Posts Tagged ‘Ficção Cientifica’

Neil Cassidy e Thomas Bible foram grandes amigos durante a maior parte da sua vida adulta; conheceram-se na universidade e a relação transformou-se numa constante na vida de ambos, mesmo nos períodos mais difíceis como aquando do divórcio de Thomas e Nora. O que os aproximou nesses primeiros anos foi uma paixão mútua por psicologia e neurociência que os levou até a desenvolver o que eles chamaram “A Discussão”, uma teoria que afirma que os seres humanos nada mais são que máquinas biológicas desprovidas de qualquer livre vontade sendo todos os comportamentos explicáveis apenas por referência biológica e sobrevivência de traços genéticos positivos. Ao acabarem os seus estudos Neil foi trabalhar para uma agência de segurança do governo americano na aplicação do condicionamento neurológico (quer a aliados quer a inimigos) e Thomas acabou por desenvolver uma tese baseada na “Discussão” que o levou ao ensino universitário. Ao fim de mais de uma década de uma relação mais ou menos distante Thomas, que no momento está simplesmente a apreciar uns dias de férias com os seus filhos (Ripley e Frankie), recebe uma visita inesperada por parte do FBI. É-lhe mostrado um dvd em que se pode ver Neil a torturar uma jovem através de alguma espécie de manipulação cerebral. Em choque Thomas tem de decidir se acredita nas autoridades ou no seu melhor amigo. Por um lado Neil parece um psicopata à solta que usa a tecnologia e conhecimento que acumulou na NSA para dar “lições” ao mundo sobre a natureza humana mas por outro lado há duas décadas de amizade e dedicação. Ou haverá mesmo? As descobertas amontoam-se rapidamente e Thomas vai ver a sua vida destruída à medida que a sua tese de dissertação de há tantos anos ganha vida perante os seus olhos.

Uma capa até algo interessante.

Estava bastante curioso em ler este livro porque o autor já tinha escrito uma série de fantasia (The Prince of Nothing) que teve uma resposta muito positiva junto dos fãs do género. Este livro parecia ser a introdução perfeita à escrita de Bakker, um thriller mais leve com toques de ficção científica que me ambientariam ao seu estilo de escrita. É triste admiti-lo mas saí imensamente frustrado deste livro. Adorei a premissa inicial do autor, gostei da forma como introduziu as personagens e o tema (“A Discussão” é explicada de forma mais ou menos realista e clara) mas depois desses primeiros capítulo comecei a ter dissabores. “A discussão” nunca é desenvolvida em toda a sua glória (e é um tema fascinante em si mesmo, que já ocupou filósofos, místicos, teólogos e escritores ao longo de milénios) sendo que ficamos sempre apenas com várias reiterações das suas premissas básicas. As personagens são um problema do princípio ao fim porque ou não são interessantes ou não são credíveis de todo. Pegando só nas duas principais temos um Thomas Bible que é supostamente um académico de excelência mas que acaba por se revelar um homem desinteressante sem grande profundidade intelectual e de uma boçalidade que tornaria mais credível como agente da polícia de Nova York e quanto a Neil pura e simplesmente está ausente da maior parte do livro sendo uma sombra indefinida que paira sobre a história.

Também está curiosa.

O próprio desenvolvimento da narrativa é feito de forma desequilibrada sendo que o inicio e o fim são extremamente rápidos e ricos em eventos e informação e o grosso do livro é maioritariamente aborrecido. Temos amplas oportunidades de saber a vida familiar de Thomas Bible, o quanto adora os seus filhos, o quanto se ressente da ex-mulher, a sua amizade com o vizinho do lado, reminiscências sobre o seu passado com Neil e Nora, enfim há tempo e oportunidades para tudo o que é irrelevante para a história que supostamente estaria a construir. Uma narrativa de ficção científica, localizada num futuro próximo em que a tecnologia permite uma perigosa aproximação a um estado de coisas em que o individuo deixa de ser autónomo, é raptada e transforma-se num banal relatório sobre a vida suburbana nos Estados Unidos. Sou da opinião que o autor teve um pressentimento quanto à falta de interesse do grosso da história e por isso presenteia o leitor, com uma precisão de relógio suíço, com episódios de sexo gratuito em espaços regulares o que ainda insulta mais quem o está a ler pela tentativa transparente de injectar relevância e interesse a um conto que ele não sabe como desenvolver. Se há algo que me levou a acabar este livro é o facto de achar a premissa inicial interessante (e o debate subjacente que poderia ter sido escrito…) e querer saber mais sobre a personagem Neil e algumas das suas vítimas.

