Posts Tagged ‘Richard Morgan’

Bem vindos a um futuro (ou será o presente?) onde não há governos autónomos. A falta de petróleo e as questões ambientais forçaram todos a abandonar os automóveis como meio de transporte. Ou quase todos. As mega-corporações que dominam o mundo continuam a fornecer carros aos seus executivos que, através de duelos na estrada, decidem a adjudicação de contratos e promoções. Estes novos senhores da guerra são os omnipotentes mestres do mercado e aplicam uma implacável globalização a todos os cantos do planeta. As populações locais estão indefesas face aos vários tiranos financiados internacionalmente e as populações ocidentais foram confinadas a guetos de onde não podem sair e são vítimas fáceis para a doença e o crime. Afinal de contas não se pode permitir que os ineficientes serviços públicos de saúde ou segurança subvertam o justo preço dos serviços privados. Neste mundo perigoso e sangrento Chris Faulkner é uma estrela em ascensão. Passou dos guetos à sala de reuniões executiva em poucos anos e agora recebe uma oferta de trabalho na área do Investimento em Conflitos de uma das maiores firmas a nível global. Estará ele pronto para este novo mundo? Chegará ao topo? Será competitivo o suficiente para sobreviver onde outros falharam? E se sobreviver será a mesma pessoa?

 

A minha edição

Tenho pena de não ter lido este livro há mais tempo porque simplesmente deixou-me boquiaberto. Um cenário político-social tão convincente que deixa o leitor com insónias e preso ao livro. Nota-se claramente que Richard Morgan fez um óptimo trabalho de investigação antes de começar a escrever já que a descrição dos corredores do poder corporativo são intensamente realistas e só ligeiramente exageradas para dar mais acção ao livro. A atmosfera é bem resumida na frase “ou se vai trabalhar com sangue nas rodas ou nem vale a pena aparecer”, que é apenas uma das muitas que vão de certeza ficar na memória do leitor. A separação entre o paraíso artificial para quem trabalha para as corporações e o mundo decadente e violento dentro dos guetos está muito bem conseguida tal como o sentimento de futilidade que escraviza a maior parte da subclasse (as coisas sempre foram assim, talvez consiga sair deste gueto, etc). A cada pausa que fazemos na leitura ficamos na dúvida se estamos a ler uma descrição de algum sitio real ou uma fantasia do autor e acabamos por sentir uma fusão dos dois mundos, o nosso e o de Morgan, que no fundo são extremamente parecidos estando separados apenas por uma questão de graus de agressividade.

A edição portuguesa - os meus parabéns porque está muito bem conseguida!

As personagens estão bem estruturadas e misturadas. Chris Faulkner é alguém com quem conseguimos relacionar-nos porque no fundo não pertence à elite. É apenas um homem que está a tentar melhorar a sua vida aceitando, pelo menos em parte, as regras do único jogo que conhece. A sua mulher e genro, Carla e Erik, funcionam como uma espécie de consciência para Chris que através deles vê o mundo pelos olhos de quem não saiu dos guetos infernais e quem apesar de tudo ainda aspira a mundo que não seja um lugar sórdido movido apenas por uma folha de resultados comerciais. Mike, o amigo e colega de Chris, é um exemplo perfeito de quem aceita o sistema em toda a sua glória vivendo da violência e excesso sem qualquer pudor ou embaraço, afinal de contas ele é o melhor, o mercado assim o determinou. Há que apontar que em termos das relações pessoais Morgan exagera na preponderância que dá ao sexo (na minha opinião claro) acabando por vezes as descrições por cair em tentativas mais ou menos transparentes de titilar os sentidos do leitor sem haver qualquer objectivo literário por detrás destes episódios – mas dada a alta qualidade do resto é uma falha perfeitamente secundária.

 

Ao pousar o livro depois de o acabar percebo perfeitamente porque alguns comparam Richard Morgan a Philip K. Dick e Orwell, o génio para pegar na realidade e criar a sua reflexão, e possível futuro, distópica é extremamente parecida, tal como a atenção dada à evolução das personagens centrais enquanto seres humanos conscientes de si próprios. Em suma: um livro excelente com pequenas falhas, de gosto, que o impendem de ser perfeito.

Nota: 9.5/10

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