Posts Tagged ‘Ficção Especulativa’

 

Uma boa capa - há elementos que sugerem um ambiente vitoriano que me agrada muito.

 

“Cerca de 200 anos depois de ter criado o seu monstro, Victor Frankenstein (agora conhecido por Victor Helios), instalou-se em Nova Orleães. As suas experiências e a sua investigação estão cada vez mais sofisticadas; já não tem de roubar cadáveres em cemitérios para construir as suas criaturas, e desenvolveu uma tecnologia que lhe permite escapar ao envelhecimento. O seu plano consiste em propagar por Nova Orleães espécimes da sua Nova Raça de criaturas perfeitas, destinadas a exterminar e a substituir os «imperfeitos» seres humanos. A única criatura capaz de travar este plano diabólico é o misterioso Deucalião – o primeiro «monstro» criado por Frankenstein. Aparentemente imortal e indestrutível, Deucalião parece possuir também alma e uma consciência quase humanas. Mas será isso suficiente para impedir os planos do seu monstruoso criador?”

Nunca li nada de Dean Koontz mas este livro chamou-me mesmo a atenção e provavelmente será a minha próxima aquisição em português. É editado pela Contraponto (parte da Bertrand) e, a julgar pelas imagens no fim do livro, o lançamento dos dois volumes seguintes da trilogia já está previsto (esperemos que de forma mais ou menos rápida já que se torna muito frustrante ter que esperar eternidades por continuações que já foram escritas). Existe uma segunda trilogia sobre o mesmo tema e personagens que foi começada em 2010 com o livro “Lost Souls” estando o segundo e terceiro volumes previstos para 2011 e 2012 respectivamente – não existem datas previstas para a sua edição em Portugal (provavelmente dependerá do sucesso comercial da primeira série).

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Este pequeno tomo de horrores (certamente também será um manuscrito maldito) regala-nos com três terríveis histórias para gelar o sangue numa noite de Inverno. As histórias são apresentadas por ordem de tamanho, da mais pequena para a maior, e por ordem de ritmo, da mais calma (mesmo indolente) para a mais frenética e provavelmente devem ser lidas de seguida para não se perder o comboio emocional.

 

Uma capa bem pensada e chamativa.

Começamos pela “Sombra de Ninguém” que serve de Hors d’oeuvre para esta refeição diabólica. Um estranho poder para tornar visível os elementos invisíveis pode acabar de forma inesperada quando aparece alguém que tornou invisível aquilo que todos deveriam poder ver. Seguimos para a “Luz Miserável” que é um conto cruel de três soldados, o medroso, o maldoso e o moribundo, que reúnem anos depois do fim da guerra em África para tentarem evitar pagar o preço dos seus crimes; alguém os virá buscar agora, no ocaso da sua vida, e só uma hábil artimanha poderá evitar a vingança dos mortos. Tudo acaba com o “Rei Assobio” no qual espreitamos para uma infância estranha passada no Portugal profundo do antigamente. Uma marca no passado causa uma vida dedicada à tentativa de vingar o mal que lhe foi feito e neste combate serão recrutados soldados inocentes que não fazem ideia daquilo em que se acabaram de meter.

 

Uma estética original e bem pensada.

 

As histórias convencem e estão ao nível que seria esperar de David Soares apesar de pessoalmente pensar que a primeira destoa bastante das outras duas e que é um pouco mais fraca. Já me disseram que existiam elementos de ligação nestes contos ao resto da obra do autor e de facto detectei alguns (admito que haja mais mas infelizmente não tenho uma memória fotográfica e há detalhes que podem escapar-me) mas nada que me permita dizer à partida enquadrar o que estou a ler num universo já construído – se há relação com o que foi escrito anteriormente parece ser tangencial. Outra questão, além da relação das histórias entre si e com o resto da obra de David Soares, é a dimensão que para mim desilude. Sabe a pouco quando lemos algo bem escrito e ficamos com a sensação que há ligações que estão prestes a ser reveladas e ficam suspensas no ar das conclusões abertas.

Um aspecto que convém realçar é a parte gráfica do livro em que se nota um trabalho primoroso, a capa é belíssima e o toque especial das páginas negras dá o seu charme a esta edição. É um presente de natal bem diferente para quem gostar de evitar os habituais livros glicodoces que é costume oferecer nesta quadra.

