irmão é a arma que deus escolheu para enfrentar estes tempos perigosos. Arrastado de novo para o mundo secular em que não lhe resta senão o combate contra a escuridão crescente Solomon tudo fará para encontrar um novo caminho para a sua vida e fé.

 

The Reaper has come to claim you...

O elenco está muito bem escolhido sendo que James Purefoy é um Solomon Kane convincente, um peregrino, homem de deus arrependido que tem que encontrar um caminho para a redenção que não passa pelo que ele desejaria, o abandono da guerra. Os momentos de indecisão da personagem estão bem espaçados e as mudanças que surgem fazem sentido no desenvolvimento da história (definitivamente não estamos perante um herói simples ou unidimensional). William Crowthorne (Pete Postlethwaite em bom estilo, como é habitual) e sua família servem não só como motivador do centro da trama (o tradicional, batido e cansativo, resgate da donzela para a devolver à família – mesmo assim o filme resiste à criação artificial de um romance o que é um alívio) como serve também de explicação para o espectador, e para o próprio Kane, sobre o que é uma vida normal e qual é o seu caminho. Nenhuma aventura heróica está completa sem uns vilões e neste caso temos três. O primeiro é Malachi (Jason Flemyng) o feiticeiro que está por detrás do maléfico culto e só aparece quase no fim sendo de resto apenas uma presença ameaçadora mas vaga (um pouco como a figura do Imperador na saga Star Wars); o segundo é o general das forças de Malachi que não tem nome sendo apenas um enorme guerreiro que usa sempre uma máscara (à la Darth Vader); e por fim a própria natureza dos homens que se convertem a este perverso culto cedendo às suas piores pulsões. Como um todo é um alívio ver um filme com actuações dignas desse nome e que mesmo assim não tem medo nem vergonha de fazer cenas de acção emocionantes.

 

É isto que o Sanctum sanctorum de um ser diabólico é suposto ser.

Para uma adaptação de uma personagem derivada de escrita pulp o filme está muito melhor do que aquilo que me atrevi a esperar – e fiquei muito desiludido quando este file saiu para distribuição geral e quase nenhum cinema o colocou, mesmo que não se goste dos elementos negros e taciturnos, ou da complexidade, das personagens sobra sempre um bom filme de acção, fico com a impressão que com um pouco mais de investimento em publicidade este filme poderia ter sido um grande sucesso comercial. Há introspecção suficiente para tornar Kane e os que o rodeiam em seres reais com quem sentimos empatia e em quem depositamos esperança mas o lado do combate (e alguns efeitos especiais bem feitos e bem espaçados – usados em moderação têm um efeito mais interessante do que as orgias de CGI que temos visto nos últimos conseguem – sim estou a olhar para ti “Avatar”) não é descurado e consegue dar momentos de adrenalina à história. Penso que o realizador (Michael Bassett) soube equilibrar tudo muito bem criando algo que é fácil de ver mas ao mesmo tempo é bastante inteligente e variado. Por acaso até não me importava de voltar a acompanhar Solomon Kane noutras aventuras se a qualidade for esta 🙂

 

Nota: 8.5/10

Debaixo dos Reinos Esquecidos há vida. Numa imensidão de túneis envolvidos numa escuridão cavernal perpétua habitam muitas raças diferentes. Umas boas, outras más e algumas simplesmente indiferentes a conceitos morais. Mas de todas estas os Drow, elfos negros, são a mais temida. A sua sociedade existe por obra de uma Deusa cruel e louca, Lolth a Rainha Aranha, que só reconhece a força e o caos como princípios e instiga os seus servos aos mais cruéis actos de agressão e traição como forma de provar o seu valor e devoção. As cidades Drow são antros de conspiração e violência em que dezenas de casas nobres aspiram sempre a um lugar mais elevado na hierarquia da cidade, tudo com a bênção de Lolth, afinal de contas se as casas mais fortes não conseguem defender a sua preeminência então não a merecem e devem ser destruídas até não sobrar uma única criança dessa linhagem. Menzoberranzan é uma destas cidades. Um sitio governado pelas sacerdotisas da Rainha Aranha em que os machos Drow servem apenas para a guerra e procriação. Neste sitio esquecido pela luz, amaldiçoado pelos elfos da superfície e inundado de sangue pelas traições dos elfos negros nasce uma criança diferente. Drizzt Do’Urden, filho da Matrona Malice da casa Do’Urden e de Zaknafein mestre de armas da mesma casa. Um príncipe da nona casa de Menzoberranzan que deverá seguir a longa tradição da sua espécie, uma vida dedicada à ascensão social e tentativas de apaziguar o ódio infernal da deusa aranha. Mas Drizzt parece ser diferente. A sua sede de batalha não o cega à maldade do seu povo. A sua honra não se satisfaz com a vida traiçoeira da cidade e a sua devoção certamente não vai para a deusa que a seus olhos condenou todos os elfos negros ao ódio de praticamente todas as outras espécies inteligentes. Mas poderá tal diferença sobreviver num lugar que é a encarnação do mal? Poderá existir uma excepção a um povo moralmente cego?

