Posts Tagged ‘Robert Jordan’

Rand al’Thor, o Dragão Renascido, reclamou o que é seu de direito. Cumprindo profecias de há três mil anos ele fez a fortaleza de Tear cair pela primeira vez desde que o mundo foi devastado pela loucura que infecta os utilizadores masculinos do Poder. Utilizando um poder que mal consegue compreender e utilizar Rand atravessa as montanhas e no deserto une metade dos clãs Aiel. Neste ponto começa o nosso livro. Muito já foi alcançado mas não está sequer perto de ser suficiente. Uma nação serve o Dragão e metade do povo exilado no deserto já o proclamou como o salvador mas falta muito mais. No fim, antes da batalha final, Tarmon Gai’don, contra Shai’tan na qual Rand morrerá, todas as nações e povos do mundo terão que servir o Dragão Renascido, é a sua única hipótese de salvação. Mas as trevas não estão à espera passivamente. Os Perdidos (Aes Sedai, ou utilizadores do Poder, mais poderosos da Era das Lendas há mais de três mil anos tornados imortais pela sua traição à Luz) estão soltos de novo e cada um conspira para não só destruir aquele que os poderá travar como para acumular o máximo de poder possível; uma deles, Lanfear, possui mesmo uma paixão por Rand já que muito antes de ser o Dragão Renascido ele foi Lews Therin Telamon, o Dragão, amante de Lanfear antes de ela se passar para o mal. Entretanto os sete selos que formam a prisão do Grande Senhor da Escuridão enfraquecem a cada dia que passa e a sua libertação parece eminente. Como se isto não fosse suficiente até aqueles que não servem a sombra recusam-se encarar a realidade; a Torre Branca (as Aes Sedai femininas que conservam a capacidade de usar o Poder sem enlouquecer) conspira para domar Rand acabando apenas por conseguir fracturar-se a si própria e iniciar uma guerra civil; os Capas Brancas, seguidores fanáticos da Luz (segundo a sua própria opinião), não toleram que qualquer homem se sobreponha à sua instituição na defesa do bem e muito menos que exerça mais poder que eles; do outro lado do mundo os Seanchan, em tempos parte do maior império do mundo, pensam apenas em reclamar o que em tempos lhes pertenceu e parecem até ter esquecido as lendas e tradições que os protegem contra a Sombra, incluindo o dever de servir o Dragão Renascido quando o Fim chegar; e finalmente até os próprios seguidores do profeta do Dragão parecem estar a decair numa espiral de violência e fanatismo sem sentido que só pode acabar mal.

Uma boa edição sem precisar de imagens.

Se há algo que temos que admitir ao ler Robert Jordan é que o nível de detalhe que inclui na sua obra é impressionante. A junção de elementos tipicamente ocidentais (toda uma série de mitologia à la Tolkien) com orientais (sociedades com toques orientais, o conceito de saidin e saidar que são reflexos de yin e yang) é feita de forma convincente tornando-se um todo coerente e absorvente. Mais que isso, só o número de personagens e eventos seria complicado de gerir para qualquer outro autor (até o próprio Jordan parece sentir algumas dificuldades em manter tantas bolas no ar porque um dos heróis principais da série, Perrin, nem sequer é mencionado neste livro). Foram estes dois factores que me fizeram ficar interessado pela série Wheel of Time quando a comecei a ler e me fizeram esquecer os elementos demasiado tradicionais da narrativa, que poderia ter facilmente caído no género da imitação de Tolkien durante os primeiros livros, e asseguraram um espaço mental próprio dentro de mim. Os primeiros quatro volumes foram crescendo em qualidade terminando de forma impressionante no quarto volume, The Shadow Rising, e sinceramente esperava que pelo menos o nível tivesse sido mantido. Não foi o caso. Há uma súbita queda na qualidade deste livro quando comparado com o resto da série que sinceramente me deixou algo surpreso. É verdade que a leitura demorou bastante tempo porque tive também uns dias doente e que se calhar a leitura de Midnight Tides está muito recente na minha memória e comparei os dois livros de forma não intencional mas sejam qual forem os factores que possam mitigar a minha desilusão a verdade é que a minha experiência como leitor foi muito mais fraca neste volume. Há uma constante repetição de tiques nervosos por parte das personagens (como se isso constituísse carácter ou personalidade) e recapitulações mentais a cada capítulo do que se passou para trás e isso começa a tornar a leitura monótona. Além disso a história pura e simplesmente não avança sendo que a primeira metade do livro (especialmente o que se passa no deserto através da perspectiva de Rand e da sua comitiva) é quase que dispensável e só acabamos por encontrar resolução de alguns eventos nas últimas 300 páginas – um número interessante porque sinceramente era esse o número de páginas que qualquer editor que tivesse tido coragem de falar com Jordan lhe deveria ter dito para cortar, não fazem falta, não acrescentam à narrativa e a partir de certa altura o volume de informação repetida ou irrelevante torna-se irritante.

A nova edição - ainda não tenho certeza se gosto...

A narrativa acaba por evoluir, a custo, e acabamos por ter direito a uma boa história com duas perspectivas. Uma segue Rand, Egwene, e Moraine no deserto sendo que o primeiro luta para cumprir a sua responsabilidade, a segunda para aprender os poderes dos sábios do deserto (a versão aiel das Aes Sedai) e a última para tentar ensinar a Rand tudo o que ele precisa de saber. A segunda perspectiva segue Nynaeve e Elayne na sua fuga de um dos Perdidos e por fim da guerra civil que divide a Torre Branca onde ambas estudavam (juntamente com Egwene para vir a ser Aes Sedai) sendo que acabamos por ter uma série de peripécias por vezes alarmantes, por vezes trágicas e às vezes mesmo divertidas envolvendo as duas amigas. Pessoalmente achei a segunda linha de desenvolvimento mais interessante quanto mais não seja porque além de mais divertia é menos atabalhoada (a parte do desenvolvimento emocional das personagens que o autor insiste mais com Rand e as suas paixões é… má…) que a segunda e avança a uma passo menos lento. No fim apesar de me ter divertido um pouco e ter a certeza que vou continuar a ler a série fiquei com um gosto agridoce na boca. Esperava melhor e espero que próximo volume, Lord of Chaos, compense.

 

Nota: 7/10

 

Ps: em Portugal os primeiros quatro volumes da Wheel of Time estão traduzidos pela Bertrand que entretanto optou por descontinuar a série.