 

Nota: 8/10

Bem vindos a um futuro (ou será o presente?) onde não há governos autónomos. A falta de petróleo e as questões ambientais forçaram todos a abandonar os automóveis como meio de transporte. Ou quase todos. As mega-corporações que dominam o mundo continuam a fornecer carros aos seus executivos que, através de duelos na estrada, decidem a adjudicação de contratos e promoções. Estes novos senhores da guerra são os omnipotentes mestres do mercado e aplicam uma implacável globalização a todos os cantos do planeta. As populações locais estão indefesas face aos vários tiranos financiados internacionalmente e as populações ocidentais foram confinadas a guetos de onde não podem sair e são vítimas fáceis para a doença e o crime. Afinal de contas não se pode permitir que os ineficientes serviços públicos de saúde ou segurança subvertam o justo preço dos serviços privados. Neste mundo perigoso e sangrento Chris Faulkner é uma estrela em ascensão. Passou dos guetos à sala de reuniões executiva em poucos anos e agora recebe uma oferta de trabalho na área do Investimento em Conflitos de uma das maiores firmas a nível global. Estará ele pronto para este novo mundo? Chegará ao topo? Será competitivo o suficiente para sobreviver onde outros falharam? E se sobreviver será a mesma pessoa?

 

A minha edição

Tenho pena de não ter lido este livro há mais tempo porque simplesmente deixou-me boquiaberto. Um cenário político-social tão convincente que deixa o leitor com insónias e preso ao livro. Nota-se claramente que Richard Morgan fez um óptimo trabalho de investigação antes de começar a escrever já que a descrição dos corredores do poder corporativo são intensamente realistas e só ligeiramente exageradas para dar mais acção ao livro. A atmosfera é bem resumida na frase “ou se vai trabalhar com sangue nas rodas ou nem vale a pena aparecer”, que é apenas uma das muitas que vão de certeza ficar na memória do leitor. A separação entre o paraíso artificial para quem trabalha para as corporações e o mundo decadente e violento dentro dos guetos está muito bem conseguida tal como o sentimento de futilidade que escraviza a maior parte da subclasse (as coisas sempre foram assim, talvez consiga sair deste gueto, etc). A cada pausa que fazemos na leitura ficamos na dúvida se estamos a ler uma descrição de algum sitio real ou uma fantasia do autor e acabamos por sentir uma fusão dos dois mundos, o nosso e o de Morgan, que no fundo são extremamente parecidos estando separados apenas por uma questão de graus de agressividade.

A edição portuguesa - os meus parabéns porque está muito bem conseguida!

As personagens estão bem estruturadas e misturadas. Chris Faulkner é alguém com quem conseguimos relacionar-nos porque no fundo não pertence à elite. É apenas um homem que está a tentar melhorar a sua vida aceitando, pelo menos em parte, as regras do único jogo que conhece. A sua mulher e genro, Carla e Erik, funcionam como uma espécie de consciência para Chris que através deles vê o mundo pelos olhos de quem não saiu dos guetos infernais e quem apesar de tudo ainda aspira a mundo que não seja um lugar sórdido movido apenas por uma folha de resultados comerciais. Mike, o amigo e colega de Chris, é um exemplo perfeito de quem aceita o sistema em toda a sua glória vivendo da violência e excesso sem qualquer pudor ou embaraço, afinal de contas ele é o melhor, o mercado assim o determinou. Há que apontar que em termos das relações pessoais Morgan exagera na preponderância que dá ao sexo (na minha opinião claro) acabando por vezes as descrições por cair em tentativas mais ou menos transparentes de titilar os sentidos do leitor sem haver qualquer objectivo literário por detrás destes episódios – mas dada a alta qualidade do resto é uma falha perfeitamente secundária.

 

Ao pousar o livro depois de o acabar percebo perfeitamente porque alguns comparam Richard Morgan a Philip K. Dick e Orwell, o génio para pegar na realidade e criar a sua reflexão, e possível futuro, distópica é extremamente parecida, tal como a atenção dada à evolução das personagens centrais enquanto seres humanos conscientes de si próprios. Em suma: um livro excelente com pequenas falhas, de gosto, que o impendem de ser perfeito.