Talvez a melhor versão - é pena as capas serem provavelmente mais interessantes que o livro em si.

Em resumo posso dizer que foi possivelmente uma das piores leituras que fiz nos últimos tempos e que me fez colocar em dúvida a leitura da obra de fantasia do autor. Uma ideia original, pessimamente desenvolvida e executada de forma desleixada quando não atabalhoada.

Nota: 4/10

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Foi com alguma expectativa que voltei à mente de Philip K. Dick depois de ter tido uma óptima experiência com o “The Simulacra” há relativamente pouco tempo. Neste caso as premissas do livro são ligeiramente diferentes, e talvez até mais simples, já que em essência temos um mundo dividido apenas entre duas facções, a maioria que corresponde aos que vivem em bunkers subterrâneos porque pensam que a superfície está a ser devastada por uma terrível guerra entre as potências ocidentais e a União Soviética e aqueles que vivem à superfície e que sabem a verdade, ou pelo menos parte dela, e que ajudam a perpetuar uma mentira para manter a maioria da população debaixo do solo. As coisas tornam-se interessantes quando se percebe o porquê desta situação e como alguns sobreviventes da tal guerra apocalíptica (que foi um evento real) souberam criar uma nova realidade em que vivem como senhores feudais em propriedades isoladas por milhares de quilómetros de zonas florestais (de facto depois da terceira guerra mundial a maior parte do globo é um parque gigante), rodeados de máquinas que os servem e usufruindo dos bens produzidos nos bunkers por populações que ainda pensam estar a contribuir para o esforço de guerra.

Uma capa não muito interessante mas sem ser das piores.

O conhecimento, ou a sua falta, é um tema que o autor gosta de abordar e este livro não é excepção. Uma maioria vive essencialmente na proverbial caverna de Platão, olhando para as sombras que os yance-men (a elite que vive à superfície) projectam através de mentiras televisionadas a nível global e tomando-as como a realidade em si – não falta sequer a comparação do autor em que o que uns sabem e outros desconhecem se transforma uma espécie de gnose política que facilita a escravização. É fácil perceber aqui a preocupação do autor com o controlo da informação (décadas antes de ser popular questionar o que é televisionado) e com as dimensões do “real”, daquilo que conhecemos verdadeiramente, ou pelo menos pensamos conhecer. Voltamos também a encontrar robots (usados primeiro como armas na guerra e depois como guerreiros para proteger as propriedades de cada yance-man) e mesmo um simulacro político (tal como no outro livro – apesar de este ser mais que um acessório e a sua história ter impacto real na trama) Há outros conceitos que fazem a sua aparência como a possibilidade de manipular ou ser manipulado pelo tempo, o poder de entidades essencialmente privadas sobre o bem comum entre muitas outras. O que mais me surpreendeu no livro foi a sua capacidade de introduzir uma trama política que o leitor pode seguir mais ou menos de perto e que não é apenas um pano de fundo para acção principal.

Uma versão anterior um pouco mais curiosa.