Adorei esta capa!

Foi com grande antecipação e prazer que li este livro. Ou melhor, que reli. Já conhecia o trabalho de R. A. Salvatore há muito tempo (sendo ele e Raymond E. Feist os responsáveis por me ter interessado pelo fantástico há tantos anos atrás) e quando soube que ia ser traduzido tive a certeza que queria regressar ao mundo de Drizzt. Há algo de confortável nesta personagem que nos faz voltar tantas vezes às suas façanhas e dilemas, é quase como um regresso a casa. O livro em si está divido em cinco partes que nos contam a história deste elfo negro tão especial desde o seu nascimento até à sua maioridade sendo que cada parte tem até um pequeno texto introdutório escrito na perspectiva de Drizzt sobre o que sentiu nessa fase da sua vida (é um toque bastante inteligente por parte de Salvatore porque injecta bastante sentimento no personagem e prepara o leitor para o que aí vem). A evolução segue a um ritmo algo acelerado sendo que temos apenas relances momentâneos sobre as várias décadas da vida inicial de Drizzt (com uma esperança de vida de sete séculos não será de estranhar que a noção de tempo seja algo diferente nesta narrativa), desde o momento que nasce e escapa por uma unha negra a ser sacrificado à Rainha Aranha, passando pela sua educação dentro da sua casa nobre a cargo de vários membros da sua família (a irmã Vierna, uma sacerdotisa como não podia deixar de ser ao se tratar de uma fêmea nobre Drow, e Zaknafein, seu pai e instrutor marcial), atravessando a sua formação na academia militar da cidade e as suas façanhas enquanto jovem indeciso à procura de si mesmo num mar de mentiras e traições.

A velhinha primeira edição em inglês.

Boa parte do livro desenrola-se no rescaldo de um ataque da casa Do’Urden à cada DeVir que deixou um sobrevivente nobre que sabiamente optou por permanecer no anonimato ao longo de décadas até ser descoberto pela matrona da quinta casa da cidade que o recruta à força para impedir a ascensão dos ambiciosos Do’Urden. Parecendo uma história de aventura com bastante combate e magia à mistura (e Salvatore tem um talento incrível para tornar os combates reais para o leitor) o autor escolhe abordar uma série de temas que não são nada simples. O papel da raça ou nacionalidade na definição das nossas lealdades, o respeito à tradição, a discussão eterna entre a escola filosófica que defende que o meio dita o que somos e a que defende que existe algo autêntico que é só nosso e que o meio é incapaz de mudar, a própria autenticidade da emoção e mesmo o valor moral da acção que apesar de boa é condenada socialmente. Não que isto seja abordado de forma académica e por estes nomes mas estas temáticas estão subjacentes a tudo o que Drizzt faz e pensa, o seu caminho ao longo desta estrada perigosa, e possivelmente letal, é a resposta do autor a todas estas questões. Se o leitor escolher fazer essa leitura poderá até sentir-se interpelado a comparar, na sua devida proporção, as escolhas deste solitário elfo negro com as suas próprias. Somos morais ou somos apenas aquilo que esperam de nós?

 

Nota: 9/10

 

 Ps: Entretanto a Saída de Emergência já publicou o segundo volume desta trilogia, “Exílio”. Só posso esperar que continuem a publicar a saga deste personagem tão carismático até termos a obra na totalidade em português – de momento penso que já está prevista a edição não só do volume final desta trilogia como o lançamento da seguinte composta pelos livros seguintes, “The Crystal Shard”, “Streams of Silver” e “The Halfling’s Gem”.