Nota: 9.5/10

Num futuro não muito distante (algo mais distante na altura em que Philip K. Dick escreveu o livro) os Estados Unidos e várioas nações Europeias fundiram os seus sistemas políticos passando efectivamente a existir dois grandes estados mundiais, a União Americana-Europeia (USEA) e a União Soviética (lembrem-se que o livro foi escrito nos anos 60…). Não conseguimos perceber muito bem qual a diferença ou relação entre os dois colossos e os habitantes deste tempo futuro também não as parecem conhecer. De facto não parecem conhecer grande parte do mundo em que habitam, vivendo divididos entre os seus trabalhos, constantes testes ideológicos que visam avaliar os seus conhecimentos da “realidade” (falhar significa passar para uma casta social inferior) e uma obsessão semi-religiosa com a primeira dama dos USEA aparece como a única constante das suas vidas – os presidentes mudam conforme as eleições mas a primeira dama é eterna. Quem é esta primeira-dama? Como consegue ocupar uma função essencialmente monárquica num regime republicano? Quem são os presidentes eleitos que parecem surgir do nada a cada ano eleitoral? Quem controla o poder na realidade?
A belíssima capa da minha edição

E no fundo é este o cerne do livro, o poder e a realidade. As diferentes camadas sociais e a percepção que têm de quem os governa e de quais as suas intenções. Como em todas as distopias (presentes e futuras, reais e imaginárias) há muitos níveis de “realidade” e não é claro quem detém a versão mais correcta. Dick usa um espectro bastante alargado de personagens tentando desta forma dar várias perspectivas sobre os eventos que se vão desenrolando. Temos Richard Kongrosian, um músico com poderes psíquicos, que vive quase incapacitado num mundo de neurose e paranóias constantes; Nicole a misteriosa primeira-dama que funciona como uma espécie de Deusa-Mãe para a população dos USEA; Egon Superb último psicanalista legal que não sabe bem porque foi poupado ao édito presidencial que proibia a psicanálise (considerada como uma pesudo ciência pelos poderosos carteis farmacêuticos); Al Miller um vendedor de pequenas naves que permitem a emigração ilegal para Marte, o último refúgio de pessoas genuinamente livres; e Bertold Goltz revolucionário de agenda obscura que é pintado alternadamente como líder neo-nazi ou como um visionário defensor dos oprimidos.

Uma versão mais antiga

 É um livro complexo para o tamanho que tem (apenas 220 páginas) e não é definitivamente “leve” em termos de conteúdos. Não só porque as semelhanças com o nosso próprio mundo são assustadoras (a forma como PKD prevê o nosso perverso fascínio com a reality tv e alienação daí resultante é algo perturba qualquer um que não seja indiferente aos conceitos de liberdade pessoal e verdade) mas também porque a ambiance (um planeta populado por pessoas profundamente desajustadas a todos os níveis mas que não se apercebem do quão doentes estão) está descrita de forma perfeita e cria uma tensão permanente no leitor que é tentado a simpatizar com as personagens mas ao mesmo tempo desespera com a sua falta de percepção própria e das situações. Um toque particularmente interessante é a introdução do conceito de viagens no tempo (não posso enfatizar o suficiente a riqueza conceptual deste livro) que introduz um elemento de incerta no desenvolvimento da narrativa que nos prende ainda mais à leitura que qualquer nível de empatia para com a personagem A, B ou C.

E uma ainda mais antiga

Mesmo para quem não tenha lido mais nada do autor é fácil perceber porque é que ele é considerado com um dos mestres do género. A riqueza de ideias é tanta que transborda a cada capítulo e o autor não perde tempo desnecessariamente em detalhes que não desenvolvem o conceito central do livro (se houvesse algo a apontar como falha seria precisamente que o leitor quer mais! Facilmente poderia ter escrito um livro com o dobro da dimensão que ninguém diria que o conteúdo fora diluído) – há momentos de introspecção profunda no livro mas não tomam controlo da narrativa o que é um feito notável, conseguir um equilíbrio entre profundidade psicológica e um bom ritmo. No fim da leitura as nossas certezas são arrasadas, o improvável torna-se letal e a nossa própria existência continuada é posta é dúvida. Um dos livros mais interessantes que já li.