As personagens não são de todo centrais no sentido em que não nos é dado a conhecer muitos detalhes pessoais mas nem por isso deixamos de ter um conjunto interessante, variado e podemos conhecer o impacto que a acção tem neles quando isso serve para ilustrar os pontos que o autor considera importantes. Temos Joseph Adams um yance-man que é dos melhores escritores de discursos fictícios para o simulacro e que parece ainda sentir vestígios de culpa sobre o seu papel na manutenção de tal fraude. Nicholas St. James presidente eleito de um dos milhares de bunkers colectivos que terá que vir à superfície para salvar um dos seus cidadãos que é vital para manter a produção de guerra. Stanton Brose, decrépito e provavelmente meio senil mas ainda assim o homem mais poderoso e odiado à superfície, enquanto a mentira durar ninguém o poderá desafiar. Loius Runcible, milionário que propõe uma alternativa, igualmente desumana, para lidar com os milhões de humanos no subsolo e principal opositor de Brose. E finalmente David Lantano, um recém-promovido yance-man que parece deter um talento nunca visto para a escrita do simulacro mas cuja agenda é a menos clara de todos os participantes. Todos eles têm os seus momentos mais brilhantes e desempenham a função de alternar a perspectiva sobre os mesmos fenómenos para dar várias leituras, nem todas simpáticas mas todas autênticas.

Simplesmente bizarra 🙂

Tal como já havia comentado sobre este autor, os seus livros dão enganadoramente simples e curtos e não correspondem à riqueza conceptual do material que é enorme. Sobre o mesmo tema poderia ter sido escrita uma história várias vezes maior e mais bizantina mas dado que o autor parece quase ter urgência em transmitir algumas informações e dúvidas ao leitor sou levado a pensar que se trata de um mecanismo intencional para não diluir quer o material quer a mensagem. Se houvessem falhas a apontar teria que incidir sobre o fraco desenvolvimento de certos traços que teriam dado força e credibilidade às personagens (mais raiva por parte de Nicholas ao saber que está a viver uma mentira há 15 anos ou mais “vilania” por parte de Brose que é empurrado para o papel de vilão louco) e o final um pouco inconclusivo apesar de algo esperançoso. Depois desta leitura o último comentário que deixo é que estou rapidamente a tornar-me um fã de Philip k. Dick.

 

Nota: 8.5/10

 

Uma boa capa - há elementos que sugerem um ambiente vitoriano que me agrada muito.

 

“Cerca de 200 anos depois de ter criado o seu monstro, Victor Frankenstein (agora conhecido por Victor Helios), instalou-se em Nova Orleães. As suas experiências e a sua investigação estão cada vez mais sofisticadas; já não tem de roubar cadáveres em cemitérios para construir as suas criaturas, e desenvolveu uma tecnologia que lhe permite escapar ao envelhecimento. O seu plano consiste em propagar por Nova Orleães espécimes da sua Nova Raça de criaturas perfeitas, destinadas a exterminar e a substituir os «imperfeitos» seres humanos. A única criatura capaz de travar este plano diabólico é o misterioso Deucalião – o primeiro «monstro» criado por Frankenstein. Aparentemente imortal e indestrutível, Deucalião parece possuir também alma e uma consciência quase humanas. Mas será isso suficiente para impedir os planos do seu monstruoso criador?”

Nunca li nada de Dean Koontz mas este livro chamou-me mesmo a atenção e provavelmente será a minha próxima aquisição em português. É editado pela Contraponto (parte da Bertrand) e, a julgar pelas imagens no fim do livro, o lançamento dos dois volumes seguintes da trilogia já está previsto (esperemos que de forma mais ou menos rápida já que se torna muito frustrante ter que esperar eternidades por continuações que já foram escritas). Existe uma segunda trilogia sobre o mesmo tema e personagens que foi começada em 2010 com o livro “Lost Souls” estando o segundo e terceiro volumes previstos para 2011 e 2012 respectivamente – não existem datas previstas para a sua edição em Portugal (provavelmente dependerá do sucesso comercial da primeira série).