Rand al’Thor, o Dragão Renascido, reclamou o que é seu de direito. Cumprindo profecias de há três mil anos ele fez a fortaleza de Tear cair pela primeira vez desde que o mundo foi devastado pela loucura que infecta os utilizadores masculinos do Poder. Utilizando um poder que mal consegue compreender e utilizar Rand atravessa as montanhas e no deserto une metade dos clãs Aiel. Neste ponto começa o nosso livro. Muito já foi alcançado mas não está sequer perto de ser suficiente. Uma nação serve o Dragão e metade do povo exilado no deserto já o proclamou como o salvador mas falta muito mais. No fim, antes da batalha final, Tarmon Gai’don, contra Shai’tan na qual Rand morrerá, todas as nações e povos do mundo terão que servir o Dragão Renascido, é a sua única hipótese de salvação. Mas as trevas não estão à espera passivamente. Os Perdidos (Aes Sedai, ou utilizadores do Poder, mais poderosos da Era das Lendas há mais de três mil anos tornados imortais pela sua traição à Luz) estão soltos de novo e cada um conspira para não só destruir aquele que os poderá travar como para acumular o máximo de poder possível; uma deles, Lanfear, possui mesmo uma paixão por Rand já que muito antes de ser o Dragão Renascido ele foi Lews Therin Telamon, o Dragão, amante de Lanfear antes de ela se passar para o mal. Entretanto os sete selos que formam a prisão do Grande Senhor da Escuridão enfraquecem a cada dia que passa e a sua libertação parece eminente. Como se isto não fosse suficiente até aqueles que não servem a sombra recusam-se encarar a realidade; a Torre Branca (as Aes Sedai femininas que conservam a capacidade de usar o Poder sem enlouquecer) conspira para domar Rand acabando apenas por conseguir fracturar-se a si própria e iniciar uma guerra civil; os Capas Brancas, seguidores fanáticos da Luz (segundo a sua própria opinião), não toleram que qualquer homem se sobreponha à sua instituição na defesa do bem e muito menos que exerça mais poder que eles; do outro lado do mundo os Seanchan, em tempos parte do maior império do mundo, pensam apenas em reclamar o que em tempos lhes pertenceu e parecem até ter esquecido as lendas e tradições que os protegem contra a Sombra, incluindo o dever de servir o Dragão Renascido quando o Fim chegar; e finalmente até os próprios seguidores do profeta do Dragão parecem estar a decair numa espiral de violência e fanatismo sem sentido que só pode acabar mal.

Uma boa edição sem precisar de imagens.

Se há algo que temos que admitir ao ler Robert Jordan é que o nível de detalhe que inclui na sua obra é impressionante. A junção de elementos tipicamente ocidentais (toda uma série de mitologia à la Tolkien) com orientais (sociedades com toques orientais, o conceito de saidin e saidar que são reflexos de yin e yang) é feita de forma convincente tornando-se um todo coerente e absorvente. Mais que isso, só o número de personagens e eventos seria complicado de gerir para qualquer outro autor (até o próprio Jordan parece sentir algumas dificuldades em manter tantas bolas no ar porque um dos heróis principais da série, Perrin, nem sequer é mencionado neste livro). Foram estes dois factores que me fizeram ficar interessado pela série Wheel of Time quando a comecei a ler e me fizeram esquecer os elementos demasiado tradicionais da narrativa, que poderia ter facilmente caído no género da imitação de Tolkien durante os primeiros livros, e asseguraram um espaço mental próprio dentro de mim. Os primeiros quatro volumes foram crescendo em qualidade terminando de forma impressionante no quarto volume, The Shadow Rising, e sinceramente esperava que pelo menos o nível tivesse sido mantido. Não foi o caso. Há uma súbita queda na qualidade deste livro quando comparado com o resto da série que sinceramente me deixou algo surpreso. É verdade que a leitura demorou bastante tempo porque tive também uns dias doente e que se calhar a leitura de Midnight Tides está muito recente na minha memória e comparei os dois livros de forma não intencional mas sejam qual forem os factores que possam mitigar a minha desilusão a verdade é que a minha experiência como leitor foi muito mais fraca neste volume. Há uma constante repetição de tiques nervosos por parte das personagens (como se isso constituísse carácter ou personalidade) e recapitulações mentais a cada capítulo do que se passou para trás e isso começa a tornar a leitura monótona. Além disso a história pura e simplesmente não avança sendo que a primeira metade do livro (especialmente o que se passa no deserto através da perspectiva de Rand e da sua comitiva) é quase que dispensável e só acabamos por encontrar resolução de alguns eventos nas últimas 300 páginas – um número interessante porque sinceramente era esse o número de páginas que qualquer editor que tivesse tido coragem de falar com Jordan lhe deveria ter dito para cortar, não fazem falta, não acrescentam à narrativa e a partir de certa altura o volume de informação repetida ou irrelevante torna-se irritante.