Nota: 9.5/10

Tinha ficado de olho em China Miéville desde há cerca de dois anos quando li o Perdido Street Station e fiquei de boca aberta. Como é que este senhor me tinha passado ao lado durante tanto tempo? Por alguma razão no meio das confusões da minha vida acabei por deixar passar algum tempo até que o autor lançou o seu livro mais recente, Kraken (que também irei ler!), e eu lá encomendei mais três livros dele. Escolhi King Rat em detrimento de outros porque gosto de ler as coisas por ordem cronológica mesmo quando os livros não estão relacionados entre si. Penso que fiz uma boa escolha 🙂

A minha edição

O livro começa com a destruição da vida de Saul, um jovem adulto que vive em Londres e tem uma relação distante com o seu pai. Este é assassinado por um homem misterioso e a polícia, sem outros suspeitos, acusa Saul do feito. Atirado para uma cela sem saber bem o que se passou ou de que pode ser acusado recebe a visita de um estranho ser, King Rat (literalmente rei das ratazanas), que o quer salvar porque é seu tio. Introduzido a um novo mundo subterrâneo que partilha com as ratazanas (súbditos do seu tio) Saul descobre novos poderes (velocidade, força, agilidade, etc) que nunca suspeitou ter e acaba por entender que apesar de tudo o que aconteceu é possível construir uma nova vida. Só que quem matou o pai de Saul não está disposto a deixar que ele escape. Não haverá amanhã para Saul se ele não descobrir o que se passou e quem anda atrás dele e do próprio King Rat, de Loplop (rei dos pássaros) e de Anansi (rei das aranhas). Quem é poderoso o suficiente para tentar destruir três monarcas do reino animal e porquê o interesse em Saul quando ele próprio não sabia dos seus poderes?

 

Miéville tem um talento nato para escrever histórias em settings urbanos. Já tinha tido essa impressão em Perdido Street Station e confirmo isso com King Rat. A cidade, dos esgotos às discotecas, ganha vida nas suas palavras e todos os elementos adquirem uma dinâmica que os transforma de simples cenário para acção num elemento constante que pulsa ao longo de todos os eventos e personagens; para mim, que sou fã de ambientes urbanos, ter um escritor que consiga dar vida ao betão e tijolo é algo fenomenal e acrescenta valor a qualquer livro. De forma apropriada neste ambiente mágico o livro ganha proporções de história de encantar para adultos à medida que personagens mitológicas ganham vida e forma à volta de Saul e da sua nova vida. É uma mistura interessante de conto de fadas, mistério e alguma introspecção (apesar de este último elemento estar presente de forma mais “light” que os outros).

O Autor

 A história pode também ser lida como uma metáfora para a vida urbana, sofisticada mas ao mesmo tempo artificial e por vezes sem sentido, cheia de mentiras aceites de forma colectiva de forma a não sermos incomodados. Um livro indispensável para fãs de urban fantasy (e sim este é dos poucos autores que escreve livros que mereçam esse nome) e serve de introdução a quem nunca leu nada do de Miéville já que é bastante menos complexo que outros livros escritos posteriormente.

Nota: 8.5/10

Cornos – Joe Hill – Gailivro

“Ignatius Perrish passou a noite embriagado e a fazer coisas terríveis. Na manhã seguinte acordou com uma ressaca tremenda, uma dor de cabeça violenta… e um par de cornos a sair-lhe das têmporas.No início Ig pensou que os cornos eram uma alucinação, fruto de uma mente danificada pela fúria e pelo desgosto. Passara um ano inteiro num purgatório solitário e privado depois da morte da sua amada, Merrin Williams, violada e assassinada em circunstâncias inexplicáveis. Um colapso mental teria sido a coisa mais natural do mundo. Mas nada havia de natural nos cornos, que eram bem reais.Em tempos, o íntegro Ig usufruíra da vida dos bem-aventurados, Ig tinha estabilidade, dinheiro e um lugar na comunidade. O único suspeito do crime, Ig nunca foi acusado ou julgado. Mas também nunca foi ilibado. No tribunal da opinião pública de Gideon, New Hampshire, Ig é e será sempre culpado. Nada que ele possa dizer ou fazer importa. Todos o abandonaram e parece que o próprio Deus também. Todos com excepção do demónio que está dentro de si… E, agora, Ig está possuído por um poder novo e terrível que condiz com o seu novo look assustador – um talento macabro que tenciona usar para descobrir o monstro que matou Merrin e que destruiu a sua vida.”