Este livro começa ligeiramente antes dos eventos finais do anterior livro da saga Horus Heresy, Galaxy in Flames, e muda a perspectiva dos anteriores três volumes ao introduzir uma nova personagem principal, Garro, Capitão na XIV legião, a Death Guard. Somos inseridos logo  na acção quando Garro comanda a sua companhia no ataque a uma nave alienígena que ousou entrar em espaço imperial. Este, não tão pequeno, episódio serve de introdução ao espaço mental deste soldado e é uma forma de adaptação, para o leitor, a outros espaços e realidades que não tinham aparecido antes nesta série – uma nova perspectiva sobre a grande cruzada do Imperador, conhecemos mais um Primarch, Mortarion o Senhor da Morte, e acima de tudo a uma nova cultura (cada legião tem o seu código e características especificas). Eventualmente somos levados aos eventos de Isstvan III onde Horus trai os astartes que permaneceram fieis ao Império bombardeando o planeta onde estão colocados com armas químicas. Garro e a sua equipa de comando conseguem evitar este fim por um acaso e recrutam a fragata Eisenstein na sua fuga para avisar a Terra da defecção do seu campeão. Mas a viagem promete ser dura. Para começar há outra equipa de astartes a bordo da nave que não partilha das lealdades do nosso herói; em segundo lugar o espaço Warp está a conspirar  contra esta viagem à medida que os deuses do caos despertam para o nosso universo e por último mesmo que consigam chegar ao seu destino não sabem em quem podem confiar esta informação vital para a sobrevivência da humanidade. Até onde chega a corrupção do caos?

 

Não é a minha capa favorita mas funciona.

A forma como o último livro da série acabava não deixava espaço para dúvidas que novas personagens teriam que ser introduzidas mas James Swallow quase que só nos introduz uma, Garro. O resto do cast do livro é composto por personagens secundárias da equipa do capitão que não têm autonomia ou interesse para serem desenvolvidas em grande detalhes e algumas que vieram de livros anteriores como a “Santa” Keeler ou o velho capitão Qruze mas que também não são desenvolvidas em detalhe, aliás estas são praticamente ignoradas ou descritas de forma superficial. Tudo assenta então sobre o heróico capitão e a sua missão de entregar a mensagem de aviso. Se fosse esta a história toda teríamos um problema  já que Garro não é assim tão interessante (pelo menos à partida) mas felizmente o autor percebeu isso e acrescentou uma dimensão nova à personagem. A fé. Esta série retrata a passagem de um universo em que domina uma visão cientifica para outro em que o sobrenatural é central e Swallow aproveitou a necessidade de fazer essa transição enriquecendo a sua personagem com uma viagem de descoberta espiritual, descoberta na sua fé no Deus-Imperador da humanidade – é verdade que o tema já tinha sido abordado na série mas desta vez é-lhe dado tempo para ser verdadeiramente explorado.

 

The Emperor protects!

Além de haver uma certa pobreza no que toca a personagens (Garro não é tão complexo ou interessante como o seu antecessor, Loken, além de que parece estar quase sozinho sendo todos os outros quase que amostras de personagens ou personagens potenciais) existem sérios problemas de timing neste volume. A introdução é claramente demasiado longa, mesmo para quem não leu mais nada do universo Warhammer os outros três livros anteriores já tinham dado uma boa imagem das características centrais e a insistência do autor em dedicar tanto espaço a informação que já temos diminui o espaço que poderia ter usado para desenvolver uma história autónoma. Também de apontar que o fim (e o combate associado) é demasiado simples, desilude pela solução linear e deixa demasiadas perguntas que tínhamos no inicio do volume sem resposta. Em resumo é um bom livro, que acrescenta algo à série, mas que tem sérias falhas na forma como foi construído o que o impede de estar à altura do seu antecessor. O próximo volume da série, Fulgrim, já está na minha mesa à espera de leitura.