A nova edição - ainda não tenho certeza se gosto...

A narrativa acaba por evoluir, a custo, e acabamos por ter direito a uma boa história com duas perspectivas. Uma segue Rand, Egwene, e Moraine no deserto sendo que o primeiro luta para cumprir a sua responsabilidade, a segunda para aprender os poderes dos sábios do deserto (a versão aiel das Aes Sedai) e a última para tentar ensinar a Rand tudo o que ele precisa de saber. A segunda perspectiva segue Nynaeve e Elayne na sua fuga de um dos Perdidos e por fim da guerra civil que divide a Torre Branca onde ambas estudavam (juntamente com Egwene para vir a ser Aes Sedai) sendo que acabamos por ter uma série de peripécias por vezes alarmantes, por vezes trágicas e às vezes mesmo divertidas envolvendo as duas amigas. Pessoalmente achei a segunda linha de desenvolvimento mais interessante quanto mais não seja porque além de mais divertia é menos atabalhoada (a parte do desenvolvimento emocional das personagens que o autor insiste mais com Rand e as suas paixões é… má…) que a segunda e avança a uma passo menos lento. No fim apesar de me ter divertido um pouco e ter a certeza que vou continuar a ler a série fiquei com um gosto agridoce na boca. Esperava melhor e espero que próximo volume, Lord of Chaos, compense.

 

Nota: 7/10

 

Ps: em Portugal os primeiros quatro volumes da Wheel of Time estão traduzidos pela Bertrand que entretanto optou por descontinuar a série.

Steven Erikson é um autor que redefiniu o significado de “épico” com a série Malazan Book of the Fallen. O alcance e escala que utiliza são esmagadores e extremamente raros num autor de fantasia. Um mundo rico em cult uras e política que não tem inspiração nos cansados, e previsíveis, estereótipos de Tolkien. Inicialmente tudo nos é apresentado em vários cenários diferentes (normalmente cada livro centra-se num único continente e num único set de personagens) que de alguma forma se ligam. Seguimos as aventuras de membros do Império de Malazan que tenta desesperadamente conquistar novos terrenos ou manter aqueles que já possui. Claro que em cada campanha de Malazan há segredos, civilizações e poderes que são desconhecidos e que complicam enormemente qualquer conquista ou pacificação. Mesmo internamente há muita dissensão no Império já que nem todos ficaram felizes quando a actual Imperatriz assassinou ou o seu predecessor e assumiu o cargo. Mais preocupante para o leitor em cada livro surge uma mensagem cada vez mais urgente, há algo de profundamente errado no mundo e Malaz provavelmente terá uma agenda que não tem como objectivo primário a mera expansão territorial.
Uma grande capa – escura e ameaçadora

 Neste livro em particular somos levados a um novo continente onde, pela primeira vez na série, Malaz não tem qualquer presença militar. Uma terra dividida entre o reino de Lether, uma nação obcecada com a noção de divida e com a acumulação de ouro, e os Tiste Edur um povo de seres com duração de vida enorme que são os filhos da Sombra e que vivem como nação há pouco tempo sendo que as diferentes tribos foram apenas recentemente unificadas pelo rei-feiticeiro. Agora estas duas nações estão numa situação de tensão crescente à medida que Lether se prepara para absorver e escravizar mais um povo. Mas serão as correntes financeiras suficientes para prender uma nação que rejeita visceralmente o valor do ouro? Além desta preocupação o rei-feiticeiro dos Edur possui um novo Deus. Um Deus aleijado. Um Deus louco. Um Deus que lhe prometeu poder para derrotar qualquer potência no mundo e em troca só pede agressão e violência sem limites.

