Posts Tagged ‘Steven Erikson’

Steven Erikson é um autor que redefiniu o significado de “épico” com a série Malazan Book of the Fallen. O alcance e escala que utiliza são esmagadores e extremamente raros num autor de fantasia. Um mundo rico em cult uras e política que não tem inspiração nos cansados, e previsíveis, estereótipos de Tolkien. Inicialmente tudo nos é apresentado em vários cenários diferentes (normalmente cada livro centra-se num único continente e num único set de personagens) que de alguma forma se ligam. Seguimos as aventuras de membros do Império de Malazan que tenta desesperadamente conquistar novos terrenos ou manter aqueles que já possui. Claro que em cada campanha de Malazan há segredos, civilizações e poderes que são desconhecidos e que complicam enormemente qualquer conquista ou pacificação. Mesmo internamente há muita dissensão no Império já que nem todos ficaram felizes quando a actual Imperatriz assassinou ou o seu predecessor e assumiu o cargo. Mais preocupante para o leitor em cada livro surge uma mensagem cada vez mais urgente, há algo de profundamente errado no mundo e Malaz provavelmente terá uma agenda que não tem como objectivo primário a mera expansão territorial.
Uma grande capa – escura e ameaçadora

 Neste livro em particular somos levados a um novo continente onde, pela primeira vez na série, Malaz não tem qualquer presença militar. Uma terra dividida entre o reino de Lether, uma nação obcecada com a noção de divida e com a acumulação de ouro, e os Tiste Edur um povo de seres com duração de vida enorme que são os filhos da Sombra e que vivem como nação há pouco tempo sendo que as diferentes tribos foram apenas recentemente unificadas pelo rei-feiticeiro. Agora estas duas nações estão numa situação de tensão crescente à medida que Lether se prepara para absorver e escravizar mais um povo. Mas serão as correntes financeiras suficientes para prender uma nação que rejeita visceralmente o valor do ouro? Além desta preocupação o rei-feiticeiro dos Edur possui um novo Deus. Um Deus aleijado. Um Deus louco. Um Deus que lhe prometeu poder para derrotar qualquer potência no mundo e em troca só pede agressão e violência sem limites.

 

A capa americana... um desastre.

Ao longo das mais de 900 páginas deste livro vamos conhecendo um leque de personagens absolutamente fascinante e cada uma mais excêntrica que a outra. Os irmãos Beddict; Hull, o mais velho, que serviu Lether como emissário a outros reinos e tribos e viu todo o seu trabalhado ser pervertido em nome da conquista e de ouro quer agora ajudar os Edur a sobreviver; Brys o campeão do rei Diskanar (de Lether) que é apanhado em intrigas palacianas que não lhe dizem nada; e Tehol um verdadeiro génio da finança e da manipulação que se prepara para fazer tombar o reino a partir do seu interior. Os irmãos Sengar; Fear, o mais velho, é o general do rei-feiticeiro; Binadas um mago de grande poder; Trull (que já apareceu no volume anterior, House of Chains, que cronologicamente descreve eventos posteriores a este livro) um guerreiro formidável que tudo observa e que recusa abandonar a sua consciência mesmo face à desaprovação de todo o seu povo; e Rhulad um jovem arrogante que ainda tem tudo para provar aos seus irmãos e à sua tribo. Além destas temos ainda um leque riquíssimo de personagens secundárias que vão desde deuses a soldados ou pedintes. Tudo misturado com uma qualidade que raramente é visto – quase todas as personagens estão cuidadosamente pensadas e são verdadeiramente únicas. Há que dizer que para os leitores que sejam facilmente frustráveis ou gostem de perceber toda a história do livro nas primeiras 50 páginas ler Erikson é um pesadelo. Felizmente não sou um desses leitores. É um autor que recompensa a perseverança e a curiosidade (e dada a qualidade da escrita as mais de 1000 páginas de cada volume parecem pouco) e que só aos poucos nos vai revelando o rumo que vai dar à história e como é que os vários elementos deste mundo fantástico funcionam. Um óptimo exemplo disso mesmo é o sistema de magia (usando Warrens, que são uma mistura de energias e dimensões paralelas) que criou que além de complexo e inovador é sempre algo que deixa o leitor curioso. Mais de uma história de pessoas é uma história de povos, civilizações, deuses e de princípios universais e isso dá-lhe uma capacidade de ser intemporal e universal que apela a um elemento que tem sido deixado de lado pela fantasia moderna, a tragédia. Os heróis, ao contrário dos filmes de Hollywood, não são todos pais de família que querem vingar um ente perdido nem são imunes ao poder e à corrupção ou, muitas vezes, são sequer pessoas de quem seja fácil gostar. Tal como na vida real são variados, com falhas e muitas vezes lutam contra algo que é inevitável. Pode parecer que isto pode dificultar a empatia com as personagens ou frustrar o leitor mas garanto que em vez disso sentimos um respeito crescente pela história e pelas lutas que Erikson nos relata.

 O livro parece acumular tensão sobre tensão durante a primeira metade e como uma tempestade desencadeia eventos e acções extremamente violentos na segunda. Como um furacão nada fica no caminho do destino que está traçado para estas personagens. Em termos de desenvolvimento da história há pontos algo lentos em que parece que o autor está a atrasar o inevitável mas graças a um sentido de humor algo negro até esses momentos se tornam mais agradáveis e descontraídos ainda que deixem o leitor sempre à procura de mais. A resolução final dos eventos deixa muitas cinzas e escombros e muitas questões por responder, como aliás não podia deixar de ser já que este é o quinto volume da série e existem mais outros cinco, apesar de na minha opinião ser um final satisfatório é talvez demasiado ambíguo e adia demasiadas revelações (de alguma forma o timing deste livro é pior que noutros anteriores).

 

Nota: 9/10

 

Uma das melhores surpresas que já tive.

Uma verdadeira epopeia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PS: Sei que não consegui fazer justiça a esta série numa crítica tão curta quando o material é tão rico mas queria deixar claro que considero que esta é a melhor série de fantasia que existe nos nossos tempos. Deixa a riqueza de elementos de “Wheel of time” de Robert Jordan no pó e a complexidade de “A Song of Ice and Fire” de George R. R. Martin a parecer uma construção feita com legos. Basta dizer que, na minha opinião, o segundo e terceiro volumes desta série (Deadhouse Gates e Memories of Ice) são dos poucos livros que merecem uma nota de 10/10.  

Saiu há pouco tempo o que parece ser a capa definitiva do último livro da série Malazan Book of the Fallen. A arte está muito boa mesmo e dá vontade de acelerar o tempo uns meses para pôr as mãos num exemplar. Por enquanto esta série, uma das melhores e mais vendidas da última década, não foi traduzida para português – suponho que pelo tamanho maciço de cada volume que costuma ultrapassar as mil páginas (antes isso que parar a meio como foi feito com a série Wheel of Time).