 

Nota: 7.5/10

A Event Horizon é a nave espacial mais sofisticada que a humanidade já construiu e, se tudo correr como é esperado, será capaz de dobrar a própria estrutura do espaço e do tempo para alcançar uma forma de viagem interestelar rápida e eficiente. Na sua viagem experimental, a Proxima Centauri, a Event Horizon desaparece no limite do sistema solar para nunca mais ser vista. Até agora. Ao fim de sete anos regressou vinda do nada e está neste momento a orbitar Neptuno, aparentemente à deriva. É reunida uma equipa de emergência para resgatar a nave perdida e descobrir o que aconteceu há sete anos. Liderada pelo capitão Miller (Laurence Fishburne) esta relutante equipa é acompanhada pelo criador da Event Horizon, o Dr. Weir (Sam Neill), cujo primeiro dever (e obsessão pessoal) é retirar o máximo de informação possível sobre onde a sua criação andou durante estes anos todos. Ao chegar ao seu destino esta equipa começa a ter reveses atrás de reveses e a ter estranhas e horríficas visões que não parecem ser meras alucinações. Somos convidados a assistir às suas tentativas de obter informação, manter a sua sanidade e acima de tudo sobreviver.

A fonte do mal

 

Estão presentes todos os elementos necessários para termos um bom filme de inspiração “Lovecraftiana”. Algo que foi ao abismo entre o espaço e o tempo e voltou, trazendo consigo horrores inimagináveis que assaltam não só os sentidos físicos de quem é exposto a eles mas que faz tombar as próprias barreiras do que consideramos real abrindo a por para todo a espécie de redefinições da realidade. Os personagens são razoavelmente bem desenhados (apesar de serem um pouco unidimensionais – Miller como líder heróico e Weir como um Fausto moderno) e cumprem o papel de nos manter interessados; claro que isto não impede que, na tradição dos filmes de horror, a maioria das personagens secundárias sejam carne para canhão e caiam vítimas dos terrores da Event Horizon. Penso que houve aqui uma oportunidade perdida para aprofundar psicologicamente o medo que não foi usada sendo que as psiques das duas personagens principais poderiam ter produzido imagens mais interessantes.

Do you see now??

 

A acção segue a sempre a bom ritmo e os momentos mais marcantes estão bem divididos ao longo do tempo sendo que não temos enormes períodos mortos. Apesar de existir alguma linearidade no desenvolvimento desta narrativa eu penso que está em geral bem conseguido servindo de boa introdução a um género especifico de horror que aprecio muito, o género do qual Lovecraft foi o mestre e que sabe manter a tensão constante sem ter que cair na gratuitidade – estou a pensar em filmes recentes como Hostel que são verdadeiros festivais de brutalidade estúpida sem complexidade ou interesse. O final é gratificante mas ao mesmo tempo ambíguo o só nos pode deixar com um sorriso nos lábios , talvez algo tenha passado da Event Horizon para o nosso mundo através do ecrã 🙂

Salvação

 

Um filme que gostei muito e que irei com certeza rever no futuro. Vai para a prateleira dos comfort movies cá de casa. Recomendo a todos especialmente quem quiser uma introdução a Lovecraft ou a quem quiser ver uma adaptação cinematográfica dos seus conceitos literários feita com pés e cabeça.

Nota: 8.5/10

Hull Zero Three – Greg Bear

“A starship hurtles through the emptiness of space. Its destination-unknown. Its purpose-a mystery. Its history-lost. Now, one man wakes up. Ripped from a dream of a new home-a new planet and the woman he was meant to love in his arms-he finds himself, wet, naked, and freezing to death. The dark halls are full of monsters but trusting other survivors he meets might be the greater danger. All he has are questions– Who is he? Where are they going? What happened to the dream of a new life? What happened to the woman he loved? What happened to Hull 03? All will be answered, if he can survive. Uncover the mystery. Fix the ship. Find a way home.”

Parece ser um livro interessante que promete umas boas horas de suspense e aventura espacial – como sorte tem elementos de horror à mistura. Penso que é um bom livro para encomendar para o natal.