 

A capa americana... um desastre.

Ao longo das mais de 900 páginas deste livro vamos conhecendo um leque de personagens absolutamente fascinante e cada uma mais excêntrica que a outra. Os irmãos Beddict; Hull, o mais velho, que serviu Lether como emissário a outros reinos e tribos e viu todo o seu trabalhado ser pervertido em nome da conquista e de ouro quer agora ajudar os Edur a sobreviver; Brys o campeão do rei Diskanar (de Lether) que é apanhado em intrigas palacianas que não lhe dizem nada; e Tehol um verdadeiro génio da finança e da manipulação que se prepara para fazer tombar o reino a partir do seu interior. Os irmãos Sengar; Fear, o mais velho, é o general do rei-feiticeiro; Binadas um mago de grande poder; Trull (que já apareceu no volume anterior, House of Chains, que cronologicamente descreve eventos posteriores a este livro) um guerreiro formidável que tudo observa e que recusa abandonar a sua consciência mesmo face à desaprovação de todo o seu povo; e Rhulad um jovem arrogante que ainda tem tudo para provar aos seus irmãos e à sua tribo. Além destas temos ainda um leque riquíssimo de personagens secundárias que vão desde deuses a soldados ou pedintes. Tudo misturado com uma qualidade que raramente é visto – quase todas as personagens estão cuidadosamente pensadas e são verdadeiramente únicas. Há que dizer que para os leitores que sejam facilmente frustráveis ou gostem de perceber toda a história do livro nas primeiras 50 páginas ler Erikson é um pesadelo. Felizmente não sou um desses leitores. É um autor que recompensa a perseverança e a curiosidade (e dada a qualidade da escrita as mais de 1000 páginas de cada volume parecem pouco) e que só aos poucos nos vai revelando o rumo que vai dar à história e como é que os vários elementos deste mundo fantástico funcionam. Um óptimo exemplo disso mesmo é o sistema de magia (usando Warrens, que são uma mistura de energias e dimensões paralelas) que criou que além de complexo e inovador é sempre algo que deixa o leitor curioso. Mais de uma história de pessoas é uma história de povos, civilizações, deuses e de princípios universais e isso dá-lhe uma capacidade de ser intemporal e universal que apela a um elemento que tem sido deixado de lado pela fantasia moderna, a tragédia. Os heróis, ao contrário dos filmes de Hollywood, não são todos pais de família que querem vingar um ente perdido nem são imunes ao poder e à corrupção ou, muitas vezes, são sequer pessoas de quem seja fácil gostar. Tal como na vida real são variados, com falhas e muitas vezes lutam contra algo que é inevitável. Pode parecer que isto pode dificultar a empatia com as personagens ou frustrar o leitor mas garanto que em vez disso sentimos um respeito crescente pela história e pelas lutas que Erikson nos relata.

 O livro parece acumular tensão sobre tensão durante a primeira metade e como uma tempestade desencadeia eventos e acções extremamente violentos na segunda. Como um furacão nada fica no caminho do destino que está traçado para estas personagens. Em termos de desenvolvimento da história há pontos algo lentos em que parece que o autor está a atrasar o inevitável mas graças a um sentido de humor algo negro até esses momentos se tornam mais agradáveis e descontraídos ainda que deixem o leitor sempre à procura de mais. A resolução final dos eventos deixa muitas cinzas e escombros e muitas questões por responder, como aliás não podia deixar de ser já que este é o quinto volume da série e existem mais outros cinco, apesar de na minha opinião ser um final satisfatório é talvez demasiado ambíguo e adia demasiadas revelações (de alguma forma o timing deste livro é pior que noutros anteriores).

 

Nota: 9/10

 

Uma das melhores surpresas que já tive.

Uma verdadeira epopeia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PS: Sei que não consegui fazer justiça a esta série numa crítica tão curta quando o material é tão rico mas queria deixar claro que considero que esta é a melhor série de fantasia que existe nos nossos tempos. Deixa a riqueza de elementos de “Wheel of time” de Robert Jordan no pó e a complexidade de “A Song of Ice and Fire” de George R. R. Martin a parecer uma construção feita com legos. Basta dizer que, na minha opinião, o segundo e terceiro volumes desta série (Deadhouse Gates e Memories of Ice) são dos poucos livros que merecem uma nota de 10/10.