 

A Luz Miserável – David Soares – Saída de Emergência

“O horror está de volta. Nestas três histórias, David Soares (O Evangelho do Enforcado, Lisboa Triunfante, A Conspiração dos Antepassados) apresenta imagens de luz e trevas que não deixarão nenhum leitor indiferente. Desde o ambiente exótico de A Sombra Sem Ninguém, passando pelos interiores claustrofóbicos de A Luz Miserável, até à extravagância macabra de Rei Assobio, os leitores vão conhecer personagens inesquecíveis, como um homem “quase” invisível, três soldados amaldiçoados e um velhote mutilado e vingativo. Do suspense ao splatterpunk, A Luz Miserável é um livro de contos de horror provocadores, diabólicos e literários. Uma viagem vertiginosa ao lado negríssimo da imaginação.”

David Selig tinha potencial. Um aluno brilhante, apesar de irrequieto, parecia ter um nível de inteligência fora do normal o que lhe permitiu aceder a uma das melhores instituições universitárias que os Estados Unidos têm para oferecer às suas elites. Mas David Selig tem um segredo que poucos conhecem. Ele não é verdadeiramente brilhante ou sequer particularmente esperto… simplesmente tem um dom que quase ninguém tem, é um telepata. Consegue ler as mentes de todos à sua volta mas isso só parece isolá-lo do resto do mundo à medida que os sonhos e ilusões são esmagados ao longo da sua juventude e a banalidade da alma da maioria das pessoas se torna clara ao nosso “herói”.

Vamos encontrá-lo no inicio da história já com mais de 40 anos (escrita e colocada no inicio dos anos 70, pós era hippy e pós revolução sexual) a viver à margem da sociedade em bairros sociais e ganhando algum dinheiro através de expedientes dúbios como vendedor de trabalhos académicos a alunos sem talento ou capacidade para os fazerem por si próprios. Vive isolado do mundo sem ter qualquer tipo de relação amorosa já que as únicas que verdadeiramente significaram algo para si acabaram desastrosamente devido ao seu dom e a única família que lhe resta é a sua irmã Judith que, por conhecer o seu segredo, o teme acabando a relação deles por oscilar entre pólos de amor fraternal e ódio paranóico. Como pode um homem com tudo a seu favor acabar nesta situação? Como pode alguém com o poder de um deus, de aceder à consciência de qualquer pessoa, falhar tão rotundamente na vida? A verdade é que desde há muito tempo que o seu poder tem vindo a diminuir e agora está em vias de desaparecer.

É isso que a obra explora ao dar-nos vislumbres da vida de David Selig que serve como personagem e narrador consciente de estar a relatar a sua vida a terceiros. Somos levados aos primeiros dias da sua infância quando se divertia a brincar com a mente do psiquiatra que estudava a criança prodígio que os seus pais pensavam que ele era. Passamos pelo rosário das suas conquistas amorosas e profissionais e até pelas poucas amizades que conseguiu estabelecer, a única verdadeiramente significativa sendo com outro telepata que descobre por acaso. Ao longo de um série de flashbacks intercalados com momentos da sua vida presente sentimos o poder de telepatia de Selig a morrer dentro dele. Cada ano que passa a partir dos 30 a sua capacidade diminui sem que ele conheça a razão para tal facto. A sua própria identidade enquanto ser humano (e a forma como ele se colocou perante o mundo) é questionada quando o que era mais importante na sua vida, o seu dom e a sua maldição, definha sem que ele possa fazer nada.

O livro mostra também a erudição do autor que dá à sua personagem um vasto leque de conhecimentos literários e filosóficos através dos quais tenta percepcionar (às várias etapas da sua vida) o que lhe está a acontecer. Por vezes quase que é uma agradável viagem cultural que serve para Robert Silverberg abordar o tema da identidade humana e o nosso lugar dentro dos vários grupos sociais a que pertencemos. Pode ser dito que o elemento existencialista é levado a tal ponto que a parte da ficção cientifica quase que fica esquecida (ou pelo menos subdesenvolvida) sendo que a telepatia é quase que acidental ou uma ferramenta secundária para criar uma personagem mais estranha e interessante. Recomendo vivamente este livro e faço intenções de arranjar mais livros desta colecção (SF Masterworks).

Nota: 8.5/10