Num futuro não muito distante (algo mais distante na altura em que Philip K. Dick escreveu o livro) os Estados Unidos e várioas nações Europeias fundiram os seus sistemas políticos passando efectivamente a existir dois grandes estados mundiais, a União Americana-Europeia (USEA) e a União Soviética (lembrem-se que o livro foi escrito nos anos 60…). Não conseguimos perceber muito bem qual a diferença ou relação entre os dois colossos e os habitantes deste tempo futuro também não as parecem conhecer. De facto não parecem conhecer grande parte do mundo em que habitam, vivendo divididos entre os seus trabalhos, constantes testes ideológicos que visam avaliar os seus conhecimentos da “realidade” (falhar significa passar para uma casta social inferior) e uma obsessão semi-religiosa com a primeira dama dos USEA aparece como a única constante das suas vidas – os presidentes mudam conforme as eleições mas a primeira dama é eterna. Quem é esta primeira-dama? Como consegue ocupar uma função essencialmente monárquica num regime republicano? Quem são os presidentes eleitos que parecem surgir do nada a cada ano eleitoral? Quem controla o poder na realidade?
A belíssima capa da minha edição

E no fundo é este o cerne do livro, o poder e a realidade. As diferentes camadas sociais e a percepção que têm de quem os governa e de quais as suas intenções. Como em todas as distopias (presentes e futuras, reais e imaginárias) há muitos níveis de “realidade” e não é claro quem detém a versão mais correcta. Dick usa um espectro bastante alargado de personagens tentando desta forma dar várias perspectivas sobre os eventos que se vão desenrolando. Temos Richard Kongrosian, um músico com poderes psíquicos, que vive quase incapacitado num mundo de neurose e paranóias constantes; Nicole a misteriosa primeira-dama que funciona como uma espécie de Deusa-Mãe para a população dos USEA; Egon Superb último psicanalista legal que não sabe bem porque foi poupado ao édito presidencial que proibia a psicanálise (considerada como uma pesudo ciência pelos poderosos carteis farmacêuticos); Al Miller um vendedor de pequenas naves que permitem a emigração ilegal para Marte, o último refúgio de pessoas genuinamente livres; e Bertold Goltz revolucionário de agenda obscura que é pintado alternadamente como líder neo-nazi ou como um visionário defensor dos oprimidos.

Uma versão mais antiga

 É um livro complexo para o tamanho que tem (apenas 220 páginas) e não é definitivamente “leve” em termos de conteúdos. Não só porque as semelhanças com o nosso próprio mundo são assustadoras (a forma como PKD prevê o nosso perverso fascínio com a reality tv e alienação daí resultante é algo perturba qualquer um que não seja indiferente aos conceitos de liberdade pessoal e verdade) mas também porque a ambiance (um planeta populado por pessoas profundamente desajustadas a todos os níveis mas que não se apercebem do quão doentes estão) está descrita de forma perfeita e cria uma tensão permanente no leitor que é tentado a simpatizar com as personagens mas ao mesmo tempo desespera com a sua falta de percepção própria e das situações. Um toque particularmente interessante é a introdução do conceito de viagens no tempo (não posso enfatizar o suficiente a riqueza conceptual deste livro) que introduz um elemento de incerta no desenvolvimento da narrativa que nos prende ainda mais à leitura que qualquer nível de empatia para com a personagem A, B ou C.

E uma ainda mais antiga

Mesmo para quem não tenha lido mais nada do autor é fácil perceber porque é que ele é considerado com um dos mestres do género. A riqueza de ideias é tanta que transborda a cada capítulo e o autor não perde tempo desnecessariamente em detalhes que não desenvolvem o conceito central do livro (se houvesse algo a apontar como falha seria precisamente que o leitor quer mais! Facilmente poderia ter escrito um livro com o dobro da dimensão que ninguém diria que o conteúdo fora diluído) – há momentos de introspecção profunda no livro mas não tomam controlo da narrativa o que é um feito notável, conseguir um equilíbrio entre profundidade psicológica e um bom ritmo. No fim da leitura as nossas certezas são arrasadas, o improvável torna-se letal e a nossa própria existência continuada é posta é dúvida. Um dos livros mais interessantes que já li.

Nota: 9.5/10